Os Dr. Dog regressam – escutemos que é coisa de gente cuidada

Um dos maiores erros de 2008 foi não ter incluído o álbum Fate, dos Dr. Dog, nas listas de melhores do ano. Certo, a linhagem que corre nas artérias de Filadélfia não é exactamente aquela que se escuta nesta gente de travo britânico, com o White Album decorado de trás para a frente, a querer ser o que os Beatles poderiam ter feito na década de 70 mas, por obra de um destino inteligente, não fiseram – deixaram que gente como esta imaginasse. Mas o sotaque pertence-lhes, não requisitemos explicações detalhadas. A hipótese para remediar erros recentes está próxima. Acontece a 6 de Abril, data para a edição de um novo álbum dos Dr. Dog, Shame Shame. O que sabemos por agora é que haverá histórias de cidade, relatos mais caseiros, nem por isso pessoais e instransmissíveis. Coisas como este Shadow People:

Dr. Dog: ‘Shadow People’

O regresso dos No Age

Bandas como os No Age vivem para a novidade. Gente que cresceu a desejar ser tão groupie como roadie, a querer saber os títulos de todos os discos que nessa última semana chegaram à loja de bairro, a desejar conhecer os segredos do grupo menos conhecido no mês, a fazer apostas sobre quem será famoso e, quando isso acontece, são também os primeiros a desistir e a procurar um novo segredo por revelar. Por isso, os mesmos No Age também vivem para momentos como este: quando são protagonistas por decidirem partilhar o que ainda é novidade. Neste caso, três canções novas, punk e brincadeiras de miudagem encantada com samples, Husker Du e o não-saber-onde-se-vai-parar. Vai estar tudo num novo álbum, a editar este ano. Até lá, está por aqui, com a cortesia Daytrotter:

No Age: ‘NGFS’

No Age: ‘Hard Trash’

No Age: ‘Depletion’

E agora para algo pouco confuso: One For The Team

Julgamos não haver pecado em bater o pé ao ritmo de coisa pop com o apelido power – que o anglicismo aqui seja sinónimo de vontade e criatividade colorida. Na corrente que tem passado por várias cidades americanas, a obrigar garotos a quererem ser estrelas com pouco esforço, pouco mais que uns exercícios instrumentais decorados lado a lado com os discos de uma “ainda curta” vivência artística. Pode nunca vir a ser mais que isso. Mas enquanto é o que é, que assim seja:

One For The Team: ‘Every Little Thing’

One For The team: ‘Best Suporting Actress’

Massive Attack: ‘Heligoland’

São um dos nomes pelos quais vale a pena recordar os anos 90 como período inspirador. E depois de assinarem momentos de referência e de inventarem mais um catálogo para as lojas de discos – o trip-hop – passaram mais de uma década como inspiração para todos os que desejavam também ser de Bristol. Em 2010, os Massive Attack transformam-se num paradoxo.

Os pioneiros fazem-se analistas da própria obra. Os mesmos que ditaram tendências são agora atentos observadores da pop que se escreve noutros territórios. A boa notícia escuta-se no novo álbum, “Heligoland”: toda esta crise existencial que acompanha Robert “3D” del Naja e Grant “Daddy G” Marshall resultou no regresso a um dos elementos fundamentais dos Massive Attack – a canção como construção de corpo coeso.

Os sete anos que separam este novo capítulo de “100th Window” foram para os Massive Attack pouco mais que digressões de pouca novidade e colaborações em bandas-sonoras (além de terem gerado a compilação “Collected”). A reacção, de quem assistiu de longe, foi especular sobre a inconsequência do trabalho do grupo. A resposta fez-se com sessões de gravação em Nova Iorque, com algumas das recentes inspirações de gente como os Radiohead, contou com ajuda de Tunde Adepimbe, dos TV On The Radio, e procurou consultores junto da DFA. Parte da identidade que lhes reconhecemos foi garantida com a soul transfigurada de Martina Topley-Bird e Horace Andy.

