John Grant. As dores de existir, mas em forma de vida nova

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É no momento em que perguntamos a John Grant sobre o tema “Sensitive New Age Guy” do seu novo disco “Pale Green Ghosts” que surge a melhor forma de compreender algo do que lhe vai na cabeça. “Não é uma crítica. De todo. É sobre um amigo meu que se matou com um tiro na cabeça há um ano. Uma pessoa incrível, com uma mente brilhante. Era professor de inglês, e era meio hippie quando o conheci. E lentamente foi-se transformando num travesti e isso veio com uma série de alterações não só do corpo mas da personalidade, e acabou por se tornar o lado mais importante dele, mais o caminho que seguiu das drogas e acabou por perder perspectiva e acabou por cometer suicídio. É mais um tema negro e eu tenho alguma tendência para isso”, diz ao i por telefone.

São os fantasmas que vão assolando John Grant, e que ele não faz questão de esconder. E o que fazer sendo um autor de canções particularmente talentoso, dado às coisas da melancolia, a crescer homossexual num meio religioso e conservador? Resposta: ir gravar para a escuridão contínua da Islândia o sucessor de “Queen of Denmark”. “Não sei se foi a mais inspirada das ideias. Gosto da Islândia no Inverno, com a escuridão e o frio e as madrugadas e tudo mais. Mas como tendo a ser um tipo um bocado depressivo não sei se foi o melhor para mim. Mas eu e o Biggi [Veira, dos Gus Gus, que foi a outra metade da gravação do disco] acabámos por ir conseguindo encontrar-nos no meio de horários ocupados e acabámos por ficar bem felizes com o resultado final…”

O resultado final é “Pale Green Ghosts”, que agora chega até nós, numa senda de fazer avançar, em momentos, a paleta sonora para outras margens, que são bem traçadas à década seguinte do que moldou “Queen of Denmark”. Aqui são os 80 quem manda, com electrónicas de alguma timidez. Uma espécie de molhar o pé antes de mergulhar nessa piscina. “Era uma sonoridade que queria explorar. Acho que o disco não soa exactamente aos 80, mas é muito inspirado nisso. O Biggi é muito influenciado pelo Mark Almond [dos Soft Cell] e é claro que ambos ouvimos coisas como Depeche Mode e assim. Mas não queria fazer um disco que fosse completamente virado para a electrónica. Acho que é importante conseguir arranjar uma barreira saudável entre o que é electrónico e o que é mais tradicional e analógico. Tentar introduzir as pessoas lentamente à ideia em vez de lhes bater na cabeça com ela.”

E é esta liberdade de mudar de direcção que Grant agora aprecia como uma espécie de dádiva. E foi o já mencionado “Queen of Denmark”, de 2010, que permitiu que o escritor de canções, sedeado em Denver, passasse de uma carreira baseada num desconhecimento quase absoluto para um estado em que pudesse viver do que escreve. Até porque foi coisa a figurar em listas, chegando a disco do ano na revista “Mojo”. “Foi uma altura complicada. Por um lado, toda a gente parecia gostar do disco, e comecei a poder viver daquilo que queria mesmo fazer que era escrever canções. Por outro, ainda estava a chorar a morte de uma relação que esteve por detrás de todo o disco. Por isso acho que agora, neste novo trabalho, é suposto ser mais um estado de aceitação. Pelo menos é isso que eu quero.”

Uma divisão que Grant cria para si mesmo, também na hora em que não tem medo de enfrentar o lado mais negro da sua mente em público. As depressões e adições que o possam assolar nunca estão em estado confidencial, sendo que isso faz parte da imprensa que vai gerando. “Nunca escondo nada disso. Tudo isto é uma viagem e algumas pessoas usam a música para lidar com dor. Uma espécie de catarse, mas também há alturas em que é um estado de alegria puro. Faz parte da minha personalidade ser assim. Fazer com que o que penso seja sempre parte da minha música. E o que penso nem sempre são raiozinhos de sol. Há sempre a possibilidade de ninguém gostar deste disco e eu rebentar os miolos. Pronto, isto foi só uma má piada.” Que isto não dê pressão para desfrutar do disco, mas vale a pena ouvi-lo. Isso vale.

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