June Tabor: “Ainda decoramos as letras das canções de que gostamos? Não tenho a certeza”

quercus picEntre os anos 60 e 70 começou a cantar a tradição popular britânica mas nunca recusou arriscar outros territórios. Em 2004 juntou-se a Huw Warren (piano) e Iain Ballamy (saxofone soprano e tenor) para construir canções que partiam do seu universo folk para se revelarem mais experimentais, com menos barreiras estilísticas. Dois anos depois apresentavam as canções ao vivo, chegando a gravar o último dos concertos, só porque sim. Mas o álbum só foi editado este ano, motivando uma nova série de actuações, como a de hoje à noite. Fazemos uma chamada para a cantora, que deixa o telefone tocar apenas uma vez.

Foi muito rápida a atender…
Estava aqui a olhar pela janela à espera que o telefone tocasse. Que barulho de fundo é este?

É o sinal de que o telefone está a gravar a chamada.
Sabe, não estou habituada a bips insistentes como estes, mas não faz mal, é só uma vez.

Mas não está a fazer muitas entrevistas?
Algumas, mas só faço uma por dia, é uma regra que tenho.

Porquê?
Porque é difícil ser original. Se fizer muitas entrevistas seguidas corro o risco de estar sempre a dizer a mesma coisa. Assim é quase sempre uma novidade.

São as exigências de andar em digressão. É mais artista de estúdio ou de palco?
Na verdade, não sou muito nem de uma coisa nem de outra. Houve uma altura, no início dos anos 90, em que fiz muitos concertos. Antes disso sempre tive outro emprego. Foi só no final dos anos 80 que decidi fazer apenas música. Mas a verdade é que também nunca fiz muitos álbuns. Sou muito velha e se juntarmos os anos todos? Em dada altura terei feito um disco a cada dois anos. Mas acho que só devemos gravar um álbum quando temos a certeza do que estamos a fazer, quando sabemos que aquela música precisa de ser registada. Para que depois não fiques a pensar “raios, não devia ter escolhido esta canção”.

Assim sendo, quando não está nem no palco nem a gravar um disco, o que é que faz?
Cozinho, trabalho no meu jardim, trato dos vegetais que cultivo, tenho dois cães, quatro gatos, três galinhas? Isso mantém-me ocupada, bastante. Sobretudo gosto de comida.

Talvez pudesse fazer um programa de culinária, ou um livro de receitas.
Não. É muito difícil ser original na gastronomia. A maior parte das coisas surge como reinvenção daquilo que outros já fizeram. É mais ou menos o que sinto em relação às canções também. Daí que esteja sempre à procura de coisas bem feitas por outras pessoas. Depois altero um bocadinho e torno a canção mais minha. Como na cozinha.

Isso quer dizer que estar longe de casa lhe faz saudades.
Sim. Talvez por isso agora só faço os concertos que realmente quero fazer. Entre os anos 80 e 90 íamos muito aos EUA, durante várias semanas, sem fazer dinheiro nenhum. Ficava doente? não tirava prazer nenhum daquilo. Lisboa é diferente, sabes, disse logo que sim.

Isso é bom.
E há outras coisas que influenciam a minha decisão. As horas de voo, por exemplo. Ou o tipo de comida que aqui há. Sei que há sítios onde é difícil encontrar boa comida vegetariana e isso complica tudo. E as pessoas com quem viajo também importam.

Actua em Lisboa como parte de um trio. Como é a vossa relação?
É óptima. As pessoas costumam pensar que sou muito miserável, que passo o tempo nos bastidores, fechada num camarim a chorar. Nada disso. Conheço o Huw (Warren, piano) há uns 25 anos, somos grandes amigos, mesmo fora dos palcos. E com Iain damo-nos muito bem, somos óptimos a contar piadas uns aos outros. Talvez porque há menos pressão, já que fazemos isto poucas vezes e dá-nos realmente prazer.

