The Beatles: segundo capítulo da radionovela

bbcalt1Em 1981, Philip Norman lançava uma das mais populares biografias dos Beatles, “Shout!”. Nessa altura, mais de dez anos após o fim da banda, perguntavam–lhe “mas achas que ainda há alguma coisa para descobrir sobre os Beatles?”. Claro, hoje rimo-nos todos da questão. Mas se assim é, não vale mandar piadas toscas e comentários fáceis como “outro disco dos Beatles, mas já não ouvimos tudo destes gajos?” quando nos encontrarmos cara a cara com o novo “On Air: Live at the BBC Vol 2”. E chamar “gajos” aos Beatles também não fica nada bem.

Como o título indica, este disco é a segunda parte de uma edição clássica de 1994, “Live at the BBC”, que reunia gravações da banda nos estúdios de rádio da respectiva estação britânica feitas entre 1963 e 1965. O volume 2 regressa ao mesmo arquivo, para mostrar ao mundo as gravações que ainda estavam por revelar. Ao contrário do que acontecia com o primeiro volume destes registos, aqui não há temas originais para dar ao mundo. São gravações inéditas de temas que já conhecemos e versões de outros artistas, dos heróis que os Beatles, em 1963 e 64, ainda tinham muito presentes para alimentar a criatividade do grupo. Buddy Holly, Little Richard, Carl Perkins ou Ray Charles, todos eles se passeavam no meio daquilo que os quatro tocavam – e na forma como tocavam. Até porque em 1963 os Beatles ainda estavam a caminho de mudar para sempre a música pop, a coisa não se fez de repente e exigiu boas referências.

Assim sendo, o mais cativante deste “On Air” é ouvir os Beatles ainda com os tiques da estrada para rufias que conquistaram nas noites de Hamburgo. Já a caminho de os transformarem em coisa maior, mas calma que o primeiro álbum “Please Please Me” acabou de sair e não podemos queimar etapas.

Aquele era o ano do primeiro álbum, do início da beatlemania. O que acontecia era rock’n’roll de fãs transformados em ídolos, músicas de engate, todas, umas mais óbvias que outras, mas como estilo coisa que chegue. Está tudo nesta nova edição, composta por 63 faixas. Canções, muitas, o espaço nos discos é-lhes dedicado com grande destaque. Mas pelo meio também escutamos as conversas de rádio, pequenas entrevistas ou confissões voluntárias dos músicos. Eram todos entertainers, homens de espectáculo, com ironia, humor, sarcasmo. E até confissões escondidas no meio de piadas – John Lennon já queria mudar o mundo e com algum esforço até somos capazes de o ouvir dizer algo parecido com tal vontade no meio destas fitas de outros tempos.

Mas fica o aviso: nada disto quer dizer – como a história já se encarregou de comprovar – que a tarefa de limpar a arrecadação dos Beatles esteja finalmente concluída. Até porque começou agora a ser publicada no Reino Unido a mais ambiciosa das biografias dos Beatles alguma vez escritas, com o título “All These Years” (de Mark Lewisohn) e dividida em três volumes de generosa densidade. Já se sabe, com páginas novas vêm outras tantas gravações que esperavam apenas o momento certo para dar sinal de vida. Tudo para dizer: este não é um adeus, é um até já.

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