Marcos Valle: o regresso ao samba de Verão, classe de 70

Marcos ValleO calendário actual de Marcos Valle aparece preenchido por concertos nos Estados Unidos e colaborações com autores de canções elegantes, como Stacey Kent. Ou é isso ou é casa, no Rio de Janeiro. Tudo com calma, sem pressas. Falamos com ele por email, diz-nos que fala, “claro que sim”, mas manda as respostas na volta do correio. Telefone? “Não, não tenho tempo.” Marcos está ocupado com conversas e negociatas com a Light in the Attics Records, a editora americana que tem como missão resgatar da desgraça e do esquecimento pérolas da música popular. Foram eles que recuperaram os quatro primeiros discos que o brasileiro gravou nos anos 70 do século passado, daí que compreendamos – é difícil, Marcos.

Estão agora à nossa disposição “Marcos Valle” (1970), “Garra” (1971), “Vento Sul” (1972) e “Previsão do Tempo” (1973). Não aproveitar tudo isto não faz sentido. Em vinil e em CD, no site da editora ou na Amazon – por cá com distribuição da Flur. Servem os quatro para perceber como é que um herói da bossa nova se reinventa, cruza tudo e faz magia. “Mas eu não era só bossa nova”, avisa Valle. Claro que não, mas foi ela a culpada de tudo isto.

De regresso à conversa, Marcos grava as respostas e envia ficheiros MP3: “É mais fácil para mim, deve ser igual para você.” É, e traz o extra da voz do artista, um barítono que até ao longe parece queimado do sol, raio da boa vida. Diz-nos ele que isto não começou com a bossa. Certo, viajemos no tempo: “A bossa não foi sempre a minha inspiração. As primeiras referências vieram em garoto, com o meu pai que era advogado e adorava música popular.” Desfilam nomes como Jackson do Pandeiro, o herói do forró Luiz Gonzaga ou os compositores Dorival Caimmy e Ary Barroso. “Samba de carnaval, samba canção. Isso sim, foi o que me chegou primeiro, Isso e o Bach, Debussy, também em casa”, conta. Começa a estudar música clássica – “foi aí durante uns 8 anos” – e depois seguiu-se “o jazz, o Nat King Cole, o Sinatra, a música negra americana, os pré-bossa nova, o Johnny Alf”.

Pelo meio houve ainda Edu Lobo: “Conheci Edu na escola, era meu colega de classe no colégioSanto Inácio.Aos 18 anos volto a encontrá-lo, num ônibus. Ele levava um violão. Eu lhe pergunto ‘cê tá ligado em música’. Ele diz que sim e me pergunta o mesmo. Eu estava numa de estudar direito mas queria era canções.Daí até tocarmos juntos foi um instante. E assim que entrei nas rodas de bossa nova.”

Valle_325Nova Moda Quando chega a bossa, não há descanso: “Carlinhos Lyra, Roberto Menescal, João Gilberto, o Tom, você acha que era possível fugir a essa elegância?” Alguém nos livre desse mal. Marcos não escapou. Começou a escrever canções em 1963, em 64 já estava no encontro O Remédio é Bossa, no teatro Paramount de São Paulo. Compôs sucessos como “Samba de Verão” e em 67 era um dos que escutava, em primeira mão, as gravações de Tom Jobim com Frank Sinatra. Depois, tudo mudou.

1969 é o ano do álbum “Mustang Cor de Sangue”, onde já há “pop, rock, a música negra americana e o que mais consegui encontrar pelo caminho”. Mas a criatividade ficava ainda presa ao que lhe era mais seguro. A libertação definitiva chega no álbum homónimo de 1970. “Tinha conhecido o Milton Nascimento e os músicos que tocavam com ele, oSom Imaginário. Fiquei muito ligado com eles, sempre colaborando”, recorda. Este cruzamento mais o que já lhe passava pelas ideias – “Minas misturado com a Bahia, para mim tudo era possível” – ganhou conforto maior na realidade social do Brasil de então: “Vivíamos em plena ditadura militar, com muita censura em tudo o que era expressão artística. Muitos deixavam o país. Eu deixei de aparecer em palco, fiquei em casa, mas isso mudou tudo.”

O carioca vestiu a camisola da cidade mas usava também as cores do psicadelismo e do rock progressivo, da cena folk da Califórnia que se cantava a partir de Laurel Canyon e a dos standards americanos. Discos que nasceram juntos, que surgem agora lado a lado “e com todo o sentido”. Marcos era uma espécie de hippie com o samba no pé, herói louro das canções sem outra preocupação no mundo. Aliás, a preocupação maior era explicar a quem o ouvia que o mundo era “bom de mais para não ser vivido”, apesar de tudo. Como Stevie Wonder e Marvin Gaye faziam, ao mesmo tempo, mas aqui com o sotaque brasileiro no máximo, sempre com as letras do irmão, Paulo Sérgio.

Álbuns que saíram pouco do Brasil. Não lhe perguntem porquê, vão ter um“eu não sei” redondo. Dizer que é bom tê-los de novo à venda nem é necessário. Melhor mesmo é perguntar se há algum favorito: “Aí, escolhendo um coloco o ‘Garra’ na frente. Nunca pensei fazer aqueles grooves junto com uma orquestra, é algo irrepetível.”

Depois de 1974, a vida de Marcos Valle no estúdio não voltou a ser a mesma. O regresso em 2010, com “Estática”, recuperou atenções para a obra do homem que continua a ter morada no bairro do Recreio, no Rio de Janeiro. “Estou chegando, com estes discos, à Europa, aos EUA, ao Japão, numa forma diferente. Por agora tou curtindo tudo isso.”

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