Marva Whitney: funk soul diva número um

A sua influência chega ao século XXI, em gente como Sharon Jones ou Janelle Monae. Morreu esta semana, aos 68 anos, mas vamos todos a tempo de a dançar numa das festas que aí vêm. Ficam as sugestões:

unwind yourselfUnwind Yourself, 1967

Marva já se passeava pelas coisa das soul e do funk, mas este último chegou em grande e de voz no alto em 1967 com o single “Unwind Yourself” (de Hank Ballard e Charles Spurling). Com a supervisão de James Brown, é um tiro no alvo, certeiro, duelo de baixo e metais sem tréguas. Pede atenção total durante menos de três minutos mas é para ser tocada em loop, sem vergonhas. Não foi um sucesso nas tabelas apenas porque Marva não era uma superestrela e porque a concorrência mordia. Na verdade merecia tudo, que a genética da artista revelava-se ali na sua plenitude: escutar a canção évê-la a dançar, a mandar no estúdio e no palco, a marcar o tempo, suado, lânguido. A gerar descendência no momento, sem pedir licença, não precisava.

my thingIt’s My Thing, 1969

Pérola funk de 1969, redescoberta consecutivamente desde então. Só podia. Recupera as canções que até à altura lhe tinham construído o percurso, um BI em forma de disco, editado como prémio àquela que James Brown tinha como a sua diva maior, o nome feminino mais importante da banda do mestre do showbiz entre 67 e 69, a mesma que integrava os históricos Maceo Parker, Jimmy Nolen, Charles Sherrell ou Clyde Stubblefield. Todos fizeram parte das sessões de gravação, para dez temas e em 20 meses, em diferentes estúdios espalhados pelos EUA. O tema título é a perfeição em 3’30’’. Marva era nome obrigatório no circuito soul-funk americano, levando as suas actuações também a palcos africanos e até ao Vietname, durante a guerra.

whitne_marv_livelowdo_101bLive & Lowdown At the Apollo, 1969

Antes de deixar a entourage de James Brown (o que aconteceria em 1970), Marva segue a influência do seu mentor e grava esta lição de palco no mítico Apollo de Nova Iorque – raridade que insiste em ser difícil de encontrar em qualquer loja especializada. Uma deliciosa perdição de virtuosismo (mas sem exageros, Whitney é o que aqui se ouve, nada a fazer). Um duelo entre a artista e o público, com a multidão do Harlem a trabalhar na plateia, a corresponder ao esforço que vê à sua frente. A gravação de 1969 tem as regras que muitos – como os génios contemporâneos da Daptone Records – haveriam de seguir quando o funk, pesado porque não dá prioridade a mais nada, se apresenta como o centro das atenções (ou seja, sempre que aparece na festa).

daddy

Daddy Don’t Know About Sugar Bear, 1972

Já por conta própria (ou quase), Marva casa-se com Ellis Taylor, nome por trás da Forte Records. É Taylor quem escreve “Daddy Don’t Know about Sugar Bear”, um dos últimos momentos de sucesso da cantora. Já de regresso à sua Kansas City, acaba por retirar-se do mundo do espectáculo para aparecer pontualmente ao longo dos anos. Na década de 80 chega a fazer parte dos Coffee, Cream & Sugar e integra também os JB Allstars, colectivo itinerante de homenagem ao mestre. No princípio do novo século regressa aos discos, com “I Am What I Am”, editado em 2007, gravado com a Osaka Monaurail Band. Até 2009 continua em digressão, que terminaria depois de um AVC. Morreu no dia 22, de pneumonia.

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