The Flaming Lips. “Porque não fazer uma festa dos nossos 31 anos?”

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Sobreviventes militantes de um rock alternativo que já não se vê todos os dias. Dos dias em que ser estranho e fazer coisas que lembrariam a poucos era a regra maior do jogo na música independente. Festivos por natureza, mas escuros, abstractos e às vezes só estranhos em vários momentos. Que fizeram discos para serem ouvidos em quatro CDs ao mesmo tempo – e diz-se por aí que eles queriam que fossem dez. Fizeram também “The Soft Bulletin”, em que largaram tudo o que era guitarras e reinventaram por completo os próprios paradigmas e, por extensão, os paradigmas da década que veio a seguir. Agora vem aí “The Terror”, o 13º disco de estúdio, e o i esteve ao telefone com Wayne Coyne, o tipo que orquestra tudo isto, que costuma usar umas mãos gigantes em palco e disse recentemente na rede social Instagram (@waynecoyne, sigam-no, vale a pena) que ia lançar todas as gravações da banda dentro de um cérebro de tamanho real feito de chocolate. Mas, afinal, ele é uma quase-estrela de cinema. Ora vejam:

Estreou um filme no festival South by Southwest, em Austin.
Sim, vamos falar disso. Chama-se “A Year in the Life Of Wayne Coyne” e é uma compilação de vídeos que fiz no meu telemóvel. O título diz um ano, mas eu acho que até engloba um período maior do que isso. São coisas aleatórias que filmei, mas surpreendentemente consegue ter pequenas narrativas e temas que se vão ligando.

É um bocado o seu diário ou reality-show?
É um bocado isso, sim. Tem música, insectos, algum sexo e as pessoas estranhas que me vão aparecendo à frente. É um olhar pelo circo que a minha vida consegue ser. Na melhor maneira possível, claro.

E como é que surgiu essa ideia?
Foi fácil. Todos os anos tenho de tirar os vídeos do meu telefone senão ele fica com a memória cheia. Então o meu tipo dos computadores, o George, viu tudo aquilo e disse que eu devia fazer um filme só com esses clips. E pensei: “Porra, devia mesmo fazer um filme com esses clips”. Acho que as pessoas vão adorar.

Os Flaming Lips fazem 30 anos em 2013.
É verdade.

Como é que é andar nesta vida durante estes anos todos?
Se tiveres sorte adoras música e tudo o que vem com ela. Também é preciso adorar a vida que vem com o estar numa banda como os Flaming Lips. Tens de querer as coisas que aparecem no filme que fiz, por exemplo. E eu fui feito para isto. Fui criado numa família grande, ambiente criativo e rodeado por personagens, não consigo viver de outra forma. E além disso tenho demasiada energia. Quem me conhece pensa que estou sempre em drogas.

Alguma vez pensou que iam durar até agora?
Não. Acho que no início nem queríamos que durasse. Mas são as personalidades da banda, e a minha também, de sermos uma grande família que adora fazer uma grande festa em palco todas as noites, com tudo a que temos direito. Por isso fomos continuando e não custa nada.

Vai haver alguma celebração em particular? Além da festa implícita em cada concerto.
Nós não pensamos muito nisso. Este ano sai o disco novo, mais o filme. Pensamos mais no que estamos a fazer agora, mas claro que estamos sempre conscientes do passado e algumas coisas daí são bem antigas. Mas nós também somos velhos. Para o ano talvez, nós somos os Flaming Lips, se celebrarmos os 31 anos ninguém vai estranhar. Porque não fazer uma festa dos 31 anos dos Flaming Lips?

