Cody ChesnuTT:“Isto não é ficção, canções são documentos”

Em 2002 foi nome obrigatório, com “Headphone Masterpiece”, brilhante compêndio da música negra americana a dizer que no século xxi estava assegurada a continuidade dos mestres. Dois discos, 36 canções, num misto de pose e emoção difícil de repetir. Ficou o nome, o álbum e o êxito óbvio de “The Seed”, canção depois apropriada pelos The Roots. Fazendo agora as contas, foram precisos dez anos para que Cody ChesnuTT regressasse. Com um EP pelo meio, é certo, mas disco de corpo inteiro só agora, com “Landing on a Hundred”. O artista, feito homem novo, sabe que a ausência é um tema de conversa obrigatório. E pergunta-nos: “Querem saber porquê só agora, não é?” Respondemos:

Claro.
Não era a minha intenção, não fiz planos nem fazia ideia sobre quando iria editar um novo disco. Por um lado estava preocupado em viver a minha vida, mas também queria ter mais história e experiência para poder contar algo diferente. Ter filhos, ter um casamento… Há coisas muito distantes da indústria da música e é preciso conhecê-las, caso contrário isto não vale a pena. Decidi ser paciente, esperar que as canções viessem ter comigo

E isso aconteceu quando?
Aí há uns quatro, cinco anos. Depois comecei a sentir que havia um projecto que se preparava para ganhar forma. A vida aconteceu-me, finalmente. Ainda não tinha passado por mim.

Ficou surpreendido com essa mudança? Era o que esperava?
Sabes aquelas respostas dos amigos, que dizem “foi a melhor coisa que me aconteceu”? E não é que foi mesmo? Foi também por isso que não me aborreci por não estar a fazer música. Porque coisas mais importantes estavam a acontecer, coisas que me exigiam atenção, dedicação, energia. Nunca senti que nada disto fosse um fardo, sabes. As crianças não o são, tenho a certeza. É possível ser rock’n’roller e homem de família, acredita.

Depois do sucesso que conseguiu com o álbum anterior, nunca teve medo que ficasse esquecido neste período em que esteve ausente?
Nunca me preocupei com isso. Algumas pessoas vivem essas questões com alguns problemas. Eu confio na música. Se uma canção for suficientemente forte para roubar tempo a alguém, isso quer dizer que o trabalho está feito e bem feito. E desculpa se sou convencido, mas acho que tenho a capacidade de fazer canções assim. Tinha a certeza que os que realmente querem saber disto poderiam esperar que eu crescesse. Porque eles também cresceram ao mesmo tempo, não é possível fazer nada disto de forma isolada.

As mudanças também aconteceram no processo criativo?
Voltando ao mesmo assunto: se o permitires, as crianças mudam a tua vida, não é brincadeira. E transformei-me num homem diferente em tudo. As minhas vontades, o meu estado de espírito, as minhas preocupações. Estava num sítio diferente e precisava que a música o dissesse. Não fazia sentido nenhum voltar atrás, ao que já não é novidade. Canções são documentos, não são ficção.

Mudar assim implica mais cuidado, mais exigência?
Não, nem por isso. Já no “Headphone Masterpiece” tinha percebido que a sinceridade era o que tinha de mais importante para fazer a minha arte. A exigência foi manter isso, mas foi fácil, até porque tudo o que gravei é muito pessoal.

Autobiográfico, até?
Das duas uma, ou é tudo meu, experimentado por mim, ou são coisas que vi. Podem não ter acontecido comigo mas, de alguma forma, estive muito próximo. Tirei tempo para saber o que se passava à minha volta, com a minha família, com a comunidade que me rodeia. Estas realidades podem não ter passado pelo meu dia-a- -dia mas dizem-me respeito, compreendo-as, tenho uma ligação com o elemento humano que as protagoniza. O corpo de trabalho que procurei criar baseou-se nestas experiências e tentou ser sempre o mais acessível e humano possível. Este disco sobre a realidade, uma espécie de documentário.

