Peter Hook: “Éramos apenas quatro tipos normais a tentar fazer rock’n’roll”

Peter Hook sabe que o que vai fazendo em palcos de todo o mundo não é o mesmo que faziam os Joy Division. Que não há músicos que substituam a banda que revolucionou o rock’n’roll entre os anos 70 e 80 e que ainda hoje é inspiração para músicos e aspirantes deliciados com a melancolia abrasiva cantada por Ian Curtis. Mas interpretar na íntegra o primeiro álbum do grupo, “Unknown Pleasures” (1979), e outros clássicos (hoje no CCB), é, diz-nos, uma “homenagem obrigatória”. O super-herói do baixo confessa ainda que não há críticas que o demovam e que no próximo ano fará uma celebração semelhante com as canções dos também seus New Order.

Quando e porquê decidiu avançar com este projecto?
Em 2010 passaram 30 anos da morte do Ian. Na sua terra natal, Macclesfield, estavam a planear um evento de celebração. A ideia passava por contratar uma banda, comigo no baixo e uma série de cantores convidados, em jeito de homenagem. Por diferentes razões nada disso aconteceu mas pareceu-me uma grande ideia. Decidi que seria eu a concretizá-la, caso contrário nunca aconteceria. 30 anos depois, achei que era merecido. Juntei uma banda com a ideia de tocar o “Unknown Pleasures” na íntegra, além de outras canções. Mas tudo num evento único.

E como acabou por formar a banda?
Foi complicado. Muita gente em Inglaterra reagiu mal à ideia. Isso foi triste até porque havia também um princípio de caridade para com algumas associações. Todos os cantores que convidei recusaram participar. Assim, decidi cantar. Agora acho que foi uma boa ideia. Sinto-me bem a cantar as letras do Ian e o meu filho toca muito bem baixo. Eu também toco mas por vezes preciso concentrar-me naquilo que estou a cantar.

E não se ficou apenas por um concerto…
Não, mas sem ter planeado nada disso. O primeiro concerto, em Manchester, esgotou. De repente eram duas datas e mais tarde surgiram convites vindos de toda a parte. Na verdade foi muito simples.

Como reage às críticas, especialmente às que dizem que apenas faz isto pelo dinheiro?
Têm-me acusado disso mas são pessoas que nunca vão querer ir aos concertos, que escrevem coisas na internet. Claro que nada disso faz sentido. Só quero celebrar a música dos Joy Division e o génio do Ian Curtis. Em segundo lugar, angariámos já muito dinheiro para obras de caridade, para associações como a MIND, a Keith Bennett Appeal ou a Forever Manchester. Já o fizemos com os discos “Unknown Pleasures”, “Closer” e “Still”. E quando em Janeiro começarmos a fazer o mesmo com o “Movement” e o “Power, Corruption and Lies”, dos New Order, vai acontecer algo semelhante [primeiras datas confirmadas em Londres e Manchester, a 17 e 18 de Janeiro, respectivamente].

E os outros membros das duas bandas?
Reparei que o Bernard Sumner me acusou de “fazer lucro” com isto. Mas são acusações ridículas, vindas sobretudo do Bernard, ele que terminou há pouco uma grande digressão usando o nome New Order. Tenho para mim que os New Order se separaram em 2006. Se eu estou a fazer isto pelo dinheiro… é tudo muito hipócrita.

Mas sente a falta do resto da banda em palco, certo?
Num mundo ideal era isso que aconteceria, todos os músicos dos Joy Divison juntos. Mas não é possível, não vejo maneira de trabalharmos todos juntos outra vez, eu, o Barney e o Steve. Muitas coisas aconteceram. De qualquer forma, a banda que me acompanha é incrível.

Tocam sobretudo “Unknown Pleasures”. Porquê?
É um disco notável e mostra os Joy Division como nome rock e punk irrepetível. Todas as canções são notáveis, plenas de diferentes emoções. Especialmente quando as ouvimos ao vivo. De qualquer forma, este é apenas um começo, a ideia é voltar a Lisboa para tocar o “Closer”. E é notável como os alinhamentos dos discos resultam tão bem em palco. Ainda assim, o “Unknown Pleasures”, por ter sido o primeiro, será sempre especial.

O que recorda mais da gravação do álbum?
Naquela altura, eu e o Barney queríamos que tudo fosse muito alto, pesado, abrasivo. Como os Sex Pistols ou os Clash, eram os nossos heróis de então. Mas não foi esse som que o nosso produtor, Martin Hannet, nos deu. Por isso não gostámos do que ouvimos, à primeira. Claro que viríamos a perceber que estávamos errados e que aquela personalidade sonora seria intemporal. O Martin era um génio.

Tem uma canção favorita?
É difícil escolher uma canção, são todas óptimas. Mas tenho um carinho especial pela “The Eternal”, do “Closer”, sobretudo agora que a tocamos ao vivo.

Como tem sido a reacção dos fãs? Totalmente sintonizados nos concertos ou com algum cepticismo?
As pessoas estão rendidas, em absoluto. E não esperava ver tanta gente nova nas plateias. Esperava tipos da minha idade mas são os mais jovens que me parecem mais inspirados e tocados pelas canções. Em Portugal, por exemplo, aconteceu isso, quando tocámos em Paredes de Coura, em 2010. E era apenas o nosso quinto concerto. No Porto, o ano passado, também foi especial.

Publicou recentemente um livro com as suas memórias do tempo dos Joy Division. Serviu como uma catarse?
Sim, de certa forma. Não gostava de ver livros sobre os Joy Division escritos sobre outras pessoas. Eles não estiveram lá, não conhecem a história toda como nós, da banda. Não é que me sinta especialmente encarregado de esclarecer as pessoas, não é nenhum fardo que carrego, é antes um gosto, é orgulho.

Quer isso dizer que há por aí muitos mal-entendidos?
Alguns. Por exemplo, muitas pessoas julgam que todos os músicos dos Joy Division eram muito arty e inteligentes, muito serenos e misteriosos. Mas a verdade é que éramos apenas quatro tipos normais, com empregos aborrecidos, a tentar fazer rock’n’roll porque admirávamos pessoas que o faziam. Não éramos assim tão especiais.

Mas existe um fenómeno, um culto especial, sobretudo em volta de Ian Curtis…
Mas esse é um caso diferente. Há sempre uma espécie de mito, uma admiração que rodeia um artista muito talentoso que morre ainda novo. Isso tem o seu lado positivo, garante um legado intemporal. Como é possível ainda hoje não admirar gente como o Jimi Hendrix, o Jim Morrison ou o Kurt Cobain? O Ian era um fenómeno à espera de acontecer. Um homem muito talentoso com uma história muito complicada. Tão complicada que, se soubesse o sucesso que atingiu, teria dificuldades em compreendê-lo.

Concerto às 21h, no grande auditório do CCB, em Lisboa (integrado no Misty Fest). Bilhetes a partir de 30 euros
publicado no i
Esta entrada foi publicada em Joy Division, New Order, Peter Hook. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s