Um regresso consciente aos territórios de “Mezzanine”, frio, soturno, mas estranhamente viciante, nos ritmos e nas nuances instrumentais certeiras. A querer piscar o olho ao dub e ao hip hop enfumarado de “Blue Lines” (1991), mas com a lucidez suficiente para saber que esse retorno, por completo, é impossível. Damon Albarn, Guy Garvey (Elbow) e Hope Sandoval asseguram o calor das vozes urbanas que os Massive Attack sempre cultivaram. Dez canções – a dose certa para sabermos que este é o melhor regresso a Bristol.

este texto foi originalmente publicado na edição de 6 de Fevereiro do jornal ‘i’

‘Be Brave’: os Strange Boys estão quase de regresso

Quando os vimos em palco sabíamos que mais história haveria por contar. As primeiras canções assim o demonstravam – construídas com infância e paixão pelos mais velhos mas a querer ser identidade, convicção. Com boa dose de hedonismo no saudável desleixo da escrita e da interpretação, mas a conseguir convencer, ainda assim. E agora, de onde vem este saxofone desgarrado, que a meio de um baile de teddy boys desmonta as peças todas do puzzle? Os Strange Boys, em nada estranhos e em tudo evidentes, preparam o regresso, com Be Brave, o disco e o tema que lhe dá nome. Assim:

Be Brave é editado a 23 de Fevereiro

Os Free Energy são glamour de rua para o século XXI

Enquanto não chegam as novas gravações com a marca LCD Soundsystem, James Murphy, a bordo do selo de garantia DFA, assegura que Stuck On Nothing, o álbum de estreia dos Free Energy (que produziu) é coisa para despertar atenções. Como se Nova Iorque tivesse descoberto nova dose de glamour nas garagens receheadas de bandas rock, technicolor com brilhantina nos acordes dos Strokes ou a adolescência do século XXI a vestir T-shirts dos AC/DC. É o que nos diz este Hope Child, a incluir no álbum com edição marcada para 9 de Março:

Free Energy: ‘Hope Child’

Hot Chip: ‘One Life Stand’

Está nas lojas na próxima semana. David Bowie com mel na voz e o disco sound a bater à porta. Gente que gosta de ter discos de jazz em casa e de visitar clubes obscuros pela noite. Britânicos a sonhar com Las Vegas e com tudo o que por lá acontece – e por lá fica. Os Hot Chip mostaram One Life Stand no programa de Jimmy Fallon. Com a ajuda dos The Roots, é certo, mas a garantir que a curiosidade está com eles e com as canções que compõem o novo álbum, com o mesmo título:

Gorillaz: ‘Plastic Beach’ orquestral

Um dos segredos dos Gorillaz tem sido a surpresa – a que os acompanha enqunto geram momentos pop de referência e a mesa que os criou enquanto personagens de uma ficção quase real. Mais uma vez, o mesmo princípio, desta vez para apresentar o novo conceito transformado em álbum a 8 de Março próximo. Por estes dias, Plastic Beach vai chegando até nós da seguinte forma:

Imelda Marcos por David Byrne e Fatboy Slim: primeiras revelações

Desde que as primeiras notícias sobre um álbum conceptual assinado por David Byrne e Fatboy Slim com canções inspiradas em Imelda Marcos chegou às linhas da internet, a curiosidade teve a sua óbvia e esperada consequência na especulação de bloggers e outros ciber-viajantes. As mais variadas descrições marcaram presença nos posts e nas informações que circularam como boatos. Finalmente chegam as primeiras certezas, com a revelação do tema que aber a colecção de canções dispersa em dois discos. Here Lies Love é apresentada pela voz de Florence Welch.

Cada um dos temas do álbum é, na verdade, interpretado por uma voz feminina diferente. Fica o alinhamento:

Disc 1
01 “Here Lies Love” (Vocal by Florence Welch)
02 “Every Drop Of Rain” (Vocals by Candie Payne & St. Vincent)
03 “You’ll Be Taken Care Of” (Vocal by Tori Amos)
04 “The Rose Of Tacloban” (Vocal by Martha Wainwright)
05 “How Are You?” (Vocal by Nellie McKay)
06 “A Perfect Hand” (Vocal by Steve Earle)
07 “Eleven Days” (Vocal by Cyndi Lauper)
08 “When She Passed By” (Vocal by Allison Moorer)
09 “Walk Like A Woman” (Vocal by Charmaine Clamor)
10 “Don’t You Agree?” (Vocal by Róisín Murphy)
11 “Pretty Face” (Vocal by Camille)
12 “Ladies In Blue” (Vocal by Theresa Andersson)

Disc 2
01 “Dancing Together” (Vocal by Sharon Jones)
02 “Men Will Do Anything” (Vocal by Alice Russell)
03 “The Whole Man” (Vocal by Kate Pierson)
04 “Never So Big” (Vocal by Sia)
05 “Please Don’t” (Vocal by Santigold)
06 “American Troglodyte” (Vocal by David Byrne)
07 “Solano Avenue” (Vocal by Nicole Atkins)
08 “Order 1081″ (Vocal by Natalie Merchant)
09 “Seven Years” (Vocals by David Byrne & Shara Worden)
10 “Why Don’t You Love Me?” (Vocals by Cyndi Lauper & Tori Amos)

