Boogarins: No Brasil diz-se psicodélico

boogarins_11Disco no sítio certo, carrega no play, canção número 1, “Lucifernandis”: “Menina perdida no céu azul/muito moderna, fugiu pro sul/ela caiu do céu.” Tudo ao ritmo de um trote meio espacial, meio preguiçoso, vamos ouvindo os Boogarins como se estes brasileiros recuperassem “Lucy in the Sky with Diamonds” ao som de Os Mutantes. É sempre mais fácil falar de uma banda nova quando a comparamos com clássicos, mas são apenas elogios e coordenadas para sabermos por onde andamos – palavra de quem anda perdido a gosto no meio deste delírio tropicalista. E começa tudo no nome da banda. Diz-nos Benke Ferraz (uma das metades do grupo, em conjunto com o vocalista Fernando Almeida, que ao vivo se transforma em quarteto): “Isso vem de um livro de botânica que eu estava lendo, procurando um nome. Achei essa flor, bogarim, que segundo o livro exala ‘amor puro’.” Por esta altura vamos na terceira canção e Fernando canta “eu quero o infinito”, sobre uma guitarra que não pára e ao mesmo tempo não chega a lado nenhum. Ou seja, tudo faz sentido, perfeito.

Os Boogarins vêm de Goiânia, no estado de Goiás, e a música que esta gente faz tem tudo a ver com a cidade onde têm morada. “Goiânia é nacionalmente conhecida por dois movimentos, o da música sertaneja, onde rola o dinheiro, o glamour, a fama”, diz Benke, “e o do rock alternativo, não mais tão underground mas também longe de ser profissional”. Pelo meio há “boas casas de shows, bons festivais, bons estúdios e óptimas bandas”.

Moleques da rua, Fernando e Benke vão do sertão aos Tame Impala sem que se notem os solavancos, e a fórmula chega a toda a parte, não há razão que trave estes nómadas ácidos: “Há público para tudo, tem gente de mais nesse mundo. Chegamos até nos EUA, a língua não é uma barreira, as pessoas sentem essa vibração.”

A vibrar desde tempos de garotada sem preocupações, os Boogarins, Fernando e Benke, começaram “nos tempos do colegial”, vulgo escola secundária. “Matávamos aula para ficar tocando. Começámos a compor algumas das canções deste álbum entre 2008 e 2009. Eu e o Fernando estamos com 20 anos, não sei onde isto vai parar.”

Nem ele sabe nem interessa responder à questão. Entre estas “Plantas Que Curam” não há tempo, melhor esquecer isso. Da mesma forma que o tempo não foi problema quando a dupla decidiu escrever canções que podiam ser deste ou de outro século. Benke explica com facilidade: “Imagina, isso começa com uma guitarra. Ou então com uma bateria, não sei bem. De repente estamos nisto há muitos minutos e aparece uma melodia. Quando você repara, já está tocando tudo aquilo há muito tempo, ninguém sabe que género é, que rótulo colocar nisso. Alguém disse psicodélico. Eu gosto. A tropicália e a psicodelia não são simplesmente um estilo de música, um género de uma época. Isso é um estado de espírito, um estilo de vida.”

Roda o “Fim” e corre o verso “As tardes com amigos, beber ao som dos Beatles”. Todas as cores dos 60 e dos 70 andam com os Boogarins, mesmo que não sejam sempre tropicais, mas estes heróis são brasileiros, hoje e sempre. Sol e chope, o dia está feito: “Normalmente estamos aí, chega alguém com uma ideia, uma melodia, um verso, um refrão. Então, vamos completar isso juntos? É só isso. E um dia estamos em Portugal.” É bom que isso aconteça.

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