Lisboa mulata

Naqueles dias, havia um tipo com apelido vindo de Viseu que queria ser de Angola ou Cabo Verde. Queria sê-lo em Lisboa, quanto mais bairrista melhor, ainda que tivesse morada nos arredores – arrabaldes, era essa a palavra que ele usava. Vivíamos quase todos ao lado uns dos outros mas ele dizia a quem o não conhecia: “Sim, canto o fado, tem de ser, tenho de o fazer”. Cantava, o malandro, nem sempre afinado, quanto mais vinho melhor para ele, pior para todos os outros. Mas que ninguém lhe desse uma cachupa, que ninguém se arriscasse a passar um funaná. Ele quebrava e requebrava. Mesmo que os passos de dança nunca tivessem sido vistos, o raio do meliante dizia que aquela dança era tão africana como as mulatas que lá se deixavam enganar pelo dengoso aldabrão. Mas de aldrabice sincera, de quem acredita no que nunca viu. O que toda gente via era pele brilhante e escura, com os exageros certos nas curvas, sempre coladinha à esbranquiçada mania africana que o amigo revelava. Das duas uma: ou ficavam para sempre invejosos ou assumiam-se mulatos, todos. Esta última hipótese era a mais comum. Pudera:

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