Yo La Tengo: “Há 30 anos que somos feitos de preguiça, é boa matéria criativa”

Photo50857182ddb1a4.83019243Estava difícil de falar com Ira Kaplan, um dos três Yo La Tengo._Entrevistas, marcações de concertos e outras tarefas próprias de quem acabou de editar um novo álbum, à venda a partir de hoje. A propósito, “Fade”_devia ser obrigatório o resto do ano, de tão bem que cai em qualquer momento. Ouvir assim que possível, até porque há concerto em Lisboa em breve e saber ao que vamos fica sempre bem.

Estão com muito trabalho nesta altura, entre a gravação do disco e a edição?
Sim, e nem é preciso falar em entrevistas e em organizar agendas ou fazer promoção. Ter de aprender tudo o que gravámos para tocar um disco ao vivo, isso sim, dá muito trabalho. Quando gravamos não estamos a pensar que aquilo vai estar no palco um dia e que cada tarefa, cada som, tem de vir de um músico, não nos podemos desdobrar ao vivo. Se calhar devíamos pensar nisso de outra forma mas agora estamos velhos de mais para mudar o nosso método.

Como assim velhos?
Ninguém pode ser “grupo de rock alternativo” para sempre, sabes.

A idade não costuma ficar longe dessas questões?
Sim, é verdade… Mas nem sei se somos uma banda rock, quanto mais alternativo. Há dias mostrava o novo disco a um amigo que me dizia que estávamos a fazer música mais familiar. Será que isso é alternativo?

Provavelmente são questões que não têm grande importância, é um assunto que tem mais a ver com as lojas de discos. De qualquer forma, “Fade” começa com uma canção de quase sete minutos, isso é bastante alternativo…
Sim, mas mais ainda seria entrar no estúdio e tocar tudo de uma vez, os três, em directo, sem merdas. E nunca tocámos estas canções como um trio, cada um no seu lugar. Até porque quando estamos em estúdio estamos sempre a mudar tudo, a descobrir novos arranjos, a acrescentar coisas e a tirar outras. Temos de aprender tudo outra vez.

Mas isso será fácil para quem já faz isto quase há 30 anos, não?
Era bom era. O princípio “a experiência ajuda a resolver os problemas” tem muito de mito, não é bem verdade com tudo. E nós não decoramos aquilo que gravamos, tocamos sempre como achamos melhor. No dia em que tocarmos sem pensar, com tudo memorizado, mais vale acabar com isto. E sabes, quando uma banda grava um disco quase nunca o volta a ouvir.

Tinham um plano de gravação para “Fade”, estavam decididos a cumprir um determinado caminho?
Só tínhamos uma vontade, fazer um disco mais pequeno. Aliás, já o queríamos fazer em discos anteriores mas nunca conseguimos.

Mas porquê mais pequeno?
Porque há cada vez menos gente com paciência para ouvir a mesma banda durante mais de uma hora. Acho que nem nós temos. Antes dos discos com capacidade interminável havia vinil, dois lados, no total com mais ou menos 45 minutos, algo assim. E nunca foi nem muito nem pouco.

Ou seja, têm olhado para trás, têm recordado o que fizeram. É um sintoma dos 30?
Não, nada disso. Nem o fazemos muito. Talvez numa ou outra situação, muito específicas, mas não somos mais nostálgicos que uma pessoa que trabalhe num balcão ou que um motorista de longo curso. Somos tipos normais, eu até sou casado. OK, com alguém da minha banda, mas isso não muda nada.

Marido e mulher no mesmo local de trabalho. Pode ser complicado.
Já ouço isso há muito tempo, até ver corre tudo bem. E é sempre um bom tema para artigos de jornais e revistas.

