John Cage por David Nicholls

Porque deu a volta à música que o fez compositor para afirmar novas premissas para todos os artistas de pauta em potência. Porque procurou como nenhum outro os efeitos do silêncio em todos os sons – e na sua mais perfeita audição. Porque era técnico e homem de sensibilidades ao mesmo tempo, instrumentista e ideólogo. Foi por isso que David Nicholls se lançou nos passos de John Cage (e, claro está, nas pistas da sua herança), para assinar novo relato dos feitos daquele que é um dos nomes fundamentais da história da música do século XX.

Brilho e decadência: a vida de Tom Waits dava um palco

Tom Waits tem um novo disco. E, em caso de dúvida, esclarecemos já no início destas linhas: sim, faz sentido escrever um texto um pouco maior sobre este momento. Mesmo que falemos de um disco ao vivo – “Glitter and Doom Live”, de seu título – e que esta seja, por norma, categoria menor junto de crítica, da comunidade melómana e de alguns executivos da indústria fonográfica. Quanto às razões, enumeramo-las porque a sua simplicidade assim o permite.

Este é um dos mais influentes músicos que a cultura popular pode oferecer a qualquer um dos seus discípulos nos nossos dias. Trabalhasse Tom Waits na redacção de um jornal ou num escritório de advogados e seria “a memória”, o homem com a experiência suficiente para ter sempre a resposta pronta para toda e qualquer questão. Para não nos perdermos no tempo, lembremos apenas algumas das mais recentes e sortidas influências do artista: foi citado por Robert Plant e Alison Krauss em “Raising Sand”, um dos melhores discos de 2007; por Scarlett Johansson na sua estreia como cantora em potência (“Anywhere I Lay My Head”, em 2008, inteiramente construído com canções de Waits); pelos N.A.S.A., colectivo electrónico que convidou os melhores dos melhores para eclectismos urbanos com o carimbo de 2009; ou Norah Jones, que descobriu em Tom Waits a melhor inspiração para o seu novo álbum.

Referimo-nos aqui a uma espécie de bicho-do-mato do mundo das canções, que só faz o que quer quando quer, assumindo um total – mas saudável – desprezo pelos que escutam a sua obra. E, por norma, os que lhe dedicam tempo fazem-no com um apego tão grande que chega a parecer dependência. Não é maldade, é apenas o feitio de quem nunca fez nada para agradar a ninguém. Na verdade, assim que tal aconteceu, num par de momentos na sua vida, Tom Waits decidiu nunca mais fazer tal graça. Vejam-se os casos de “Closing Time”, 1973, ou “Mule Variations”, 1999: as canções perfeitas no momento comercial exacto, que, por isso mesmo, não mais se repetiram.

Raras vezes deixa a sua vida de semiagricultor no Norte da Califórnia para se mostrar em palco. Este narrador de decadências preocupa-se sobretudo com outros, também nobres, valores: a família e a sua vida de homem enamorado. Concertos só quando a saudade aperta, quando o desafio lhe chega aos ouvidos numa noite de boa disposição. E nós, portugueses, a vê-lo passar à distância, num sofrimento contido e silencioso. Por isso, queremos aproveitar as curtas mas suculentas pistas que este novo disco nos deixa para imaginar este vagabundo num palco à nossa frente. Ao escutar, vemos a cacofonia e o improviso; música nascida num ferro-velho de cores vivas; que já passou por bares e balcões bem fumados mas que agora é bem menos rotulável. Ou seja, Tom Waits tem um disco novo.

este texto foi originalmente publicado na edição de 23 de Novembro do jornal ‘i’

Fever Ray: ‘When I Grow Up’

Por um lado, misteriosa como poucos nomes hoje conseguem ser no mundo pop. Estão lá os adereços em palco, a personalidade meio escondida entre efeitos, enfeites e outras dimensões da voz nórdica de Karin Dreijer Andersson. Mas vai cantando honestidade óbvia, mesmo que envolvida por distorções e adereços. É um caso de sedução inevitável, mesmo que não seja à primeira. Porque acontecem sempre coisas como esta.

