Os estados unidos das canções de Matthew E. White

matthewewhiteNo ano passado, depois do Verão, Matthew E. White lançou, com razoável timidez, “Big Inner”. O disco, achava ele, era coisa para ficar pelas lojas americanas, a ambição não ia mais longe. Mas a distribuição digital, inevitável, fez com que as sete canções do álbum chegassem bem mais longe. Foi por aí que o ouvimos, há uns meses, preparados para a chegada da música em CD e vinil, que o mobiliário discográfico fica bem à retromania que White compõe. É um dos discos de 2012-2013 (riscar o que não interessa). Matthew diz-nos que “isto foi feito numa semana, sem grandes ambições”. E então?

Ao telefone, a partir de Richmond, no estado da Virgínia, o americano fala-nos cedo – isto é, para um músico: “Por aqui são dez da manhã.” Tudo se explica: “Aqui há uns dias um jornalista francês perguntava-me qual a parte do sucesso de que menos gostava, com a qual tinha mais problemas. Mas qual sucesso? Eu tenho um emprego com horário, caso contrário estou tramado. Daqui a pouco vou ensinar uns miúdos a fazer o acorde sol na guitarra, é por isso que já estou ao telefone.”

White não se queixa, “podia ter um trabalho mau e não tenho”. Certíssimo. Mas com “Big Inner” a coisa pode mudar de figura. Para já, há o chamado “tudo a correr bem”: “Nada disto estava previsto, ninguém pensou em chegar a todo o lado nos EUA, quanto mais à Europa.” Pontos extra que também trazem outras responsabilidades.A primeira delas é explicar a quem não conheça Matthew que música é esta que se escuta em “Big Inner”. Sem problemas, o artista está preparado e bem:“Quando tenho de o fazer com pessoas que não conheço bem, digo que é música soul. É aí que eles olham outra vez para mim e vêem um tipo branco, pouco elegante, de cabelo comprido e barba pelo mesmo caminho. Não faz muito sentido. Nessa altura digo que faço música psicadélica para cavalheiros.”

big innerFicamo-nos mais pela segunda hipótese. É que a forma adoptada por Matthew E. White para rever o cancioneiro tradicional americano é de tal forma subtil entre os intervalos temporais que juramos estar perante uma continuidade estilística que resulta em hipnose das boas. O gospel urbano, na mesma sala com um Chuck Berry sem show off mas com vontade de lá chegar; R&B de quem cresceu nos anos 90 a admirar camisas de flanela, imagine-se.

White acha que sim senhor, isto está tudo muito certo, mas dá-lhe mais prazer entrar nas lojas da vizinhança e ver “Big Inner” na secção “artistas locais”. Até porque o que fez até aqui diz-nos que o futuro é uma incógnita. Matthew foi miúdo de clássicos, arrastado pela família, com todo o gosto: “Até ao sexto ano só dava espaço ao rock’n’roll da velha guarda e à soul.” Chegado à adolescência, morreu Kurt Cobain e tudo mudou. “Apercebi-me de outra realidade. Comecei a ouvir grunge, ouvi o ‘Ten’ dos Pearl Jam vezes sem conta”, recorda. Quis ser um guitar hero e viajou até aos ícones de seis cordas de finais de 60 e inícios de 70. “Fui parar à escola de jazz, diziam-me que era a melhor forma de aprender, e descobri a magia dos arranjos e a importância das big bands em toda a música pop.” Fala-nos em Quincy Jones, “o mesmo que tocou com o Count Basie e depois produziu os grandes sucessos do Michael Jackson” e orgulha-se do trabalho que fez com a editora de jazz portuguesa Clean Feed: “Foram eles que editaram os discos dos Fight The Big Bull, nove tipos em delírio mas com a América toda na cabeça. E eu lá no meio.”

“Big Inner” vem daqui, deste groove interminável, que não podia ter surgido desta forma amadurecida – mas arriscada – em tempos de total inocência. “Vinte e nove anos parece-me uma boa idade”, confessa. Para mais quando o disco serve de apresentação de um projecto maior, a editora Spacebomb. Na verdade, não é bem uma editora, quer ser, isso sim, uma hitsville da Virgínia, uma espécie de Funk Brothers, como os da Motown, mas com as devidas distâncias: “Nunca desejaríamos copiar os mestres mas sim, queremos formar uma comunidade, gente que se entende na perfeição quando chega a hora de tocar. Queremos gravar tudo, só precisamos de saber quando.”

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