Na verdade, até o disco que motiva estes concertos foi inesperado.
Sim, a gravação de um concerto em 2006, que fizemos só porque sim, para que ficasse alguma memória da música que fizemos juntos. O Manfred Eicher, da editora ECM, adorou e disse que estava óptimo, que não havia sentido nenhum em regravar fosse o que fosse para editar um álbum. E a verdade é que passámos horas a ouvir tudo e não apanhámos nenhum erro. Até hoje não sei como aconteceu. E ao vivo há uma energia que não existe no estúdio, ficámos todos a ganhar.

E porquê só agora?
Porque este negócio é complicado e as editoras fazem muitos planos sobre os lançamentos dos discos, coisas que nos ultrapassam. Mas correu tudo bem e quem sabe se não poderão surgir novas gravações no futuro.

A falta de regularidade nos discos e nos concertos pode fazer com que o seu nome fique algo esquecido. Teme que isso aconteça?
Isso já está a acontecer comigo há muitos anos. Em 1983 saiu o “Abyssinians”. Depois casei e meti-me num negócio de um restaurante, coisa pequena, eu e o meu então marido fazíamos tudo. Tinha pouco tempo para qualquer outra coisa. Portanto durante uns cinco ou seis anos estive nisso. Quando regressei e decidi fazer vida da música, muita gente não se lembrava de mim, não me reconheciam a cara sequer. Mas agora acho que o caso é diferente.

Diferente como?
Nesta altura parece-me que os intervalos longos podem ser bons. Até porque só vou fazer isto enquanto a voz se mantiver a um nível aceitável. Quando começar a perceber que isto começa a ser difícil, retiro-me de vez. À medida que envelhecemos temos ir aprendendo a lidar com este tipo de coisas. E passamos a ouvir só os outros.

O que ouve quando está em casa, quando não está a trabalhar na sua música?Sou mais de ouvir rádio mas sem música, gosto de ouvir pessoas a falar, programas de autor. E futebol até. Sou pelo Arsenal. Mas não gosto muito dos jogos na televisão. Se ouvir música, é mais instrumental.

Mas apesar desse gosto, acabou como cantora.
É verdade. Não tenho passado de músicos profissionais na família e eu própria também não fui por esse caminho. Mas os meus pais cantavam em casa, canções populares. Assim que aprendi a falar fui cantando, absorvi aquilo. Quando somos novos isso é fácil. E quando ouvi música folk ao vivo pela primeira vez tudo mudou. Alguém me levou a cantar nessa noite, de forma muito amadora, mas senti que aquela forma de expressão me pertencia.

A música folk britânica, como vai por estes dias?
Há sempre um núcleo que gosta de música tradicional. Comercialmente tem altos e baixos. Mas nunca desapareceu, nem vai desaparecer. Havia muitos clubes de música folk, agora não há tantos. Ainda assim, há um público muito fiel. Fora o circuito de concertos em teatros, em salas maiores. São aqueles de que mais gosto porque não é fácil ter um bom piano num pub. E depois há grupos como os Mumford & Sons, mas não é bem folk. É apenas a forma como os media decidem catalogar as coisas. É uma boa banda, mas não é folk.

Além da forma, da estética, a música folk também precisa de uma mensagem específica, mais consciente da sociedade?
Não é necessário mas faz diferença. Na folk britânica há nomes nesse campeonato, do Roy Bailey ao Billy Bragg. Mas não acontece da mesma forma que na América, são cenários distintos. Toda a gente conhece as canções de protesto americanas mas aqui a escala é mais pequena, ainda que continuem a existir vozes de consciência social. Talvez pelo que se passa hoje na Europa as coisas mudem e apareça mais gente a cantar nesse sentido. Até porque o que interessa numa canção é o texto, as palavras. Ainda decoramos as letras das canções que gostamos? Não tenho a certeza. De qualquer maneira, tenho outra abordagem nessa área mais social e política.

Qual é?
Um tema que me continua a mover é a Primeira Guerra Mundial e os resultados do conflito que ainda hoje vemos. O que se passa na Síria, por exemplo, é consequência directa de toda a confusão que ficou no mundo depois de 1914-18. Parece algo distante mas procuro que as pessoas não se esqueçam, para que nada disso aconteça outra vez.

Concerto às 22h00. Bilhetes a 18 euros
publicado no i
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