Father John Misty: ‘Já não há cowboys do rock’n’roll’

Father John Misty 7 (2012)No início deste ano, Josh Tillman despediu-se do cobiçado emprego de baterista dos Fleet Foxes, simplesmente porque estava aborrecido. Vai daí, deu continuidade a uma carreira a solo iniciada em 2005, com o álbum “I Will Return”. Lançou “Fear Fun” e adoptou um novo nome: Father John Misty. Mais uma vez, porque estava aborrecido. O disco está em tudo o que é lista de “melhores do ano”, uns lugares acima, outros mais abaixo. Folk americana em canções quase sempre acústicas e a viajar pela costa Oeste do país – como o próprio fez, quando se mudou de Seattle para Los Angeles. Hoje apresenta todas estas histórias em palco.

Onde está neste momento?
Não sei bem, ou em Barcelona ou em Madrid. Tenho a certeza que estou em Espanha e isso já não é mau.

Há algum sítio que tenha sido especial nesta digressão?
Tenho gostado de tudo. Isto tem sido como ir a um banquete ou a um copo d’água. “Então como está tudo?” “Está tudo óptimo.” Mas tal como nessas ocasiões, este “tudo óptimo” pode não ser resultado de uma experiência completa.

Como nos almoços em que só comemos o camarão mas dizemos que gostámos muito dos queijos, algo assim…
Pode ser, sim. Não tenho a certeza se nos Estados Unidos festas como essas têm os mesmos pratos que as vossas, mas tudo bem, o princípio é esse.

E tudo isto traduzido para digressões resulta como?
Isso explica-se bem. Eu tenho uma espécie de roteiro e tenho de o seguir, é simples. O papel diz Londres, Barcelona, Madrid… há uma série de sítios pelos quais tenho de passar e é isso. Como Roma, Bolonha ou Milão. Sítios incríveis. Mas em digressão, Roma, Londres e Barcelona não existem. Vamos até aos clubes, aos sítios dos concertos, e é isso que conhecemos.

Mas há tempos livres, de certeza, entre um palco e outro?
Sim, claro que há, e é durante esses momentos que dou entrevistas.

Pois, isso deve ser aborrecido.
Não tem nada a ver com aborrecimento. Até porque sabia bem no que me estava a meter quando decidi fazer música sozinho.

Sim, podia ter escolhido outro método.
Sim, e podia ser algo como escritor de viagens, entre livros e artigos de revistas.

Essa deve ser uma vida interessante.
Escuta, essa é, de certeza, a melhor profissão que há. Visitar as maravilhas do mundo, deve ser óptimo fazer carreira disso.

E nunca pensou ser qualquer outra coisa a não ser músico?
Mal consigo ser músico, querer ser outra coisa era desejar de mais, sonhar alto.

Não é bem o que se vai ouvindo e lendo. O álbum “Fear Fun” tem aparecido em tudo o que é lista de melhores do ano.
Sim, é verdade, mas estava à espera de uma resposta ainda maior.

A sério?
Não, palhaçada. Não estava à espera de nada. Faço o melhor que posso, claro que sim, mas não só nas canções, também na hora de ignorar esse tipo de coisas. Prefiro perder mais tempo a pensar nos álbuns e nas canções quando estou no meio do seu processo, não nos seus efeitos.

Obcecado com detalhes e pormenores, portanto, é isso?
Não tenho, assim de repente, nenhum modelo que possa utilizar como comparação nesse aspecto mas acho que não. Preocupo-me muito mas não em excesso. Até porque acho que quem sofre muito e a toda a hora com a gravação de um disco é porque não tem material bom o suficiente, caso contrário sentiria mais segurança no seu trabalho. Se o material for bom é ele que te vai dizer o que é preciso fazer, que caminho devemos escolher. Abrilhantar coisas sem brilho dá muito mais trabalho. Gostava de fazer algo ao estilo “vou duas semanas para uma terra paradisíaca e escrever canções”. Mas isso não resulta.

A criatividade pode acabar de um momento para o outro?
Pode quando alguém se acomoda e acha que já tem “carreira” e não quer esforçar-se muito. Diz a história popular que é nos primeiros anos da idade adulta, quando na verdade ainda não somos adultos, que somos mais criativos. Mas isso é uma imposição cultural que infecta o nosso pensamento.

Qual é a melhor situação para compor?
Quase sempre longe de casa. Quando estou em casa, entre digressões, o objectivo principal é dormir, descansar. Comer, de facto. E tentar estabelecer saudáveis relações sociais com outros seres humanos.

No meio de tudo isso, gosta ou não de digressões?
É um meio para atingir um fim. O meu único interesse em fazer digressões é que permitem-me manter a saúde criativa. Assim tenho a certeza que continuo a ter consciência sobre o que acontece à minha volta. Mas fazer as digressões, de facto, às vezes tem piada, outras vezes não. Acho que não cumpro os requisitos daqueles tipos que são vagabundos do rock’n’roll.

Ainda há quem faça isso?
Não sei. Essa imagem foi criada precisamente porque andar em tour é aborrecido como tudo. Essa é uma justificação. Porque não é preciso tornar romântico algo que o é por natureza. Gosto de dar concertos e reconheço que é uma necessidade na minha vida. Mas mais vezes do que seria de esperar sinto-me como um papagaio acorrentado ao meu poleiro. Já não há cowboys do rock’n’roll. Talvez quando era mais novo, aí devia ver isto de outra forma.

Numa altura em que provavelmente tinha heróis que o eram?
É. E queria ser um músico diferente todas as semanas. Mas mesmo neste disco canto algo como “estrangular o Neil Young”. Nunca sabemos como é que todas estas ideias que temos enquanto putos terminam. Bandas todos querem ter.

E quer fazer “carreira” do que está a acontecer agora?
Tenho um contrato que me obriga a fazer discos com a assinatura Father John Misty e tenho já um disco pronto para ser gravado. Sei que vou fazer isto até me aborrecer. Fiz sete álbuns como J. Tillman. E fiz isso até não o querer fazer mais. Imagino que possa voltar a acontecer o mesmo.

Tal como aconteceu quando decidiu sair dos Fleet Foxes?
Essa mudança não aconteceu para satisfazer o meu gosto. Aqui a questão não é “prazer”, as minhas decisões não acontecem por causa disso. Sinto-me obrigado a sobreviver criativamente. E a sobrevivência quase nunca está relacionada com prazer. Claro que lá vem a cultura, os nosso hábitos, para nos dizerem “bom, desde que esteja a ser divertido, tudo bem”. Mas não faço nada por causa disso, tal como a vida não existe pelo prazer. Se gosto mais de fazer isto do que fazer parte dos Fleet Foxes?

Sim, é uma boa pergunta.
Não sei. O prazer é uma coisa efémera, está aqui e de repente já não está. Faço álbuns porque duram, porque vão além do prazer. Escrevo canções porque tenho algo para dizer. E fazê-lo traz, por norma, mais críticas de terceiros do que coisas boas Estamos neste planeta por diferentes razões. A mim não me coube nada de muito importante, nada que envolva sacrifício ou altruísmo. Sinto-me obrigado a fazer canções, é isso. A maior parte do tempo toquei para ninguém, fiz discos que não foram populares. Mas Não me chateei. Com os Fleet Foxes, começou a haver rentabilidade financeira. mas tornou-se aborrecido.

E sozinho, até ver, como é?
Nada mau. Melhor ver ao vivo.

Acontece algo de especial?
Dança, gritos e orações. Aconselho.

d’aqui

Esta entrada foi publicada em Father John Misty, Música. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s