Here Lies Love, o álbum, é editado a 23 de Fevereiro

Os ídolos de David Lynch: Ariana Delawari

E se David Lynch fosse um caça-talentos entre gente de cantorias? Seria de esperar o improvável cruzamento de referências, como se os opostos se congregassem na menos evidentes das situações ou das vozes. No caso de tudo isto acontecer, de facto, o resultado final seria construído pela inspiração de alguém como Ariana Delawari, de ascendência afegã e com a América nas rimas. O seu padrinho artístico fez-lhe a sua apresentação em vídeo:

Os Tindersticks já não são a banda mais triste do Reino Unido

Stuart Staples é, em conversa, a mesma personagem do palco e dos discos: tipo de pouco entusiasmo, de pensamento focado em tudo menos no que se passa à sua volta. É preciso esperar pelos intervalos para cigarro para ouvirmos respostas. Ao telefone, decifra-se o fumo do tabaco e o isqueiro, várias vezes em poucos minutos. É a única obsessão que lhe resta – estes são “dias felizes”, como nunca viveu antes, e quase tudo o que era vício ficou pelo caminho.

O seu estado de graça, que se confunde com indiferença, foi o motor de “Falling Down a Mountain”, o mais recente disco dos Tindersticks, que hoje dão o primeiro de cinco concertos em Portugal. Staples avisa: [Em palco] “já não vai estar o homem mais triste do Reino Unido, para grande tristeza dos que choravam a ouvir-nos.”

Bom dia alegria O cantor, letrista e ídolo de melancólicos de gola alta e Invernos duradouros confessa-se. Sabe que já foi deprimido por opção, “como se tivesse um horário para a tristeza”. A sua existência enquanto criativo dependia da “capacidade de ser miserável” e a função foi cumprida com sucesso “durante os seis primeiros anos dos Tindersticks”. Após este período de glória musical a bordo de desventuras, tudo perdeu o interesse: “Seguimos o exemplo dos Beatles e transformámos tudo numa grande dor de cabeça. Mas sem a Yoko Ono.”

Por estes dias, Stuart Staples diz que a música dos Tindersticks é “banda-sonora para noites wine & cheese que podem terminar com sobremesas na horizontal”. Coisa libidinosa, que já não está preparada para faces tristonhas nem arrependidos falhados. As canções novas surgem embaladas num pacote de título pouco simpático, “Falling Down a Mountain”. Mas este “cair de uma montanha” é apenas “um título sem qualquer significado, nunca ninguém deveria preocupar-se em decifrar títulos de discos, são algo genuinamente desinteressante”. Ficamos a saber o que é realmente importante: “Ter pandeiretas numa canção, o melhor instrumento rock’n'roll algum vez criado. Passar uma boa temporada como se fôssemos a pior banda do mundo, apenas para podermos voltar a ser algo de interessante. E viver longe dos restantes companheiros de banda. A música pode estragar amizades, tudo isto é violento de mais.”

Geografias Pudesse deixar de ser britânico e Stuart Staples não pensaria duas vezes. Tem prazeres obscuros por resolver, pormenores que lhe vincam a genética como uma praga crónica. Primeiro problema: o futebol. “O Nottingham Forest é a única coisa que me prende à minha terra natal”, diz este vassalo do antigo jogador e treinador Brian Clough, que apelida de “o mais importante nome da história do futebol”. Exageros à parte, eis o segundo problema: a autocomiseração. “Se eu não tiver pena de mim próprio, ninguém vai fazer. Preciso disso para saber que sou uma pessoa problemática que tenho de resolver problemas aparentemente insignificantes mas em tudo decisivos”. E esta é uma capacidade que pertence aos “filhos de sua majestade”, diz-nos o próprio.

Porque a América será sempre demasiado distante – “gostava de ser apaixonado pela terra das oportunidades mas não consigo” – Paris serve-lhe de morada, para passeios à beira -rio e vida em cafés de bairro: “Está tudo tão bem que estranho a minha própria vida, não sei onde vou parar.”

este texto foi originalmente publicado na edição de 3 de Fevereiro do jornal ‘i’

Novo teledisco dos Massive Attack: ‘Splitting the Atom’

Chega às lojas na segunda-feira mas o teledisco já marcou lugar na internet. Os Massive Attack regressam com Heligoland e Splitting the Atom é o primeiro single. Com o teledisco assinado por Edouard Salier:

