T-Model Ford, bluesman clássico dos tempos modernos

t model fordJames Lewis Carter Ford nunca soube ao certo a data do seu nascimento. Terá sido no início da década de 20 do século passado, daí que contasse qualquer coisa entre 89 e 94 anos. Mas o que nunca esqueceu foi o som da guitarra de Howlin’ Wolf, o gigante dos blues do Mississippi. Quando a sua mulher o deixou (talvez porque “tinha uma mulher em cada esquina”, como chegou a cantar mais que uma vez, e porque há quem lhe atribua 26 filhos), ganhou uma guitarra como prenda de despedida. James estava quase nos 60 anos quando começou a desfazer memórias e histórias de boa-má-vida através de golpes de blues. E bastou-lhe o arranque tardio para marcar uma geração de convertidos às tradições do velho delta, nomes como Jon Spencer, North Mississippi All Stars, Jack White ou os Black Keys agradecem-lhe e prestam-lhe vénias. T-Model Ford, como passou a ser conhecido, morreu na terça-feira.

Sozinho com seis cordas, gabava-se de ter aprendido sozinho tudo o que era preciso saber. Precisou só de contas por resolver e uma garrafa de whiskey caseiro, moonshine mágico para o fazer andar. Um bluesman clássico, de mãos ásperas e palavras ainda mais secas. Tudo bem explicado por um currículo que ninguém inveja. Em garoto teve um pai pouco dado a boas educações, violento é a palavra normalmente utilizada por quem falou com o músico sobre a infância. O mau ambiente esteve sempre com ele, nos trabalhos de má memória – entre empresas de camionagem ou na indústria madeireira – e nos casos mais ou menos explicados. Ainda na sua juventude, foi condenado a 10 anos de prisão por homicídio em legítima defesa. Pena reduzida mas com detalhes sempre ambíguos, T Model nunca se safou do mau olhado da polícia e dos tribunais sobre tudo o que fazia.

Fazendo contas, baralhou todos estes trunfos – mais o caminho sinuoso desenhado entretanto – para se vingar em canções, eléctricas ou acústicas, acompanhadas com harmónica ou uma bateria seca e abrasiva. Aproveitou ruas como palcos, tocou em bares e chegou às primeiras partes de gente como Buddy Guy. A bonança trouxe-lhe Matthew Johnson como fã, chefe da editora Fat Possum Records (a mesma que chegou a ter no seu catálogo RL Burnside ou Jay Reatard, os Wavves ou Solomon Burke, os Black Keys ou Hasil Adkins, gente com gravilha na voz e toda a atitude do mundo nas guitarras), que passou a ser uma casa segura para lançar discos entre 1997 a 2008 (mais um par de discos ao vivo editados mais tarde). “Bad Man”, “Jack Daniel Time” ou “The Ladies Man”, títulos sugestivos mas sobretudo obrigatórios, de um homem decidido, de criatividade ímpar e obrigatório na influência que deixou no rock’n’roll das últimas décadas.

(daqui)
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