“The Best of Punk Magazine”: um almanaque para ilustrar a revolução

BestOfPUNKcoverJohn Holmstrom nunca quis ter nada a ver com o punk rock. A sua prioridade estava nos cartoons, que ia partilhando aqui e ali com os vícios musicais que alimentava na altura. “Ora estávamos entre os anos 60 e 70. O que é que eu ouvia? O Jimi Hendrix, claro, que teve primeiro reconhecimento em Nova Iorque e não em Londres, como muitos dizem. E o Jeff Beck Group, também.” O problema foi o ano de 1973. “Conheci os New York Dolls, que nesse ano editaram o primeiro álbum. A atitude, a distorção, o ‘não quero saber o que vocês pensam sobre nós’, tudo isso me cativou”, diz-nos. Foi mais atrás, descobriu os Stooges de Iggy Pop e os MC5, tudo terroristas sónicos de Detroit, e nunca mais foi o mesmo. Prestemos-lhe agradecimentos: foi ele um dos fundadores da “Punk Magazine”, a revista que deu tempo de antena a muitos dos nomes que transformaram o rock’n’roll. Agora que um novo livro, “The Best of Punk Magazine”, compila todos os números publicados, entre 1976-79 (e outras edições extra), Holmstrom diz-nos que “não foi nada de mais”.

Regressando ao início, John recorda que “queria mesmo era fazer uma BD sobre o Alice Cooper, mas a Marvel recusou. Anos mais tarde fizeram-na mesmo”. Mas depois de ter descoberto as tais bandas que lhe trocaram as ideias, e com o álbum de estreia dos Dictators em repeat constante – “O ‘Go Girl Crazy!’ é de 1975 e ainda hoje me faz rir”, confessa – percebeu que era possível “juntar rock’n’roll e humor”. Ao ver pela primeira vez os Ramones no CBGB (antigo clube de Nova Iorque que serviu de casa para a revolução punk dos anos 70) decidiu juntar amigos.

Os cúmplices da “Punk Magazine” foram Holmstrom (sobretudo como ilustrador), o editor Ged Dunn e Legs McNeil, jornalista e seguidor confesso do movimento que então se gerava. “O nome”, conta John, “foi roubado à expressão que publicações como a ‘Creem’ já usavam para falar de um rock rápido, barulhento e pesado”. Na verdade, já existia um jornal “Punk” mas Holmstrom “não fazia ideia”: “Se soubesse tinha escolhido outro nome, juro.”

Fizeram bem. E com o nome decidido, investiram num tipo diferente de publicação, que juntava humor, cartoon, entrevistas e críticas, tudo seguindo a estética directa e imediata que o punk rock exigia. “Ouvíamos o ‘Piss Factory’ da Patti Smith, o lado B do ‘Hey Joe’, e estava lá a história do tipo que desistia do emprego de merda para fazer sucesso à sua maneira, sem tretas. Queríamos fazer isso em papel”, lembra Holmstrom. “Não fizemos escola jornalística mas não era esse o nosso objectivo.”

A “Punk” deu tempo de antena a todos os nomes dos parágrafos anteriores e a outros como os Dead Boys – “era incríveis, especialmente ao vivo” – os Blondie – “entre os meus favoritos, apesar de não serem o estereótipo punk, mas eram génios a fazer canções pop” – e as bandas punk inglesas – “Sex Pistols, Damned, Generation X, The Clash, eram notáveis”. E era presença habitual nos clubes que então faziam história em Nova Iorque. John recorda estadias prolongadas “no Max’s Kansas City ou no Electric Circus” mas era no CBGB que a “Punk” encontrava lugar de destaque e público fiel. “Era o espaço ideal para o que estava a acontecer. Não era decadente, como nos últimos anos [fechou em 2006], era confortável e desafiante ao mesmo tempo. Parece coisa de putos mas a verdade é que nos sentíamos em casa.”

Pouco depois do início, em 1976, a “Punk” era um título underground obrigatório. Para quem procurava os discos e os autores mas também para os músicos. “Muitos odiavam ser chamados de punks, ficavam mesmo enervados com isso. Mas, ao mesmo tempo, queriam aparecer na revista e ver as suas fotos nas nossas páginas.” Holmstrom recorda até fãs famosos: “O Joey Ramone e o Chris Stein, dos Blondie, eram nossos apoiantes. O Joey chegou a dar-me dicas de bandas novas que faziam a diferença, foi ele que me falou dos Dead Boys, por exemplo. Aliás, o número 18 da revista, que é publicado pela primeira vez neste novo livro, tem uma entrevista exclusiva com ele.”

A relação entre a revista e a transformação da cultura pop era inegável, com as respectivas – e quase sempre positivas – consequências. John Holmstrom, o orgulhoso, afirma que “a ‘Punk’ teve número marcantes”. Pedimos-lhe exemplos: “A história sobre os Ramones que fizemos no número 1 levou o Seymour Stein a assiná-los na Sire. Além disso, nunca achei que fosse apenas coincidência a digressão conjunta de Iggy Pop com os Blondie, para o álbum ‘The Idiot’, depois de termos feito peças sobre os dois no número 4. E no número 6 fizemos o foto-comic ‘The Legend of Nick Detroit’, com o Richard Hell. Poucos anos depois ele entrou de facto num filme, o ‘Blank Generation’, de Uli Lommel. Curioso é que esse número da revista foi pirateado em Portugal.”

Em 1979, a revista fechou. “Porque o punk transformou-se na new wave, sim, mas também porque não havia dinheiro para continuar”. Ficaram nomes de referência, como Mary Harron (“deu em estrela de culinária na TV, primeiro, e realizadora, depois, foi ela que fez o ‘American Psycho’”) ou a fotógrafa Roberta Bayley. E duas tentativas de regresso, em 2001 e em 2005.

Já Holmstrom continuou sempre na ilustração, assinando capas de discos para os inevitáveis Ramones e para bandas de punk japonesas, um dos seus vícios. Até porque novos números da “Punk” não devem surgir: “Achas mesmo que alguém se arriscaria a investir nisto?”

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