John Cale: ‘Quando me repetir, desisto. Se não reparar, avisem-me’

John Cale tem um álbum novo e actuou no sábado na Casa da Música, no Porto. Pelo caminho, há ainda a reedição do primeiro álbum dos “seus” Velvet Underground, que comemora 45 anos, nas lojas segunda-feira (não que essa seja a sua prioridade). E ainda assim, nada como uma boa distracção sonora para que a conversa tenha outras preocupações. Até isso soa bem, no caso deste compositor intérprete sem barreiras de estilo ou gosto. É uma qualidade crónica, que desta vez começou assim:

Que barulho é esse?

O alarme de um carro.
Hmm… Os vossos alarmes têm sons diferentes, são mais interessantes. Era tipo para fazer alguma coisa com isso. Mas diz, diz, ias perguntar…

Bom, queria saber o que podemos esperar do concerto na Casa da Música mas música com alarmes parece-me um bom tema.
Não, desculpa, foi só uma ideia. Sobre o concerto, vai ter muitas canções novas, por isso preparem-se.

É necessária preparação?
Não pelas canções mas pelas expectativas. Por vezes, porque tenho alguns anos disto, as pessoas esperam algo que não acontece. Também não quer dizer que vou tocar o disco novo na íntegra e nada mais, mas há muito material novo. Preparação não é necessária. Ou melhor, podes escrever algo como “apareçam para passar um bom bocado”. Pelo menos costuma ser assim, em tudo diferente do que acontece em estúdio.

Antes o palco, é isso?
Claro. Tenho tentado ser mais eficaz no estúdio e gosto disso. Mas não existem reacções, não se ganha nada ali dentro. E tenho encontrado gente louca nesta digressão. Louca mas honesta. Isso ajuda-me, facilita-me o trabalho e o improviso.

O que quer dizer “mais eficaz em estúdio”?
Sou um tipo do ar livre, percebes. A eficácia ajuda-me a passar menos tempo numa sala de gravações. Tenho tudo o que é preciso. Construi o meu estúdio num ano e meio. Agora sei que tudo o que gravo vai soar igual quando o ouvir em disco. Para este último álbum, gravava faixas em CD e ia a correr para o carro, avaliar o som final enquanto dava a volta ao quarteirão.

Um método apurado e científico, portanto…
Na verdade, o meu método é a falta de método. Não deveria ser bem assim para um tipo da minha idade e com a minha experiência, não é? E então? Tenho-me dado bem. Já nos Velvet era assim. Começar sem ter qualquer tipo de ideia, nenhuma direcção. Se for bem trabalhado, o resultado vai ser bom.

E para “Shifty Adventures in Nookie Wood”, não houve nenhum plano? Para regressar aos álbuns, sete anos depois de “blackAcetate”, alguma coisa serviu de motivação…
Queria misturar analógico com digital. Não parece suficiente, pois não? Mas é a verdade. Surgiam ideais ao piano ou na guitarra mas também tentava estabelecer o groove das canções através da bateria digital. Usei o estúdio para escrever e os resultados são mais imediatos. Isso dos anos não é muito relevante. Posso escrever canções e editar discos quando quiser porque… posso. Não é uma qualidade ou um defeito, é o que é.

Ou seja, também não há expectativa que o assombre, quando regressa aos discos ou às digressões.
Nada disso. Até porque confio em mim, sou um tipo seguro. Em mim e na minha banda. Consigo fazer o que tenho a fazer em palco. A única pressão que me acompanha é a minha, tentar sempre não repetir algo que já tenha feito. Procurar novas direcções, novas combinações sonoras. E acho que nada neste álbum soa a algo que já tenha composto antes.

E isso não é muito exigente, para quem conta quase 50 anos de música?
Não porque fico doente só de pensar em cair nesse erro. Quando me repetir, desisto. Se não reparar, avisem-me.

Tem uma boa memória para conseguir recordar tudo o que fez até hoje.
Não é uma questão de memória, está tudo na sensibilidade. E se estiver só preocupado com o que tenho para fazer agora sei que vai correr bem.

