Foxygen: eles não são deste tempo e ainda bem

foxygen4-581x385Tentativa número 1: hora marcada para falarmos com Jonathan Rado, um dos dois Foxygen (juntamente com Sam France), mas em cima do momento o músico estaria numa jam-surpresa com o bandido rock’n’roll do momento, Ty Segall (ou então foi uma desculpa, mas que nos mereceu toda a consideração). Tentativa número 2: há um número de hotel, uma extensão para o quarto certo e um código PIN para passar a chamada – mas a conversa nunca acontece (apesar de esperarmos largos minutos como se estivéssemos dentro de um elevador encravado com música ambiente à medida). Tentativa número 3: “Estou? Olá. Estás a ligar de onde?” “Portugal.” “Ah, Portugal”, diz-nos Jonathan, entre a admiração e o suspiro. “Gosta?”, perguntamos. “Não sei. Vocês gostam de nós?” Finalmente, estamos em linha.

Dizemos-lhe que sim, que os portugueses estão com os Foxygen. Não há estudo ou sondagem que o demonstre mas a música em questão só pode resultar: um sortido importado directamente das décadas de 60 e 70 do século passado, com a devida dose de caracterização que os tempos modernos exigem, mas moderada. Psicadelismo mais os mestres da folk a cair nas malhas da pop, com os Stones e Hendrix e respectivos descendentes pelo caminho. Pelo menos, a coisa resultou para os gurus das modas indie, a webzine Pitchfork: “É, somos ‘best new music’, li a crítica há pouco.”

E agora? “Agora nada, isto não é assim tão importante… bom, claro que é, não vale a pena estar aqui a inventar.” É, não vale, Jonathan. “Agora o que vai acontecer é que os nossos concertos, ao contrário de terem três pessoas na plateia, vão estar cheios. E é estranho experimentar tudo isto, há dois meses ninguém conhecia sequer o nome Foxygen.”

comedysoundtrack.11183v9Como é estranho este repentino reconhecimento (fora do mainstream, ainda, mas quem sabe daqui a uns meses?). Este é o duo que escreve canções desde a escola preparatória. São tipos insistentes mas nem por isso ambiciosos. Na verdade, nesses tempos tinham mesmo outras prioridades musicais: “Ouvíamos Flaming Lips e Beck e Brian Jonestown Massacre e Adam Green… O Adam é incrível. Destes génios acho que ficámos com o lado humorístico da pop.” Percebido. Não vos devemos levar muito a sério, portanto. “Bom, isto é um trabalho, somos tipos responsáveis, dentro do género, mas aposto que nem os Beatles se levavam muito a sério. Eles fizeram aquele vídeo para o ‘I Am The Walrus’, isso tem de ter algum significado. E atenção, que os Beatles são aqui invocados também como heróis, há muito respeito nestas frases. Na verdade, a atenção artística da banda vai toda para nomes de outros tempos, que não é na música actual que os Foxygen vão buscar inspiração. Jonathan diz-nos mesmo: “Acho que não ouvimos a música que se faz hoje. E antes que me perguntes porquê digo-te já que não sei, porque sim, porque continua a ser muito mais interessante.”

Proletários hippies de boa disposição e entrega total à causa. São qualidades bonitas de se ver e o resultado, em disco, é do melhor que o início de 2013 poderia ter revelado. Um belo exercício dememorabilia musicada (como outros que as modas vão lançando, como os Tame Impala, aqui menos ácidos) que se faz a dois e assim deverá continuar (menos em palco, claro): “Cada um de nós sabe o que o outro quer e pode fazer. Isso facilita o trabalho e evita discussões inúteis. Não imaginas a boa música que se perde por causa de discussões inúteis.” Mais, o controlo financeiro que gerou este primeiro álbum também serve de justificação para não mexer na equipa: “Escrevemos as canções em cerca de sete dias, gravámo-las em oito. Somos muito produtivos. Mesmo que nunca tenhamos sucesso, vai ser difícil aparecer outra banda com esta relação trabalho-tempo. Isto é música para tempos de austeridade.”

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