‘When I Grow Up’

O Times e o melhor da década – dizem eles

A moda por estes dias é fazer listas. Não as dos melhores do ano – essas devem estar a chegar, naturalmente – mas as da década, que isto do novo milénio ainda tem os seus efeitos. Esta é a do Times, com tom britânico, claro está:

10 – The Seldom Seen Kid; Elbow (Polydor, 2008)

9 – Raising Sand; Robert Plant & Alison Krauss (Decca, 2007)

8 – Elephant; The White Stripes (2003, XL)

7 – Coles Corner; Richard Hawley (Mute, 2005)

6 – Is This It; The Strokes (Rough Trade, 2001)

5 – Blackout; Britney Spears (SonyBMG, 2007)

4 – Speakerboxxx/The Love Below; Outkast (Arista, 2003)

3 – In Rainbows; Radiohead (XL, 2007)

2 – Back To Black; Amy Winehouse (Island, 2006)

1 – Kid A; Radiohead (Parlophone, 2000)

Canção para fim-de-semana chuvoso, com Lykke Li

A real importância da canção já a conheciam quem entre as décadas de 50 e 60 decidia as regras da pop. Os ingredientes certos, entre harmonia e interpretação, ficaram definidos, bem como a sua dose, nesses tempos idos. Vai daí, os que hoje querem marcar a diferença recuperam lições antigas com expressões actualizadas. Vejamos Lykke Li, de técnicas nórdicas, com o tal frio acolhedor que é característico da canção popular de tais paragens. Carrega consigo a marca individual e imprime-a na aula de excelência que é Will You Still Love Me Tomorrow, das Shirelles. E o resultado dá nisto, canção para fim-de-semana chuvoso:

Micachu & The Shapes: nudez e outras simplicidades

Ontem no Porto, esta noite em Lisboa (Loft, 21:00). A reinvenção do punk através de ruas britânicas infectadas por um colorido próprio da contemporaneidade pop do século XXI. E tudo isto feito com o que está mais à mão, da criatividade aos recursos instrumentais. Algo como o que abaixo se vê, mas não tão despido, com outra coesão. É o que se espera:

Neutral Milk Hotel: imagens inéditas

A Merge disponibilizou imagens inéditas dos Neutral Milk Hotel em palco, captadas em 1998 na Knitting Factory de Nova Iorque. Melhor, trata-se de Jeff Mangum em modo solitário. Tudo isto a coincidir com o lançamento de On Avery Island e In The Aeroplane Over The Sea pela primeira vez em vinil.

Clube do disco de Beck e as suas surpresas

Entre os mais recentes exercícios de Beck no seu Record Club: One of Us Cannot Be Wrong, de Leonard Cohen, com Binki Shapiro e Devendra Banhart como convidados.

Desculpa perfeita para recuperar momentos anteriores. Aqui.

O que realmente interessa na última década

É das coisas mais interessantes que a blogosfera tem revelado nos últimos dias: uma timeline dos acontecimentos que realmente importam recordar para melhro compreender a história recente da música pop. Por aqui passeiam-se eventos como o processo contra o Napster, o lançamento do iTunes, a chegada do iPod e do Guitar Hero. Nomes como Britney Spears, Arcade Fire, Ray Charles, Radiohead ou Madonna. E tudo com um interface que nos faz querer ler e relembrar aquilo que pensávamos saber já de cor. Neste link, com o carimbo de qualidade da NPR.

Coisa para perfeitos melómanos, com o carimbo Velvet Underground

Lou Reed, Maureen Tucker e Doug Yule à conversa com o jornalista David Fricke. Todos em volta de assuntos musicados, com a publicação de The Velvet Underground: New York Art, uma nova biografia da banda, como pretexto. Vai acontecer a 8 de Dezembro em Nova Iorque, na Biblioteca da cidade. E nós a querermos ver tudo isto.

Wolf People: uma estreia a considerar

Dizem-se opção face à pop com o carimbo do século XXI. Assinam uma das mais perfeitas revisitações de outros tempos, regressando ao psicadelismo de Londres e ao peso do início de 70. De Beefheart a Zappa, dos Deep Purple aos Faust, passando pelos Jethro Tull. O que mostram é seguro, coeso, pouco inovador mas bem aprendido e com aprumo na interpretação, seja a piscar o olho aos blues ou a querer ser assinatura de tom folk. Escuta-se October Fires mas pelo MySpace dos Wolf People revelam-se cinco temas, a incluir no álbum de estreia Tidings, a editar a 23 de Fevereiro.

