Ravi Shankar, o mestre sem fronteiras

raviO melhor exemplo do caminho que fez em 92 anos está na matemática geográfica que calculou: nasceu em Varanasi, na Índia, em 1920, e morreu no Sul da Califórnia. Contas certas mas de cálculos que poucos conseguem resolver. Deu visibilidade às tradições musicais do seu país ao mesmo tempo que as tornou obrigatórias para muitos que tinham na ditadura pop ocidental lei quase única. Foi divulgador e mestre, revelou maravilhas semi-escondidas e usou-se (bem) delas para se transformar em influente referência criativa. Ravi Shankar morreu na terça-feira em San Diego.

A graça musical que o acompanhou deu primeiros sinais ainda em tempos de criança educada por uma família de músicos e dançarinos. Fê-lo quando ainda carregava o nome completo, Robindra Shankar Chowdhury. Aos dez anos fazia parte da companhia de dança dirigida pelo irmão, Uday. Pela mesma altura começava a relação com as cordas da sitar. Ganhou-lhe o gosto e descobriu o jeito que poucos tinham. Como disse em várias ocasiões, a sitar estava para a Índia como o piano ou o violino estava para a tradição musical ocidental. Com a escola clássica como cenário principal, é certo, mas disponível para quem a quisesse descobrir. Em 1966, na televisão britânica, era um homem contente por ver o instrumento que então já tocava há 30 anos tão apreciado pelos músicos pop. Mas deixava o aviso: “É bom que aprendam a tocar bem, é preciso dedicar algum tempo a isto.”

Sabedoria popular descoberta por conta própria. Em meados dos anos 30, ao perceber que ser autodidacta é bonito mas pode complicar a ambição, Shankar ganhou Allaudin Khan como mestre e uma vida de dedicação à sitar como prémio maior. Esforço contínuo, sem pausas – porque aquela música era exigente. Disse, em 1967, ao jornal americano “KRLA Beat”: “Esta música não é para ouvir intoxicado por qualquer substância. Antes, é a música que deve intoxicar quem a ouve.” A geração que o escutava então procurava outro tipo de relação com o trabalho de Ravi Shankar, que se tornou fundamental na dieta musical de hippies e pioneiros psicadélicos, LSD e afins como parte da receita.

Shankar construiu sempre uma relação de cerimónia com a sua arte, com uma higiene criativa que nunca dispensou, nem mesmo quando começou a viajar como “a maior estrela da música indiana”. Essa transição aconteceu entre os anos 40 e 50. Partindo da composição para bailados e filmes chegou a director musical da All India Radio e da respectiva orquestra. Vieram as digressões e os convites, seguidas das colaborações com músicos de outros universos. Com o violinista Yehudi Menuhin e a referência do jazz John Coltrane (que seguiu Shankar na arte do improviso e deu ao filho o nome de Ravi), por exemplo, mas de uma forma mais mediática com George Harrison. O Beatle tomou-o como mestre depois de conhecer a música de Shankar através de Roger McGuinn e David Crosby, então nos Byrds. A sitar haveria de tornar-se companhia regular de Harrison (que já a tinha “descoberto” em 1965, na rodagem de “Help!”), com a influência da música indiana impressa de forma óbvia em temas como “Norwegian Wood” ou “Within You Without You”. Os dois conheceram-se em 1966 e o filme “Raga”, editado em 1971, com a respectiva banda-sonora, documenta-o. A contaminação haveria de chegar a outros nomes da pop, como Brian Jones, dos Rolling Stones.

Ravi passou a ter nome de estrela, reconhecido em todo o mundo. Actuou ao vivo nos festivais de Monterey (1967) e Woodstock (1969), antes de ser convidado para integrar o alinhamento de “Concert for Bangladesh”, organizado por George Harrison. Disse em 1985, numa entrevista citada ontem pelo “New York Times”: “Sempre tive instinto para novas experiências. Seja isso bom seja mau, adoro experimentar.” Sem fronteiras, gravou as colecções “West Meets East”, “East Meets West” e “East Greets Weets”, entre 1967 e 1978; compôs para a Orquestra Sinfónica de Londres e tocou na Casa Branca; editou o concerto “Raga Mala” em 1981, com a direcção de Zubin Mehta, e assinou a banda-sonora de “Ghandi” (1982); em 1988 apresenta os oitos movimentos de “Swar Milan” no Palácio da Cultura de Moscovo e em 1990 edita “Passages”, aclamado álbum assinado a meias com Philip Glass (que tinha já trabalhado como assistente do músico indiano na banda-sonora de “Chappaqua”), disco dividido entre a tradição clássica hindu e o minimalismo contemporâneo do compositor e pianista americano.

Durante a década de 90 e inícios do século xxi, Shankar tocou ao vivo e ensinou sitar sem grandes interrupções. A 4 de Novembro último deu o seu derradeiro concerto, em Long Beach, Califórnia. Morreu anteontem, vítima de complicações geradas por uma operação ao coração realizada há uma semana. Ravi Shankar receberia o Grammy de carreira em Fevereiro próximo. Deixa um legado criativo imenso, em obra gravada, artistas inspirados e nas filhas, Anoushka Shankar (que ensinou a tocar sitar e com quem tocou ao vivo em muitas ocasiões) e Norah Jones.

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