The Replacements: a melhor pior banda de sempre

ReplacementsUm total de duas horas para um documentário sobre uma banda em que o principal está longe de ser a música. “Color Me Obsessed” faz-se de histórias que quase mais ninguém conhece a não ser os protagonistas da fita: amigos, colaboradores, músicos, artistas sortidos e fãs, muitos fãs, que seguiam os Replacements para qualquer parte, que fazem juras de amor eterno, perante o melhor dos momentos da banda ou o pior dos dias que o quarteto protagonizou. Gorman Bechard, autor do documentário, terá percebido bastante cedo que não valia a pena contar com nenhum dos membros da banda. E até que seria complicado chegar a imagens de arquivo de qualidade. O melhor a fazer está no resultado final: dar a volta ao que habitualmente se faz nos filmes do género. No caso de dúvida, ver primeiro no YouTube, antes de comprar o DVD.

Na verdade, apenas Paul Westerberg, vocalista e líder (sempre que possível) daquele bando de rufias, parece viver ainda com algum interesse musical nos seus dias – como demonstrou nas notas que acompanharam as reedições do grupo em 2008. Mas mesmo esse está ausente. “Color Me Obsessed” é, sobretudo, um conversa entre fãs, é uma discussão de praceta sobre a banda favorita do bairro, por gente que o fazia na adolescência e nunca recuperou. E a dedicação é bonita de ver.

Gorman Bechard deixa que o argumento surja nas conversas de quem convidou, daí que tudo siga a cronologia da banda. Do primeiro concerto que só aconteceu à terceira (o álcool fez questão de meter-se no caminho da banda desde muito cedo) ao baixista Tommy Stinson, perdido no meio do rock’n’roll com apenas 20 anos; as desventuras de um quarteto sem grandes ambições mas a lutar pelos melhores palcos de Minneapolis, onde os Hüsker Dü eram os maiores da história punk que se ia escrevendo entre as décadas de 70 e 80; mais a fantasia urbana que foi construir um percurso discográfico com aqueles foras-da-lei.

Color Me Obsessed posterOs Replacements eram a banda de Bob Stinson que queria ser um cruzamento entre Steve Howe, dos Yes, e o conterrâneo Prince. Fugiu-lhe a técnica para o punk, em conjunto com o baterista Chris Mars e o irmão mais novo de Stinson, Tommy, obrigado a aprender baixo. Viria Paul Westerberg para dar orientação relativa à situação, sem nunca lutar contra o caos, que seria uma das imagens de marca do grupo em tudo o que era aparição em palco – “Color Me Obsessed” está recheado de histórias destas, com relatos de lutas entre os músicos ou aquela vez em que Bob Stinson só apareceu durante a terceira canção porque estava a terminar uma partida de Pinball. Ou como o músico Kevin Bowe explica no filme, “os Replacements foram a melhor pior banda de sempre”.

A evolução dos Replacements aconteceu com a naturalidade previsível de quem, apesar do mau comportamento e da produção discográfica artesanal, sempre escreveu canções notáveis. Depois da Twin/Tone Records viria a Sire e o investimento com a disciplina de uma multinacional. Ao mesmo tempo, Bob Stinson era despedido com a habitual justificação das “dependências” e os restantes músicos da formação original acabariam por ceder à criatividade cada vez mais civilizada de Paul Westerberg.

Com Grant Hart e Greg Norton dos Hüsker Dü a explicar ao resto do mundo porque é que estes tipos eram tão fantásticos; mais George Wendt, o Norm de “Cheers”, a dizer-se parte daquela família de renegados; o técnico de som que era despedido todas as noites, depois dos concertos, porque a banda recusava fazer soundchecks e culpava o coitado pelo resultado; ou Lori Barbero, das Babes in Toyland, a explicar como espremer o suor de uma T-shirt na casa de banho do CBGB em Nova Iorque quando a noite era dos Replacements. “Color Me Obsessed” pede que se escutem os disco enquanto se recordam as histórias, que se procure no YouTube o não-vídeo para o tema “Bastards of Young”, que se perceba para onde foi Westerberg depois do fim da banda, em 1991. A história cabe toda no filme mas os detalhes dependem de quem escolher seguir ou não as canções. Até ver, a primeira opção é ainda a melhor.

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