Wolf People: ‘October Fires’

A continuar assim, esta será um dia a página dos Animal Collective, ou quase…

O novo EP do grupo está disponível a partir da próxima semana. E enquanto o momento não é oficializado de facto, continuamos a coleccionar tudo o que é razões para o esperarmos com razoável satisfação. Graze é outro dos belos motivos. Trata-se do tema de abertura de Fall Be Kind e é uma canção pop suspensa por um estrutura em constante evolução. Os mais de cinco minutos da ode vão do balanço marítimo em formato “quase-místico” ao sintetizador transformado em brinquedo harmónico. Raios. Mais um momento de génio, é o que é:

A caravana passa…

Duas das melhores coisas que aconteceram este ano passeiam-se por estes dias através de palcos europeus. St Vincent e Grizzly Bear. Esta é uma amostra, com mau som e imagem duvidosa, do que vamso perdendo:

Rogue Wave em trabalhos

Estão entre os mais estimulantes nomes da reinvenção das histórias populares do continente americano contadas com travo urbano. Os Rogiue Wave nascem de dias sombrios e chuvosos para escrever canções em que coisas como refrões e rimas à guitarra são obrigatórias. Não se tratam de clichés mas sim de imperativos criativos, com referências universos infantis e afins como regra mas sem se limitarem a este tipo exercício facilitista. Juntando ainda sábias lições no campo da harmonia e da escultura pop.

Os Rogue Wave estão a gravar um novo álbum e a nossa curiosidade leva-nos a descobrir primeiras pistas para este futuro registo e a comunicá-las. O títulos será Permalight, com este alinhamento:

01 “Solitary Gun”
02 “Good Morning”
03 “Sleepwalker”
04 “Stars And Stripes”
05 “Permalight”
06 “Fear Itself”
07 “Right With You”
08 “We Will Make A Song Destroy”
09 “I’ll Never Leave You”
10 “Per Anger”
11 “You Have Boarded”
12 “All That Remains”

E para recuperar memórias, está por aí o documentário sobre a mais recente digressão da banda, com autoria da PBS. Aqui.

Novidades Beach House: ‘Norway’

Vão estar por aí em Dezembro próximo. Por aí é Lisboa, próximo é dia 5, no “festival” Super Bock em Stock  fantasia rock’n'roll itinerante. E deverão revelar coisas novas, perante olhos e ouvidos dos seus maravilhados seguidores – cada vez em maior número, ao que parece. Poderá este Norway fazer parte da lista?

Beach House: ‘Norway’

O tema devará fazer parte de Teen Dream, o álbum a editar a 26 de Janeiro do próximo ano

Óptimo: mais uma lista

Desta vez, os 50 melhores dos 00’s, como dizem em terras britânicas. Com os Strokes no topo:

