Kevin Ayers, mestre sem medos do desconhecido

Ayers200213Os Soft Machine em 1967 no clube UFO, de Londres. Sentidos manipulados até que já ninguém os controla, o psicadelismo a desbravar caminho, a fazer novas regras entre a pop. A mesma banda que em 68 editava um álbum de estreia, homónimo, que fez do jazz coisa psicotrópica com genialidade difícil de repetir, e que acompanhou Jimi Hendrix em digressão, uma dupla de pioneiros que ainda hoje surpreende. No meio de tudo isto, Kevin Ayers, o vanguardista que mereceria toda a nossa atenção mesmo que não tivesse feito mais nada depois desse final de 60 em ebulição. Morreu na segunda-feira, aos 68 anos, confirmaram ontem os familiares. Difícil seria não ficarmos nós a rever o caminho que o músico construiu.

Kevin, filho de Rowan Ayers, produtor da BBC. Pais separados, novo casamento da mãe e uma infância na Malásia. Tudo resumido dá boa vida, a mesma que procurou nos tempos que viveu em Maiorca, no Sul de França e em Ibiza. Na verdade, procurou as paisagens certas para o espírito que sempre orientou a sua criatividade: nada de levar isto a sério. “Isto” foi quase tudo para Ayers, daí que a sua obra tenha dado em libertinagem artística invejada por todos os aspirantes a corajosos.

Em tempos de estudante universitário descobriu na cena de Cantuária (comunidade criativa inglesa que deu ao mundo gente com Caravan, Gong ou Hatfield and the North) um confortável meio para perder o Norte e arriscar o desconhecido. Primeiro foram os Wilde Flowers, que rapidamente se transformaram nos Soft Machine. Além de Robert Wyatt, Ayers era o outro impulsionador do desvario do grupo que resultou num primeiro álbum de canções esquizofrénicas mas decisivas – revelavam que a pop continuava a fazer-se nova.

No mesmo ano, em 1968, Kevin Ayers deixa os Soft Machine – com a mais que simbólica venda do seu baixo a Noel Redding, que acompanhava Jimi Hendrix – e entrega esforços à escrita de canções em nome próprio, com a ajuda de antigos companheiros de banda e com a Harvest (divisão da EMI dedicada às coisas do psicadelismo e do rock progressivo) como editora. Estreou-se com “Joy of a Toy”, em 1969, e nos respectivos dez temas fez desfilar o princípio que o iria acompanhar num percurso solitário feito de quase duas dezenas de discos: uma preguiça espacial, trabalho fora de horas numa constante ausência de gravidade. Ou, reduzindo a descrição ao essencial, um deixa andar de bons frutos. Canções infantis mas só na aparência, com o espírito britânico inscrito em todos os versos. Próximo do que fez Syd Barrett a solo, mas mais longe da demência. Ayers sabia algumas das regras do jogo, como disse ao “The Guardian” em 2003: “É impossível tocar sob o efeito de LSD mas o ácido ensina-nos coisas que não aprendemos na escola.”

Desvarios musicados que acabariam por se servir da colaboração de outros inquietos criativos, de Brian Eno a Mike Oldfield (que chegou a fazer parte da banda de Ayers, The Whole World), com John Cale, Nico e Syd Barrett pelo caminho. Parte do culto que gerou entre músicos e fãs surgiu da sua entrega sem compromissos, que todos os improvisos o livrassem disso, da distância que sempre manteve dos mediatismos. “Tens de ser esfomeado por dinheiro e fama para jogar o jogo da indústria. Não sou muito bom nisso”, explicou na mesma entrevista ao “The Guardian”.

As lições deixou-as a muitos outros, alguns que chegaram mesmo a colaborar com Ayers quando este editou “The Unfairground”, o seu último álbum, em 2007. Gente essencial em anos mais recentes, vindos dos Teenage Fanclub, dos Neutral Milk Hotel ou dos Gorky’s Zygotic Mynci, todos presentes para testemunhar o génio de Ayers, que deverá continuar a contaminar todos os que o encontrem.

publicado no i
Esta entrada foi publicada em Kevin Ayers, Música. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s