Dirty Beaches. A melhor de todas as confusões

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Alex Zhang Hungtai, o tipo que está por trás desta confusão (das boas) que dá pelo nome de Dirty Beaches, é acima de tudo um contador de histórias. Poucos discos soam tanto a experiência de filme em registo sonoro como “Badlands”, de 2011, e como o mais recente “Drifters/Love Is the Devil”, saído este ano em registo duplo.

E se em “Badlands” tudo era estrada aberta e a personagem era a do lobo solitário, dado às coisas do rock‘n’roll de poupa para cima, o mais recente é feito do tipo que passou dois anos na estrada e só sente as respostas ainda mais longe do que estavam quando partiu.
Tudo demasiado complicado para um só disco, portanto este iria dar em dois. “Queria que o ‘Love Is the Devil’ [a segunda parte desta história] fosse editado lá para o Outono. É um disco que funciona melhor num clima mais frio. Mas se os separássemos teríamos de pagar o dobro por tudo: promoção, contabilidade, etc. Por isso a editora decidiu lançar tudo ao mesmo tempo.”

Muito mais para assimilar de uma só vez e duas maneiras muito diferentes de olhar para a mesma coisa. Enquanto a primeira parte (“Drifters”) é um trabalho de canção em que as estruturas pop são mais evidentes e acessíveis, com influências do pós-punk, do hip-hop e de tudo o que tenha ouvido no liceu, a segunda (“Love Is the Devil”) é um exercício feito de texturas mais desconexas e dos ambientes mais complexos nas várias fases da melancolia.

Uma escolha que dificulta a expressão mais física de tudo isto, porque Dirty Beaches agora chega num trio em formato banda. “Tem sido difícil apresentar o ‘Love Is The Devil’ ao vivo. É um disco em que faço quase tudo e então só temos conseguido tocar uma ou duas faixas em concerto. Além disso, é um registo muito mais melancólico e muito mais pessoal, acho que não foi feito para tocar ao vivo. É algo para ouvires e sofreres sozinho, não para quando tens 100 pessoas que não conheces à tua volta e só te queres divertir. Ninguém quer estar triste quando está com estranhos.” Razão pela qual “o material do ‘Drifters’ vai ser mais ou menos o centro de mesa dos concertos. Quem ouviu o disco sabe o que esperar.”

Nunca tímido nas influências, com os filmes de Wong Kar-Wai e a poesia e Charles Bukowski em papel importante naquilo que há para ouvir aqui. “O cinema é uma influência mais directa, porque a música que faço vem de uma série de imagens na minha cabeça. A poesia do Bukowski foi diferente, porque eu não leio muito. Quando era adolescente li algumas coisas dele que acabei por não esquecer. Este disco não foi uma coisa de pesquisa de material novo para mim, mais coisas pequenas que me tenham ficado ao longo da vida.”

Contas feitas temos um disco incrível que vem de uma confusão ainda mais incrível. Hungtai, de 32 anos, é um canadiano nascido na China, que no fundo se sente americano mas agora vive em Berlim porque “precisava de um novo capítulo na carreira e, sem dúvida, de fugir de Montreal”. Até porque lá acontece isto. “Os asiáticos dizem que não sou asiático que chegue. Os americanos dizem que não sou americano que chegue. Os canadianos dizem que não sou canadiano que chegue. Sou isso tudo, não quero saber. ”

Começou a fazer estas desconstruções pop em 2005, quando começou sete anos em trabalhos part-time para aguentar tudo isto. “Passaram sete anos até que entendesse que efectivamente podia viver do que faço. É a história demasiado típica do gajo que foi fazendo umas coisas durante anos e às tantas as pessoas começaram a ouvir. Os meus amigos fazem exactamente a mesma coisa.”

E a cena pop de Montreal estava em pano de fundo, mas nunca num papel demasiado influente sobre o que estas pessoas andavam a fazer. “Não éramos suficientemente estranhos para pertencer ao noise e também não éramos tão pop que pertencêssemos ao indie-rock. Ainda hoje funciona assim. A música é só uma ferramenta para exprimir ideias. Não é exactamente algo como os Rolling Stones, ou assim.”

A falta de pertença é uma constante no discurso e o próprio nome Dirty Beaches vem de uma história com um amigo. “É a história de um amigo meu que era emigrante grego no Canadá. E a vida toda dele o pai dele tinha-lhe dito: ‘És grego! És grego, caralho! Nunca te esqueças disso!’ Por isso, quando finalmente foi à Grécia, achava que aquilo iria completar algo na vida dele. Mas quando lá chegou deu por ele sentado numa praia suja e deprimente, sem sentir nada do que esperou a vida toda. E a confusão na cabeça dele ainda se tornou maior. Adoro esta história.”

Dirty Beaches vai estar amanhã na ZDB e no domingo no Milhões de Festa.
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