
Ninguém deu por ele. Passeou-se pela exposição de Juliette Binoche na sexta-feira como se não fosse um dos nomes mais referenciais para músicos e compositores de hoje; como se não quisesse ser um renascentista do século XXI. Na verdade, é tudo isto, mas, ainda assim (repetimos), ninguém deu por ele. David Byrne chega ao Centro de Congressos do Estoril de bicicleta, na companhia de Cindy Sherman, sua namorada e companheira de júri no Estoril Film Festival. Passeia-se, despreocupado, entre projecções e conversas com cineastas. E diz-nos que faz isto apenas porque foi convidado e queria sair de Nova Iorque: “Não estou de férias mas é quase.”
Byrne não se queixa dos seus dias mais recentes. Esteve em digressão com as canções de “Everything That Happens Will Happen Today”, disco gravado com Brian Eno, editado no ano passado, e admite que há poucos momentos que lhe entreguem tamanho prazer: “Não foi uma coisa cansativa mas durou um ano inteiro. 12 meses entre concertos? É muito, tenho mais que fazer.” Vai daí, lança-se na elaboração do projecto “Playing The Building”, “uma encomenda de Estocolmo para reabilitar uma antiga fábrica” que esteve para ser algo completamente diferente. Desenhou um edifício transformado em microondas gigante “mas a ideia foi considerada demasiado perigosa”. Quis adulterar o sentido e a finalidade dos sistemas de segurança modernos “que identificam indivíduos pelo ADN e pela leitura dos olhos”, mas a empresa que os concebe considerou que seria má publicidade. “Resolvi então transformar um prédio num instrumento musical gigante, para que as pessoas percebam que o som e a música existem e podem ser formados em qualquer parte. Estamos todos demasiado presos a conceitos que nos limitam. Raios. Mudemos a face das coisas.”
Nos entretantos, vai cultivando os prazeres das viagens sobre duas rodas. Escolheu o novo modelo para as estruturas de parqueamento de bicicletas em Nova Iorque, publicou “Bicycle Diaries” (as crónicas ciclísticas que chegam a Portugal em 2010) e descobriu as maravilhas do eixo Estoril-Cascais. Diz-nos que estacionou a bicicleta ali perto, que por momentos não consegue pensar em mais nada: “Contraí este sentimento crónico de dependência. É um exercício que me apaixona, que faz de mim menos sério, as pessoas pensam que sou um génio criativo mas não é bem assim…”
A verdadeira desilusão de David Byrne encontramo-la nas leis do mercado, nos princípios capitalistas da indústria do entretenimento. Ninguém diria – vemo-lo vestido de quase-Verão, olhar meio perdido, sem perceber “por que razão tantas bandas falam no meu nome como influência”. Mas este desleixo é aparente: “Preocupa-me o que se passa, o facto de quem tem poder não se importar com as pessoas que realmente interessam, as que ouvem música e por ela são apaixonadas. Além de que tratar mal os clientes é um modelo de mercado errado.”
Solução: “Não tenho remédios para os outros. O meu é fazer o que me apetece, quando quero.” Ser júri de cinema e fazê-lo “como se fosse um cinéfilo numa sala de bairro”. Colaborar com gente tão distinta como os Dirty Projectors (o resultado está na compilação “Dark Was the Night”) apenas porque ” os adoro e não percebo de onde vem aquela música”. E construir uma ópera com Norman Cook, vulgo Fatboy Slim, sobre Imelda Marcos – “porque sim”. Tudo o resto parece ser acessório. Genuinamente: “‘Stop Making Sense’ [o filme- concerto realizado por Jonathan Demme] faz 25 anos? A sério?”
este texto foi originalmente publicado na edição de 9 de Novembro do jornal ‘i’
Arquivado em: David Byrne, Música | Leave a Comment »