Por falar nisso, este “Fade” é um dos discos mais esperados deste início de ano. Têm consciência disso?
Nem por isso. Uma coisa que fazemos muito bem é passar ao lado dessas coisas. Porque somos só três, talvez, preocupamo-nos muito com o que se passa dentro deste triângulo, fora dele nem por isso. Agora temos muita coisa mais mediática a tratar mas não somos famosos, acontecem muitas coisas mas em porções controladas. Além disso, vivemos em Hoboken. Sabes onde é Hoboken? Provavelmente sabes porque foste ver à Wikipédia de onde nós somos… é em frente a Manhattan, do outro lado do rio Hudson.

Estão onde interessa mas sem estar, na verdade.
Isso.

Se vivessem em Nova Iorque, seriam uma banda diferente?
Esta banda começou em 1984, quando eu e a Georgia vivíamos com outros amigos e, volta e meia, tocávamos umas coisas na cave, sem querer chegar a lado algum, muito menos compromissos ao estilo “vamos começar uma banda e alugar um espaço para ensaiar”. Há 30 anos que somos feitos de preguiça, é boa matéria criativa. Com ambição isto seria outra coisa. E em Nova Iorque isso seria mais provável. Se calhar tínhamos sido melhores. Pelo menos teríamos levado tudo isto a sério mais cedo.

E quando é que levaram a banda a sério?
Talvez depois de termos feito o_“Fakebook” [álbum de 1990, feito sobretudo de versões]. Antes já fazíamos discos e viajávamos pelo mundo e dávamos concertos. Para quem não levava a coisa a sério éramos bastante sérios. Mas nessa altura conhecemos um tipo chamado Jamie Kitman [manager que trabalhou com gente como They Might Be Giants, The La’s ou Violent Femmes] que nos avisou: se nos concentrássemos mais, isto podia correr melhor. “Comprem uma carrinha, formem um negócio com o vosso nome”, dizia ele. Bastou esta consideração para nos darmos conta do valor do nosso trabalho.

Foi mais ou menos nessa altura que o James [McNew] entrou para a banda, também.
Esse foi o outro acontecimento fundamental. Já tínhamos tocado com muitas outras pessoas, entravam e saíam. Com ele foi diferente e a coisa tornou-se adulta. Na verdade, em 1985 acho que nos achávamos interessantes e sérios, musicalmente falando. Mas só percebemos determinadas coisas alguns anos depois, só mais tarde é que ficámos responsáveis.

Ainda assim nunca foram de seguir as regras à risca. Voltamos às canções de sete minutos que abrem álbuns…
Compreendo, até certo ponto concordo, mas a verdade é que até nisso cumprimos as regras. Porque é que essa canção [“Ohm”] está no início? Porque é a melhor para abrir, tem os ingredientes necessários à faixa número 1, aquelas pequenas tretas que todos esperamos quando ouvimos um álbum novo pela primeira vez. E_isso é ser engomado, cuidadoso.

Essa é uma resposta menos arriscada do que algo como “quisemos ser inesperados, transgredir”…
É, corro o risco de ter desiludido alguém. Mas a questão é que a duração de uma canção não importa. Em 1995 editámos o “Electr-O-Pura” e na capa as canções tinham durações erradas, trocámos tudo de propósito. Queríamos dizer “ouçam isto, não olhem para o relógio”. Às vezes há preconceitos em relação ao tempo. Já ouvi canções de dois minutos que me pareceram grandes de mais. Mas é óbvio que temas mais curtos dão mais sucesso.

De qualquer maneira, a canção em questão é incrível.
Obrigado, aí estamos de acordo.

A popularidade que conquistaram, basta-vos?
Isso é relativo. Sabes que há gente no mundo a quem poderíamos perguntar “há alguma quantidade específica de dinheiro que te vai fazer feliz, há algum limite?” Eu estou muito bem como estou, não preciso de mais, mas estamos sempre a trabalhar, isso quer dizer alguma coisa.

Vão agora fazer uma curta digressão em lojas de discos, por exemplo.
Porque é uma oportunidade de tocarmos na costa Oeste. Esta música é atlântica, não é de sol nem tem os olhos postos no Sul, numa roadtrip interminável. Vamos tentar levar miséria ao outro lado da América. Isso sim é alternativo.

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