Johnny Marr: “Todos queremos ser rockstars, quem diz que não está a mentir”

johnny_marr_2-1O SBSR começa hoje e Johnny Marr é um dos nomes que actua nesta primeira noite. Ao telefone só não fala muito sobre os Smiths, banda onde se fez compositor mítico ao lado de Morrissey. De resto, até corte e costura foi tema. Marr passeia-se pelo mundo com “The Messenger”, o seu álbum a solo. Depois da América, apresenta-o agora do lado de cá:

É diferente tocar nos EUA e na Europa?
Um pouco, sim. No geral, quando os americanos entram numa sala de concertos, estão mais prontos para celebrar, para passar um bom momento. A filosofia do rock’n’roll quando apareceu no 50s, apareceu na América e isso ainda é importante, ainda faz a diferença. Porque por lá intelectualizam pouco os valores do que costumávamos chamar de rock’n’roll, a rebeldia, o entretenimento para o homem comum. E isso é óptimo.

O mundo do rock’n’roll é diferente agora do que era nos anos 80?
Não me parece. A indústria é diferente, porque o modelo de negócio é diferente, por causa da internet, que mudou toda a vida moderna. As bandas novas têm de investir mais nas redes sociais, nesse tipo de dinâmicas. Mas, no geral, tipos novos compram bons casacos, bebem cerveja, tocam guitarra e conhecem raparigas ou rapazes com quem se identificam e se relacionam através da música. Acho que até eu ainda sou assim.

A idade não influencia.
Não e não se nota nada que estou mais velho. Provavelmente consigo ganhar a qualquer pessoa numa corrida, qualquer pessoa que vai a um concerto meu corre menos e não me consegue acompanhar.

É uma aposta arriscada.
Pelo contrário. Fazemos uma corrida, desafio-te quando quiseres.

Parece-me bem, uma corrida com o Johnny Marr…
Vamos a isso.

Mudando de assunto: porque é que não fez um álbum a solo antes?
A música que fiz com outras bandas, The The, Electronic, The Cribs, Modest Mouse, era importante, queria mesmo fazê-las, não mudaria nada. Mas aconteceram duas coisas importantes entretanto. Tinha ideias para canções que achava muito estimulantes e não as queria dar a outras colaboradores, que queria cantá-las e tocá-las. E após ter feito a banda sonora do filme “Inception”, depois de ter tocado com orquestras nas estreia e em festivais de cinema, perguntei-me “bom, o que é que faço agora, volto para uma banda indie ou junto-me a uns tipos de estádio?”. Nada disso me parecia interessante.

Tudo isso implica agora ser um frontman. Que tal se dá nessa posição?
É óptimo. Fui aprendendo muitas coisas ao longo dos anos. E muito do que faço agora tem até relação com coisas que fiz ainda antes dos Smiths, no final dos anos 70. Nesses grupos tinha que ser cantor porque era o único que o podia fazer, ainda que a minha cena fosse tocar guitarra. Eu sei o que é preciso para ocupar este lugar e até gosto, na verdade. E os mais novos, que só me conheceram muito depois dos Smiths, sempre me viram a cantar. Na verdade, nada disto é novo.

Alguma vez pensou em não cantar canções dos Smiths nos concertos?
Nunca o fazia, nunca. Mas numa ocasião em que toquei com o Neil Finn [Crowded House] e o Eddie Vedder [Pearl Jam], eles dissera-me para o fazer e eu disse que não. Discutiram comigo, disseram que eu era “simplesmente burro” e achei que eles tinham razão. Basicamente eles usaram o argumento “tu também fizeste aquelas canções, está apenas a ser louco”. Mas acho que foi bom não as ter tocado durante muito tempo. Fez com que explorasse caminhos diferentes. Agora, com a minha banda nova, toco todas a canções do meu álbum. Por isso é OK tocar outras coisas. E que ninguém me venha dizer que estou a usar essas canções para o bem da minha carreira. Não venham mesmo.

Alguma é mais especial?
Todas são importantes. Tenho muito orgulho em todas elas. Acho é que algumas canções estabelecem uma relação especial com o público.

Por exemplo.
“How Soon is Now”. É incrível o resultado. E é uma canção-assinatura minha, não consigo fugir a isso. Aquele som de guitarra? E tenho muita sorte em ter uma canção assim. E depois há a “Dashboard”, que tocava com os Modest Mouse. Que canção, que canção…

Não se sente sob nenhuma sombra, algo como “o concerto e o disco do tipo que era dos Smiths”?
Nunca liguei muito a isso porque se pensasse nisso ia ficar desiludido comigo próprio. Todos queremos ser rockstars, quem diz que não está a mentir. Mas o mais importante, seja para quem escreve um blog ou pinta um quadro, é que as pessoas conheçam o trabalho. Fama e riqueza, claro, ninguém diz que não, mas o resto é que importa. Podem perguntar-me sobre o Morrissey, podem querer saber de um reunião dos Smiths, estão no seu direito. Mas eu tenho o direito de não me preocupar com isso. E tenho tido sorte porque continuam a existir pessoas interessadas no que faço. É uma boa vida.

E é uma vida sempre rock’n’roll ou há tempo para ser um comum mortal?
Estou sempre focado no lado artístico da vida, sempre fui assim, desde pequeno, mas os meus dias não são os de uma estrela, com todos os clichés associados. Já fiz tudo isso porque em tempos foi o que realmente quis. Corro 80 quilómetros por semana, sou vegetariano, estou com os meus amigos, faço muitas coisas. Ainda ontem passeava de carro por Manchester às 4h30 da manhã…

Cedo para um passeio…
Bom, ainda não me tinha deitado…

Claro.
Tinha estado a rodar um novo vídeo e estava a caminho de casa. Comecei a tirar fotografias à cidade. O Verão em Inglaterra é raro. O sol estava a nascer, ninguém nas ruas e eu a fotografar. Preocupo-me mais este tipo de coisas.

Deixou os EUA e voltou para Manchester.
Sim, por causa da música, estava a precisar disto. Talvez depois vá para Nova Iorque, acho que vou gostar de viver lá.

Como vai Manchester por estes dias?
Voltei para recuperar o que me inspirava quando eram mais novo, talvez o tempo, sobretudo. Estava a precisar de estar dentro de um carro enquanto a chuva cai. Não para me deprimir, nada disso, é uma ligação especial. Isso e as pessoas de Manchester. E continua a haver muita música. Há uns tipos novos de quem gosto muito, os Swiss Lips… Muita gente continua a ser atraída para a cidade.

Nas ruas, anda à vontade?
Digamos que percebo muito sobre câmaras de telemóveis. Mas as pessoas tratam-me bem, não me posso queixar.

E dicas de guitarrista, não lhe pedem? “Hey, Johnny, qual é o teu segredo”, coisas dessas…
Até me podem perguntar mas eu não faço ideia. Talvez seja um talento, é isso, da mesma maneira que sou terrível noutras coisas.

Quais?
Não consigo cozinhar sem que isso se torne perigoso. Nem tento. Mas sei um pouco de costura. Em todas as bandas que tive aconteceu sempre alguém vir ter comigo e dizer “Johnny, estraguei a camisa”. E eu arranjo, sem problema.

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