Como é que enquadra os Flaming Lips na música destes tempos?
Bom, repara, nós há uns meses estivemos num anúncio de intervalo do Superbowl e isso é daquelas coisas que nunca pensei que fizéssemos. E no fundo é isso que ainda queremos, fazer coisas diferentes. Não nos enquadramos na ideia de tentar ser estrelas de rock nem nada disso. Vejo-me sempre como uma espécie de pseudo-celebridade, um freak que tem uma banda. Mas gostamos de partilhar o palco com gente que é mesmo grande. Olho para os Wilco ou os Radiohead e também andam cá há imenso tempo. Ou os Meat Puppets e os Butthole Surfers. E também aparece gente nova que se torna bem-sucedida. Não sei se nos enquadramos bem no meio disso tudo, mas também não sei se estar enquadrado é assim tão bom.

E o vosso novo disco?
É um disco estranho sem dúvida… Espera aí. [Silêncio e conversa com os que o rodeiam] Olha para aquilo, parece que está morto [De volta ao i]. Desculpa, estou a guiar para o ensaio e a falar contigo ao mesmo tempo e a estrada está cheia de animais que estão mortos ou a dormir. O disco, não é?

O disco.
Acho que pode ser o nosso melhor de sempre. Está cheio de magia. Não que sejamos mágicos nem nada disso. Soa a outro mundo, escuro e com mudanças de humor. Todos os nossos discos são estranhos de alguma forma. Para quem nos conhece isso já não vai ser novidade. Mas acho que é um belo conjunto de canções.

A primeira faixa, “Look… The Sun is Rising”, bate certo com a descrição que fez algures de um disco “ermo e perturbador”.
[Risos] Sim, e essa nem é das que coincide mais com isso. É a primeira e é um bom exemplo do sítio para onde as coisas vão no resto do disco.

Já a faixa para o anúncio do Superbowl [“The Sun Blows Up”] é outro registo inteiramente diferente.
É outra forma de escrever. Nem lhe chamaria uma canção dos Flaming Lips, no sentido mais normal do termo. Trabalhámos com uma agência e era uma coisa que queríamos fazer há uns tempos. E também não queremos ser os tipos velhos que fazem só canções chuvosas.

Há um novo documentário sobre o “The Soft Bulletin” [disco de 1999]. Acha que continua a ser o vosso melhor momento?
Acho que é o mais importante, não sei se é o melhor. Fizemos esse disco numa altura em que parecia que os Flaming Lips tinham chegado ao limite daquilo que podiam dar ao mundo. E mudou muita coisa. Agora muita gente confia nas ideias que damos e acham sempre que vai correr bem, mesmo que isso acabe por não acontecer. Na altura em que nos propusemos a fazer o “The Soft Bulletin” e o “Zaireeka” [disco de 1997, dividido em quatro CDs feitos para serem tocados ao mesmo tempo] toda a gente disse que éramos uma cambada de atrasados mentais.

No “The Soft Bulletin” tinham a regra que vocês mesmos impuseram de não usar guitarras acústicas. Ainda partem para os discos com regras semelhantes?
Talvez já não seja tão consciente, mas ainda tende a acontecer. Somos pessoas criativas e quando digo isto não digo que sejamos bons, mas gostamos de fazer coisas. Mas às vezes isso da criatividade leva as pessoas sempre aos mesmos sítios e tons, por isso tentamos dizer “Hey, desta vez vamos fazer isto ou aquilo diferente”. É uma forma de combater os hábitos ou a inércia.

Fala-se muito de desavenças que tem com outros músicos ou bandas, como os Arcade Fire. De onde é que isso vem?
Bom, na maior parte das vezes vem de ser verdade [risos]. Mas também acontece porque eu falo demasiado. Estás a falar comigo há meia hora e já deves ter reparado nisso. Mas acho que é importante dizer estas coisas. E eu e o Mr. Butler [Win, vocalista dos Arcade Fire] já falámos depois disso e estava tudo bem. Mas acho que é importante dizer quando se está a ser uma pequena estrela de rock arrogante e prepotente. Eles estavam a ser isso mesmo. É importante dizermos o que queremos, porque há uns anos se fosses negro na América não podias dizer nada, por exemplo. E isso é mais grave. Nada tão mesquinho como discutir com os Arcade Fire. Ou com a Erykah Badu. Ou com o Beck.

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