Ou seja, além das mudanças pelas quais passou na sua intimidade, também foi registando uma década de acontecimentos.
Sim, mas não tantos como esperava, ou da forma que esperava. Tenho visto muita gente preocupada em ter um estilo de vida mais saudável, gente que quer realmente proteger o ambiente. Mas há assuntos fundamentais que parecem não avançar, não mudar em nada. Acho que muita gente está frustrada com isso. Porque pensam que nunca vão conseguir mudar seja o que for, ou que tudo demora muito tempo a mudar. Socialmente, continuamos a ter muito para transformar e é difícil, é muito difícil. Temos desemprego, temos modelos educacionais que precisam de ser alterados, um sistema de saúde que não está reformado ainda, apesar das últimas evoluções. Lutamos contra o crime, as drogas, sempre, e um problema actual complicado de combater, as dúvidas que os americanos têm sobre o seu próprio valor, a sua auto-estima. Há coisas positivas, claro, não é tudo negro, mas há muito trabalho a fazer.

Fala-nos da realidade americana. Quando sai dos EUA, parece-lhe que é essa a imagem que o resto do mundo tem?
Não. Porque não é possível compreender um sítio sem estar de facto lá, passar tempo, conhecer, descobrir. Há sound bites e pequenos traços revelados pelos media mas é tudo informação limitada e seleccionada. É como as pessoas, não é diferente. Por isso muitas vezes toma-se parte da América pelo todo. E acho que não é boa a unilateralidade dos media e o retrato que fazem da realidade. As pessoas acreditam no que vêem. Nem toda a gente quer gastar tempo para ler, para investigar. Ficam com o que está pela televisão ou pela internet. O tempo impõe uma ditadura difícil de contrariar.

Ao mesmo tempo que canta experiências e memórias, fá-lo, por vezes, como conselheiro, como se dissesse “já estive aí, já experimentei, já conheço, não é a melhor opção”. Não teme ser entendido como paternalista ou que alguém diga “quem é este tipo para me dizer o que fazer”?
Tenho uma regra. Na verdade tenho várias, mas há uma muito importante: nunca subestimar o público, as pessoas que nos ouvem. Nunca duvidar do seu crescimento, espírito, inteligência. Isto que canto não é imaginação, é a vida real. Se não percebem ou têm algum problema é porque ainda não cresceram o suficiente para entender o que se passa por aqui e qual o paralelismo que estou a traçar. Mas, como no “Headphone Masterpiece”, não me preocupei se as pessoas iriam dizer “meu deus, 36 canções?”, não ia agora estar ansioso com esse tipo de questões. Nesta vida tens de decidir o que queres ouvir e partilhar com as pessoas. Depois elas dizem sim ou não. Mas essa escolha nunca pode ter nada a ver contigo.

Fala como chefe decidido das suas ideias. Também é assim que funciona em estúdio?
Nunca tive essa abordagem. Tenho a visão, escrevo as canções, tenho uma expectativa, mas não tenho mão de ferro. Agora é claro que tento passar a minha visão aos outros, quem trabalha comigo nem espera outra coisa. E se algum detalhe não resulta como planeei, claro, mudemos. Mas está tudo no respeito e na admiração.

Não tanto no perfeccionismo.
Não. Quase todas as canções foram gravadas ao fim de três takes. Espontaneidade, meu, isso é do mais importante que há. Todos os grandes da soul e do R&B, porque achas que são grandes? Porque são o que se ouve nas canções, está tudo ali, não foram fabricados. Chegavam, faziam a sua cena e estava feito, obra-prima instantânea. A fórmula é simples: se resulta resulta, nada de complicar. É soul, é por aí.

É sempre infalível, a música que segue os princípios da soul, do R&B ou do funk?
É melhor não usar a palavra “infalível” mas há qualquer coisa neste groove que é mágico. Quando estive parado pensei nisso muitas vezes. Geração após geração, tanto os novos músicos como as referências históricas afectam as pessoas, é algo inevitável, 1972, 92 ou 2012. Não sou mais que eles para saber explicar o porquê, mas quero tentar pôr isso na minha obra. Maior desafio é difícil.

E o resultado final, é o que esperava.
É, claro. Pelo menos pareceu-me, da última vez que ouvi o disco. Não o faço há algum tempo, desde que ficou pronto, em estúdio. Escusado será dizer que tenho andado mais preocupado com os concertos.

Devemos então esperar surpresas para a actuação em Lisboa?
Não esperem nada. Música e esforço, é bom?

Cody ChesnuTT actua no festival Vodafone Mexefest, em Lisboa, a 7 e 8 de Dezembro
publicado no i
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