Yo la Tengo, ‘Fade’: Três tipos fizeram isto, impecável

Certo, certo, isto já saíu há umas semanas. E então? Segue o texto que já foi publicado com pinta e estilo nas belas páginas do Bodyspace sobre um disco que vai durar e durar:

Primeira faixa, quase sete minutos e uma frase tramada para repetir sempre que necessário: “Às vezes os tipos porreiros perdem”. Já era assim no liceu (até esta palavra está a caminhar para a tumba) e assim continua. Os Yo La Tengo sabem bem como isso é, ser genial e não ser reconhecido pela habilidade. É uma indiferença que dói mas, ao mesmo tempo, motiva a escrita de canções. Óptimo, a isso se chama a perfeição. E arrancar com um dos melhores discos do ano (sim, nada de vergonhas, que já é Fevereiro e o tempo corre) a versejar sobre o assunto numa composição brilhante em formato maratona-pop merece-nos vénias continuadas.

E é quase sempre assim, em Fade. Adultos bem crescidos que não ultrapassam as dores dos 17 anos, porque deviam ter feito mais, melhor e diferente. Não fizeram, tramaram-se, azar. Dizem-se felizes mas aqui e ali há noites mal dormidas porque ele houve perguntas que ficaram metidas na vergonha, os fraquinhos. Isto tudo em canções dá Yo La Tengo, claro, como sempre deu, mas “Fade” é refinado, é seguro de fragilidades, rock indie como as divindades o projectaram, pequeno a querer ser gigante, quase a cair mas sem nunca se desfazer em cacos. E desajeitado porque é cool, não pode ser limado nas arestas.

Yo-La-Tengo-Fade

“Well You Better” é um piquenique com casiotones e guitarras de brincar. Mas “Paddle Forward” já tem gosto pela distorção, ainda que com as vozes a procurar harmonia, não há volta a dar nesse departamento. “Stupid Things” é o quotidiano desinteressante a variar durante cinco minutos na elipse dos mesmos três acordes, outra vez e outra vez e mais uma vez. E “I´ll Be Around” é aquela guitarra acústica quase sozinha, a tocar coisas sobre terras americanas de pouca população, com muita montanha à volta e muita gente (toda a gente) com barba e camisas aos quadrados. Quatro de dez canções, só para servir aperitivos: o álbum desfaz-se à nossa frente sem nunca perder a forma, desdobra-se para se revelar mas sabemos sempre onde estamos. Quantos conseguem fazer tal manobra com tanta classe? Uns quantos, naturalmente, mas com este disco a rodar vamos esquecendo esses outros tipos.

Bonito é isto, uma banda que arrepia caminho pelo ano novo logo no arranque da parada; e ao mesmo tempo lança-se com garimpa-rara-de-ver para as listas de “isto é que foi música tramada, hã?” que se costumam desenhar no final dos 12 meses. “Fade” tem nome pensado, porque não se dá por ele de tanto se notar que ele lá está. Ouve-se uma vez e chega, faz parte do dia, está feito. Se nos fugir sem aviso prévio, é nessa ausência que o vamos estranhar. Porque o verbo certo aqui, ainda que próximo, é diferente, diz-se entranhar. E dá sempre vontade de ter uma banda, para pouco depois esquecermos a ideia, porque isto é música que apoia oficialmente a preguiça, obriga-nos a ficar quietos e de ouvidos atentos – mas qual banda, que se lixe essa ideia, eles têm tudo. Yo La Tengo, não é? Isso, isso mesmo.

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