Tame Impala: um homem pode fazer uma banda (ou quase)

O título deste texto fala em Tame Impala, a assinatura na capa de “Lonerism”, o disco que motiva tudo isto. Mas a verdade é que poderia estar em letras azuis o nome de Kevin Parker. Porque foi com ele que falámos e porque é ele o único responsável por estas canções. O herói australiano, eremita de estúdio e de discos de outros tempos, com a mania de fazer acontecer aquilo que já lá vai. Consegue-o e – melhor que isso – adapta e renova a linguagem que o psicadelismo lançou nos últimos anos da década de 60. “Os Tame Impala sou eu.” Está bem, Kevin, não é preciso pôr a questão nesses termos. “Não digo isto por mania ou por autocontemplação. É porque muitas vezes perguntam-me como é que a banda se dá em estúdio. Mas a banda só existe em palco.” Esclarecidos.

Tudo o que ouvíamos em “Innerspeaker”, disco que fez a banda-sonora do Verão do amor de 2010, está também em “Lonerism”, mas com mais requinte – não é luxo nem brilho, é cuidado e atenção. Kevin, uma ajuda às explicações, por favor: “Podia ter gravado um segundo disco antes, com uma edição muito mais rápida. Mas atrasei tudo propositadamente. Isto de fazer discos como quem tem uma pastelaria só se pode fazer uma vez, à segunda já é desleixo.”

Esta foi uma das razões, a outra é a mania de Kevin de fazer tudo sozinho, escondido do mundo. E com um estúdio cheio de tralha difícil de encontrar, a graça e a glória de qualquer coleccionador das coisas sonoras. Quem é que o tira de lá? “Horas e horas à procura do tom certo para as guitarras e depois vou a rever tudo e aquilo não soa como eu estava à espera. Não dá, não pode ser, não estou para isso, tem de sair como eu quero.”

E sai. O processo de Kevin Parker é exigente e a dar para o doloroso – mas seria mais se estivesse aqui um rapaz de família, preocupado com a vida doméstica e o futuro do seu legado no mundo. Nada disso. O melhor que ele faz nesse campo é acompanhar a namorada, a francesa Melody Prochet, nas suas canções de psicadelismo europeu (conferir a estreia da miss Parker em “Melody’s Echo Chamber”, momento pop de classe assegurada). De resto, é melhor esquecer o mundo fora da sala de gravações. “Devia fazer mais surf, ser mais australiano, não é?” Se calhar, podia ser uma boa ideia. “É, podia.”

Mas é capaz de não funcionar. Porque depois de gravar tudo o que se escuta em “Lonerism” é melhor espalhar as canções pelo mundo – sobretudo olhando para o extracto bancário de Kevin, que se ressente dos investimentos que o homem faz para gravar discos e em material que mais ninguém tem. “Gosto de tocar ao vivo, claro que sim. Mas também o faço porque preciso do dinheiro. O que realmente me interessa é fazer a música de que gosto, como gosto.” Que é como quem diz São Franciso-Los Angeles-Londres-1967, mas como filho do século xxi. Retromania modernista, porque “é esse som que me deixa entre o nervoso e o feliz”, diz-nos Kevin. “Até posso ouvir uma banda nova interessante, ainda que seja raro. Mas volto sempre ao som que me deixa mais à vontade. Não é pecado, de certeza.”

Não, nada disso. E, ao que parece, resulta com a multidão. Tame Impala é nome de sucesso, mesmo que o nome do verdadeiro criador da obra em causa fique escondido no meio das luzes. “E daí?”, pergunta ele. “Todo o trabalho que tenho com a banda que me acompanha ao vivo merece ter um nome. E um que seja famoso.” Estrelato rock aqui vamos nós, portanto. “Não, não me parece. Já ouviste bem como o nosso som é distorcido? Coisas assim não costumam ter muito sucesso.” Acredita, Kevin, acredita.

 publicado no i
Esta entrada foi publicada em Música, Tame Impala. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s