E nos concertos?
É mais fácil. Sabes como vais começar e como vais terminar, essas são as secções óbvias. O problema está em escolher o que vais colocar no meio do alinhamento. Se estiveres com dificuldades, vai ao teu catálogo e viaja no tempo. Toda a gente gosta de se sentir em casa e reconhecer uma canção antiga que não ouve há muito. E resulta. O que interessa é situar as pessoas. Como o John Cage dizia, aliás.

Ou seja?
O Cage falava no público que ia às salas de concertos na Europa, para escutar grandes peças, com grande intensidade. Ele dizia que a audição não acontecia assim com tanto afinco. Há sempre alguém a tossir ou o barulho do trânsito, um espirro. Daí vem a necessidade do design sonoro, muito explorado pelo cinema para criar envolvência. Claro que essa é um esfera intelectual, a de Cage, muito superior, irrepetível, mas vale a pena pensar nisso e tentar adaptações à nossa medida.

Existe um público-tipo nos seus concertos?
Só sei falar sobre o pouco que vejo a partir do palco, no meio das luzes. E avisto muita gente nova. Grupos diferentes pela sala, um que salta e assobia, outro na frente, a observar com muita atenção tudo o que faço, como se estivessem hipnotizados, ou uns miúdos que estão lá mais atrás a beber umas cervejas. Há uns seis anos, talvez, o público nos meus concertos começou a mudar, a ficar mais novo.

Porque existe uma ideia generalizada, algo como “esta é uma oportunidade de ver um mestre ao vivo”.
É, não digo que não. Mas não penso muito nisso, vou mais pelo entusiasmo. As pessoas até me pedem coisas mas não posso dizer que sim a tudo. Até para fazer o “Paris 1919” [álbum de 1973] com orquestra foi preciso muito tempo para que fosse convencido. E diz por aí que é o meu disco mais acessível, olha se não fosse.

Terá isso a ver com o tal “não querer repetir o passado”?
Talvez. Gosto mais de perder tempo em confirmar que o mundo é um sítio interessante, com muito a acontecer. Já fizeste as contas sobre como isso se traduz em sons? E_nunca vão chegar ao fim. É preciso ler nas entrelinhas.

E não há um “John Cale versão de baixa rotação”, fora da música e dos sons?
Claro. Tenho uma casa cheia de livros e a minha principal tarefa quando não tenho trabalho é tentar desfazer-me dos livros que já li. São muitos, um dia serei enterrado neles se não resolver o problema. E depois há a minha curiosidade na cozinha sous-vide, a fazer pratos durante 72 horas. São desafios e isso é interessante. Isto tudo para dizer que não sou só o compositor-rockstar, não sou só o gajo que já foi dos Velvet Underground.

Ou artista avant-garde.
Exacto, coisa que nem sempre se aplica. Avant-garde é aquele que não se enquadra em nenhuma linguagem definida. É único e independente. Uma fasquia muito elevada para atingir, estabelecida pelo LaMonte Young, na década de 60. Sim, nos Velvet tocámos sobre os filmes do Andy Warhol mas o LaMonte… Desenha uma linha recta e segue-a, era isso que ele dizia, para descobrir o que era finito ou infinito. E_a interpretação tinha sempre resultados diferentes. Isso é que é avant-garde.

Mas não sente que também já quebrou barreiras, mesmo que de outra forma?
Talvez. Com os Velvet, com as sessões de improviso ao vivo que fizemos. Ninguém sabia por onde ia. Até que de repente alguém tinha uma ideia e tudo acontecia, era incrível. Não que o quisesse repetir, que agora fosse notável, mas na altura soava revolucionário. O primeiro álbum tem 45 anos, vai há muito tempo.

Quando ouviu o disco pela última vez? Como é que o recorda?
Não costumo ouvir, nem me lembro. Eu sei que há uma data redonda mas… Os métodos de gravação eram diferentes, o som era outro, mas tem coisas muito interessantes, os improvisos, coisas que nasceram de concertos impossíveis. É possível ouvir quatro mentes a lutar constantemente para descobrir um novo caminho. Nasce tudo de uma paisagem indefinida até conseguir criar um corpo coeso. Cresce e deixa solo fértil. Disso eu tenho a certeza.

(publicado no i)
Advertisements
Esta entrada foi publicada em John Cale, Música. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s