Obrigatório: documentário sobre Stephin Merritt no SxSW

Não precisamos de muitos motivos para desejar estar em Austin, cidade texana, para marcar presença no festival South by Southwest. Mas este é um motivo mais que extraordinário. Que os visitantes do evento preparem atenções para o filme Strange Powers – Stephin Merritt and the Magnetic Fields, um documentário sobre um dos mais enigmáticos compositores da pop americana dos nossos dias. Um dos mais incríveis autores de textos românticos feitos canção. Nem sempre verdadeiro, todos os dias honesto, seja pelo cinismo ou pela crueldade dos factos que vai relatando. Tudo lhe serve o ego e a convicção de que faz apenas o que é correcto:

Joanna Newsom: ‘Good Intentions Paving Company’

Para quem quer conhecer primeiros acordes da nova colecção de canções de Joanna Newsom, o site da editora Drag City já tem amostras para revelar aos mais curiosos. O tema é Good Intentions Paving Company, como se Joni Mitchell se preocupasse com as cores pop do século XXI. Ou apenas o resultado criativo de alguém que ouve em repeat produtos dos dois universos distintos.

Um primeiro momento a conhecer do novo Have One On Me, a editar no dia 23.

Arctic Monkeys: o que eles andaram para aqui chegar

Perfeição pop: acolher uma banda no auge da sua expressão criativa, reservar-lhe dois palcos e garantir recepções calorosas em ambas as noites. Os Arctic Monkeys são um dos mais consolidados produtos da década que acabou ainda há poucos dias. Seguiram as regras impostas pela nova geração de fãs e melómanos (com a internet como júri principal destas novas leis) e escreveram o guia de sobrevivência para aspirantes a músicos de sucesso. Estão em Portugal terça e quarta-feira, para concertos no Porto e em Lisboa, e merecem todo o reconhecimento que lhes deverá ser entregue em mãos. A tal perfeição pop, repetimos.

Estrearam-se no nosso país em 2006, com um Garage repleto de adolescentes aparentemente desinteressados de tudo mas com as canções do primeiro “Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not” decoradas com nervo e pêlo na venta. Um ano depois, com vendas e culto rock’n'roll para o justificar, esgotaram o Coliseu dos Recreios. Já não eram alunos de escola secundária – antes, transformavam-se nos heróis da miudagem – e domesticavam guitarras com boas doses de técnica mascarada por um espírito punk bem vestido (camisas engomadas e golas altas para parecer bem nas fotografias).

Reinvenções Para baralhar críticos (que lhes limitavam o espírito criativo com generosa facilidade) e confundir fãs (instalados no conforto de esperar pelo próximo refrão orelhudo), os Arctic Monkeys despediram-se da primeira dose de “anos 2000″ com o álbum “Humbug”, em tudo distante do que apresentaram antes. Ainda assim, o sucesso não lhes foge.

O fenómeno costuma acontecer a quem inscreve o nome na lista “daqueles que realmente importam” na história da música popular. E o quarteto em causa sabe-o há muito. Hoje, Alex Turner – vocalista, compositor e letrista de decadências – tem o cabelo certo, comprido e fora de moda, para se distanciar da Britannia que o criou. Namora uma modelo/apresentadora de TV (Alexa Chung) invejada aquém e além mar. E faz de Nova Iorque a sua morada quando digressões e sessões de gravação não o consomem.

Ainda assim, não vende os esforços da banda nem as suas vontades às facilidades de uma existência mais previsível. Está tudo no código genético do grupo. Obrigou quem quis acompanhá–lo a palmilhar quilómetros, a oferecer gravações gratuitas e a revolucionar o MySpace. Fez do silêncio mediático um método de sobrevivência. E arrastou a banda para o deserto norte- -americano, acreditando nas sessões de reinvenção protagonizadas por Josh Homme, dos Queens of the Stone Age. Ou seja, a canção como retrato perfeito de vivências urbanas sobrevive a qualquer custo, como ensinado pela escola pop da mui britânica Sheffield. E abrilhantá-la com novas tecnologias é a Via Verde para o reconhecimento.

este texto foi originalmente publicado na edição de 1 de Fevereiro do jornal ‘i’

O século XX ao piano antes do almoço de domingo

No domingo, para o lisboeta que quer ver sol e rua sem muitas companhias e preocupado com a melodia que tem na cabeça, como coisa obsessiva. Que até pode estar apenas à espera do mais importante almoço da semana – porque vai lá estar a família ou apenas porque é dia de cozido no tal restaurante que é bom mas nem tanto. Concerto no Museu Calouste Gulbenkian, às 12:00, para escutar Joana Gama ao piano e momentos que queremos (muito) aguardar – China Gates (John Adams), Für Alina (Arvo Pärt) e Bachianas Brasileiras (Heitor Villa-Lobos), só para passar um marcador fluorescente por alguns dos nomes na ementa. E é tudo grátis.

