
Stuart Staples é, em conversa, a mesma personagem do palco e dos discos: tipo de pouco entusiasmo, de pensamento focado em tudo menos no que se passa à sua volta. É preciso esperar pelos intervalos para cigarro para ouvirmos respostas. Ao telefone, decifra-se o fumo do tabaco e o isqueiro, várias vezes em poucos minutos. É a única obsessão que lhe resta – estes são “dias felizes”, como nunca viveu antes, e quase tudo o que era vício ficou pelo caminho.
O seu estado de graça, que se confunde com indiferença, foi o motor de “Falling Down a Mountain”, o mais recente disco dos Tindersticks, que hoje dão o primeiro de cinco concertos em Portugal. Staples avisa: [Em palco] “já não vai estar o homem mais triste do Reino Unido, para grande tristeza dos que choravam a ouvir-nos.”
Bom dia alegria O cantor, letrista e ídolo de melancólicos de gola alta e Invernos duradouros confessa-se. Sabe que já foi deprimido por opção, “como se tivesse um horário para a tristeza”. A sua existência enquanto criativo dependia da “capacidade de ser miserável” e a função foi cumprida com sucesso “durante os seis primeiros anos dos Tindersticks”. Após este período de glória musical a bordo de desventuras, tudo perdeu o interesse: “Seguimos o exemplo dos Beatles e transformámos tudo numa grande dor de cabeça. Mas sem a Yoko Ono.”
Por estes dias, Stuart Staples diz que a música dos Tindersticks é “banda-sonora para noites wine & cheese que podem terminar com sobremesas na horizontal”. Coisa libidinosa, que já não está preparada para faces tristonhas nem arrependidos falhados. As canções novas surgem embaladas num pacote de título pouco simpático, “Falling Down a Mountain”. Mas este “cair de uma montanha” é apenas “um título sem qualquer significado, nunca ninguém deveria preocupar-se em decifrar títulos de discos, são algo genuinamente desinteressante”. Ficamos a saber o que é realmente importante: “Ter pandeiretas numa canção, o melhor instrumento rock’n'roll algum vez criado. Passar uma boa temporada como se fôssemos a pior banda do mundo, apenas para podermos voltar a ser algo de interessante. E viver longe dos restantes companheiros de banda. A música pode estragar amizades, tudo isto é violento de mais.”
Geografias Pudesse deixar de ser britânico e Stuart Staples não pensaria duas vezes. Tem prazeres obscuros por resolver, pormenores que lhe vincam a genética como uma praga crónica. Primeiro problema: o futebol. “O Nottingham Forest é a única coisa que me prende à minha terra natal”, diz este vassalo do antigo jogador e treinador Brian Clough, que apelida de “o mais importante nome da história do futebol”. Exageros à parte, eis o segundo problema: a autocomiseração. “Se eu não tiver pena de mim próprio, ninguém vai fazer. Preciso disso para saber que sou uma pessoa problemática que tenho de resolver problemas aparentemente insignificantes mas em tudo decisivos”. E esta é uma capacidade que pertence aos “filhos de sua majestade”, diz-nos o próprio.
Porque a América será sempre demasiado distante – “gostava de ser apaixonado pela terra das oportunidades mas não consigo” – Paris serve-lhe de morada, para passeios à beira -rio e vida em cafés de bairro: “Está tudo tão bem que estranho a minha própria vida, não sei onde vou parar.”
este texto foi originalmente publicado na edição de 3 de Fevereiro do jornal ‘i’