50 MIA – Arular
49 Muse – Absolution
48 The Walkmen – Bows and Arrows
47 Brendan Benson – Lapalco
46 The Delgados – The Great Eastern
45 Avalanches – Since I Left You
44 Outkast – Speakerboxxx/The Love Below
43 Wilco – Yankee Hotel Foxtrot
42 Vampire Weekend – Vampire Weekend
41 Wild Beasts – Two Dancers
40 Ryan Adams – Gold
39 Crystal Castles – Crystal Castles
38 Bloc Party – Silent Alarm
37 The Knife – Silent Shout
36 Spirtualized – Let it Come Down
35 Babyshambles – Down In Albion
34 Grandaddy – The Sophtware Slump
33 Arcade Fire – Neon Bible
32 Yeah Yeah Yeahs – Show Your Bones
31 Bright Eyes – I’m Wide Awake, It’s Morning
30 Elbow – Asleep In The Back
29 Super Furry Animals – Rings Around The World
28 Johnny Cash – The Man Comes Around
27 Amy Winehouse – Back To Black
26 Dizzee Rascal – Boy in Da Corner
25 The Rapture – Echoes
24 The Libertines – The Libertines
23 Klaxons – Myths Of The Near Future
22 Jay-Z – The Blueprint
21 The Coral – The Coral
20 Blur – Think Tank
19 The White Stripes – White Blood Cells
18 The White Stripes – Elephant
17 Sufjan Stevens – Illinois
16 The Streets – A Grand Don’t Come For Free
15 Queens Of The Stone Age – Songs For The Deaf
14 Radiohead – Kid A
13 The Shins – Wincing The Night Away
12 LCD Soundsystem – Sound Of Silver
11 At The Drive In – Relationship Of Command
10 Radiohead – In Rainbows
09 The Streets – Original Pirate Material
08 Interpol – Turn On The Bright Lights
07 Arcade Fire – Funeral
06 PJ Harvey – Stories From the City, Stories From the Sea
05 Yeah Yeah Yeahs – Fever To Tell
04 Arctic Monkeys – Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not
03 Primal Scream – XTRMNTR
02 The Libertines – Up The Bracket
01 The Strokes – Is This It

Arctic Monkeys e novas canções, outra vez

Entre as qualidades dos Arctic Monkeys que gostamos de admirar está o vício que esta gente demonstra pela escrita de canções, pelo aprumo que lhes entrega e pelo seu culto enquanto oferenda para todos quantos os escutam. Lá estão eles, seguindo a melhor das tradições pop britânicas, a das canções de personalidade vincada, que constroem álbuns coesos mas que gostam de assumir a sua individualidade de quando em vez. Os Arctic Monkeys aproveitaram a edição de um novo single – aquele momento a guardar no baú das repetições deste ano que dá pelo nome de Cornerstone – e revelam mais três temas, num curto mas incisivo EP. São eles:

Catapult

Sketchead

Fright Lined Dining Room

Superbandas?

Hoje é dia disto:

É tirar conclusões…

(aviso à navegação: no fim de cada tema, está disponível o link para o seguinte, em jeito de coisa automática)

Tim Burton no MoMA

Não é novidade que Tim Burton terá uma retrospectiva sobre a sua obra no MoMA, em Nova Iorque, a partir de dia 22 (e até 26 de ABril). A notícia está no mais recente desafio que foi colocado ao cineasta e à sua equipa: a realização de um pequeníssimo filme que revelasse uma nova animação para o logotipo do museu, a fim de ser difundido pelas televisões do edifício. Este é o resultado final:

Serge Gainsbourg, o filme

A caminho, o biopic sobre a vida de Serge Gainsbourg, com estreia internacional marcada para Janeiro do próximo ano. Contam os primeiros relatos que Eric Elmosnino interpreta o herói da narrativa com a mesma intensidade com que Sam Riley fez de Sam Riley em ‘Control’. Fica o trailer:

O meu primeiro vinil dos Kraftwerk foi o “Die Man Machine” e risquei-o no meu pickup da Philips com colunas integradas devido a tanta repetição. A minha última compra foi uma magnífica caixa com DVD, CD e um fabuloso libreto imagético que oiço e vejo na consola multimédia. Durante este intervalo, cresci, tornei-me audiófilo, cinéfilo, crítico e homem. Devido a eles, existe um género musical riquíssimo de aventuras sonoras com experiências tonais e rítmicas cujos intérpretes são globais e já imortais. Com eles, as pistas de dança tiveram cor e alegria e, por causa deles, muitos jovens iniciam-se diariamente nas lides autorais. O conceito de homem/máquina foi uma presença constante no espírito criativo do grupo e a simplicidade das letras só tem paralelo na sua objectividade. Críticos exímios de um mundo cada vez mais industrial e agonizante, são carinhosamente apelidados de “avôs” e cuidadosamente seleccionados como precursores em qualquer enciclopédia musical. Os Kraftwerk são isto: um ritmo, uma cor, uma malha, uma palavra, uma bicicleta, um estúdio rolante, um robot, um mundo. Ousaram a diferença que ainda é salutar e bem actual num mundo cada vez mais orwelliano. A imortalidade diz-se kling-klang.