Beach House e esta coisa do Verão interminável

Um dos nomes do momento, que parece gerar unanimidade com um à vontade assinalável. Os Beach House são juventude entre sonhos boémios, a cidade é cenário para inspirações que pouco têm de novo mas que também não pretendem ser a referência para a nova geração de criativos pop. É apenas o resultado de quem procura fazer rimas com os discos da colecção caseira como ideal de perfeição. Muito sol, o Verão como ideal interminável e a perfeição à mão de semear.

Os mesmos Beach House levaram estes ideais de parca filosofia até aos estúdios das sessões Daytrotter, para um tratamento intimista e com espaço para maiores reflexões sobre sons e suas imagens correspondentes:

‘Walk in the Park’

‘Zebra’

‘Take Care’

‘Used to Be’

Fred Hersch: vanguardas

O ano passado foi – e ainda vamos a tempo de o recordar – momento privilegiado para Fred Hersch, pianista que fez de Nova Iorque sua morada durante a década de 70. Procurou transpirar a inevitável elegância de Bill Evans enquanto se deixava levar pelas possibilidades que espíritos como o de Stan Getz permitiam. Ou seja, o encontro constante, a fusão, sem que a palavra tenha aqui sentidos de procura de identidade constante sem nunca a descobrir. Nada disso. Trata-se de um espírito urbano que também se deixa entregar a outras paixões. Vê-lo entre ambientes solarengos nunca seria espanto, num Rio de Janeiro povoado de jazz contaminado por samba.

Em 2009 editou dois discos, Live At Jazz Standard e Plays Jobim. Ou seja, de Monk a Debussy, de Villa-Lobos ao obrigatório António Carlos. Tudo num ano em que recuperou de um estado de inconsciência de dois meses – complicações geradas ainda pelo vírus VIH, contraído na década de 80 – para regressar ao que muitos dizem ser o seu estado natural: o de nome fundamental da interpretação e da composição jazz contemporâneas.

A NPR gravou um do seus concertos mais recentes no Village Vanguard de Nova Iorque, com os detalhes essenciais para entender e descodificar tamanhos elogios.

J.D. Salinger, herói de gerações

Existissem dúvidas sobre a relação entre J.D. Salinger e os que o leram, entre o seu nervo de comentador das desventuras mundanas e as diferentes gerações que nos seus contos descobriram abrigo – apenas pelo conforto da proximidade, nada de soluções -, é passar pelo YouTube e descobrir as interpretações do it yourself da história de Holden Caulfield e das passagens imortalizadas em The Catcher in the Rye (Uma Agulha no Palheiro ou À Espera no Centeio, em português). A revista Slate reuniu momentos de alguns destes heróis americanos em miniatura um dia após o anúncio da morte de um dos mais enigmáticos e celebrados autores americanos.

Eels: ‘End Times’

“She locked herself in the bathroom again, so I am pissing in the yard”. Por mais cínico e fácil que seja escrever algo assim para marcar o arranque de um álbum, temos por certo que esta frase é um relato real de um quotidiano recente, feito de desilusões amorosas. Tecnologias e décadas depois, transformadas formas de distribuição e alterada a abordagem assinada por parte de todos os agentes que constroem o circuito da pop, ele há coisas que insistem em não mudar. Aqui permanece como protagonista a miséria do romance falhado, a auto-comiseração como veículo último para encontrar razões para resolver chatices de amor. Mark Everett é um dos mestres que segue este dogma à risca. Ouça-se o mais recente disco com a marca Eels. Está lá tudo.

End Times é o relato do fim do mundo visto por quem não tem mais por onde andar, por quem insiste em dizer que nada terá solução. Mr. E é senhor de uma vida feita de desgraças conjugais e complicações familiares. Nada corre bem e, na verdade, nada alguma vez poderá correr bem perto da sua morada. No caso de tal dia chegar, acaba-se-lhe a inspiração e a nós faltar-nos-á a razão para o escutar.

O disco conta histórias de uma ressaca com a banda sonora assente em guitarras de gente relativamente alcoolizada por falta de simpatias. Como um Tom Waits mais novo e a querer manter a voz por muitos anos. Cheio de arrependimentos, a arrastar acordes e rimas enquanto a fraca distorção o permitir. Há piano bar mas para filhos da geração de 90; raízes da história americana mas só porque trazem memórias dos discos de rock’n'roll escutados na infância; tudo de um bom gosto assinalável. Ficamos felizes pela tristeza de Mark Everett e sabemos que temos razão.