James Brown: a conquista do Apollo faz 50 anos

O Apollo Theatre é, ainda hoje, o pedaço de quarteirão mais interessante do bairro nova-iorquino do Harlem. Seguido de perto, claro está, pelo vizinho Sylvia’s, o restaurante da rainha da soul food, com o atendimento certo e um rolo de carne impossível de repetir. Mas enquanto este último abria em 1962, nesse ano já o Apollo dizia o que era regra na música pop, o que deveria fazer história ou ser esquecido, palco que serviu tanto de glória como de revelação para a música negra americana. James Brown passou por lá a 24 de Outubro desse mesmo 62 para gravar um álbum ao vivo (editado um ano depois), monumento que ainda hoje não tem rival. Cinco décadas que não tiram um pingo de suor a cada tema. Escutai: está tudo lá, na mesma.

Brown já era o homem mais trabalhador do showbiz, título que carregou até morrer, no dia de Natal de 2006; o Mr. Dynamite de pavio curto, que queimava caminho desde meados dos anos 50, em conjunto com as vozes dos Famous Flames. Mas vestir ambição dá nisto: e que tal gravar um disco ao vivo, para tentar captar o melhor de Brown, em palco? Golpe de génio, dizia o artista, coisa duvidosa, garantia Syd Nathan, responsável pela King Records que editava o padrinho da soul. O ponto de vista de Nathan era até óbvio: quem gostava, tinha os singles, para quê gastar dinheiro com as mesmas canções?

A resposta óbvia estava nos concertos. Após o anúncio do anfitrião Fats Gonder, há James Brown a querer ser Ray Charles e Little Richard ao mesmo tempo, com tudo o que os dois nunca foram. O homem era xamã de celebrações inacabáveis, arrancando reacções que o público não julgava poder dar em consciência (estão todas no disco). Metais no máximo, vapor no ar, ritmos sem mácula, mulheres perdidas e homens invejosos. E enquanto fermentava sexo, desejo e sentido de classe operária, James Brown suava até ao fim das suas possibilidades – qual fim? R&B a dançar com a soul como nunca, antes de “I Feel Good” ou “Sex Machine” nascerem e sem precisar delas para nada. E os 60s, mais as respectivas revoluções sociais, a arrancar no Harlem.

O disco cumpriu os requisitos de James Brown (que o financiou por completo); deu às rádios temas tão frenéticos como diplomáticos, para seduzir sem ofender; foi momento de referência para o histórico de vendas do artista (logo na altura chegou a número 2 do top da Billboard); estabeleceu parâmetros para todo e qualquer disco ao vivo que se seguiu – ficar próximo desta classe é o indicado, superá-la é feito improvável; e influenciou intérpretes de todas as naturezas, do rock’n’roll de Mick Jagger ao caos dos MC5, do estilo de Prince ao esforço de Bruce Springsteen.

Não representa nem mais nem menos pontos extra à obra mas fica um doce pedaço de trivia: em 1962, o dia 24 de Outubro também foi uma quarta-feira. É deixar o disco rodar, uma e outra vez. O rolo de carne do Sylvia’s fica como bónus mais difícil.

publicado no i
Advertisements
Esta entrada foi publicada em James Brown, Música. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s