Young Marble Giants. “Mais de 30 anos depois e ainda há quem perca tempo connosco”

Privilégio de uns poucos: editar um álbum, apenas um, fazer História com o documento e, mais de 30 anos depois, continuar a servir de referência para fãs e músicos que se vão inspirando nas maravilhas de “Colossal Youth”. O minimalismo pós–punk editado em 1980 nasceu do método “usar apenas o necessário” para fazer canções como jogos de vídeo em 8 bits: simples mas eficazes, para ficarem na memória muito depois de várias revoluções criativas. De tal forma que a lista de quem dá a cara para dizer algo como “os Young Marble Giants mudaram a minha vida” só tem tendência para aumentar, além de contar já com nomes tão distintos (entre desaparecidos ou não) como Kurt Cobain, R.E.M., Yo La Tengo, Adam Green ou The xx. Voz, guitarra, baixo, teclas e uma tímida caixa de ritmos, que agora se passeiam por palcos de todo o mundo a interpretar “Colossal Youth” na íntegra. Antes do concerto em Vila do Conde, a 13 de Outubro, Alison Statton, a “vocalista, cantora não”, diz-nos que já se apercebeu que é de novo cool gostar dos Young Marble Giants. Pedimos-lhe explicações.

Como assim, são cool outra vez?
Tenho um filho com 16 anos e de vez em quando um dos amigos dele descobre a nossa música e fala com ele sobre isso. Alguns porque sabem quem ele é, outros não. Podes imaginar a reacção deles quando descobrem que ele é da família.

E o que é que eles costumam dizer sobre o assunto?
Ficam muito fascinados, interessa-lhes a música, querem saber mais coisas, de onde vem tudo aquilo, o que acontecia quando fizemos o “Colossal Youth”, todas essas coisas. E é óptimo perceber que além de ainda haver gente interessada nestas canções, há quem descubra agora a nossa música e goste, se apaixone. Ainda que vivamos num tempo em que há tanta música interessante por aí e está tão acessível. É incrível. Mais de 30 anos depois e ainda há quem perca tempo connosco. Isto é sucesso.

E porque será?
Bom, não será pelo carácter único da música. Isso existiu na altura, quando editámos o disco, hoje já não é assim, o que fazemos não é novidade, agora há mais experimentalismo na pop, coragem. Ainda assim, há quem se identifique com o que fazemos e que o tenha como único.

Qual foi a reacção à vossa música em 1980?
Tudo aconteceu no mercado independente, nunca fomos grandes comercialmente falando. Mas fomos surpreendidos pela resposta de publicações como o “New Musical Express”, a revista “Sounds” ou o “Melody Maker”. Toda a gente parecia gostar da nossa música. Foi graças às gravações incluídas numa colectânea da Z Block [“Is The War Over”, de 1979] e às actuações num bar chamado GrassRoots, que apoiava projectos criativos de jovens artistas – como faz o Estaleiro, onde vamos tocar em Outubro – que conseguimos a proposta para gravar um álbum, com a Rough Trade. Foi tudo mais especial ainda pelo momento específico em que tudo isso aconteceu.

Que momento foi esse?
A verdade é que na altura estávamos prestes a desistir, cansados de tentar e não conseguir nada. Achávamos que a música não era futuro para ninguém e precisávamos de encontrar novas profissões.

Quem diria.
É. Daí a nossa surpresa face à recepção sobre a nossa música.

Tudo o que fizeram em “Colossal Youth”, foi planeado ou aconteceu no estúdio de forma espontânea?
O compositor principal da banda era o Stu [Stuart Moxham]. A ideia principal dele era compor como faziam os seus cantautores favoritos mas apresentando tudo de uma maneira diferente.

Que maneira era essa?
Era suposto ser tudo minimal. E os espaços entre os diferentes sons seriam tão importantes como tudo o resto. Criar uma atmosfera, isso era um objectivo. O Phil [Philip Moxham] tinha um som de baixo muito particular e tocava-o com grande sentido melódico. E depois a caixa de ritmos, na altura era uma coisa algo inovadora e ainda muito básica no que podia fazer. Para quem estivesse mais sintonizado na pop mais comercial dava de caras com uma coisa feita com os mínimos recursos possíveis. Havia um plano, por aí, não sei bem se era o que resultou em disco. Acredito que aconteceram acidentes pelo caminho.

Essas opções fizeram escola, geraram influências.
Claro que sim, porque na verdade nada disto é complexo, é, sim, possível de ser feito. Nenhum de nós é um músico virtuoso, não havia “guitar heroes” nem verdadeiros cantores, eu sou mais uma vocalista, nunca passei disso.

Mas só por ser simples, ou assim parecer, não significa que seja fácil.
Não, mas pode levar muita gente a pensar que é. E isso ajuda, isso motiva. Diz algo como “não tens de estudar anos e anos para fazeres algo assim, se quiseres”. Além de que talvez tenhamos dado a alguns músicos a permissão psicológica para fazer pop de uma forma diferente, para experimentar e não ficar preso a estilos previsíveis.

Ainda hoje?
Sim, mas de uma forma diferente. Ainda há quem o queira fazer e quem consiga mas é cada vez mais difícil. Nos últimos 30 anos apareceu muito mais música experimental e quando assim é a inovação torna-se mais difícil de conseguir. Ao mesmo tempo, quando aparece, é ainda mais surpreendente. Por isso ainda acredito que possa continuar a surgir gente revolucionária. Há sempre qualquer coisa a arriscar uma receita nova, nem que seja a reciclar inesperadamente coisas mais antigas.

Retromania, portanto.
Isso. Claro que sim. Isso vai sempre acontecer, é quase natural. O mais curioso é que com a internet, as gerações mais novas dão atenção a uma variedade musical muito maior. E essa é a vantagem de poder fazer o download de uma canção aqui e outra ali, em vez de comprar um álbum inteiro. A experimentação começa na escuta de música, de sons diferentes, de géneros e estilos. Assim podem descobrir se são dos blues ou do pós-punk. Ou se vão misturar tudo. Ser selectivo pode dar em aventura também.

Quando vocês tocam ao vivo, quem vos vai ver?
É um público nada uniforme. Diferentes gerações que estão ali por diferentes motivos. Uns porque nunca nos viram em 1980 e que foram mantendo a música viva. E gente nova, mais de metade do público de quase todos os concertos, que nos descobriram com um irmão mais velho ou com um blogue. Há quem nos vá ver com os pais e isso é especial.

Interpretam “Colossal Youth” tal como foi gravado ou fizeram alterações?
Mudámos algumas coisas. E uma das grandes diferenças é termos sempre connosco o Andrew Moxham, irmão mais novo do Phil e do Stu. Ele toca bateria electrónica e isso traz novidades. O som é parecido com o original mas ter uma pessoa em vez de uma máquina dá-nos mais flexibilidade, mais possibilidades. Mas nunca procurámos fazer grandes alterações. Quando reeditámos o álbum, em 2007, alguém propôs uma remistura de todas as canções, uma espécie de actualização sonora mas nem na altura quisemos mudar, optámos pelo original e acho que fizemos bem em não polir melhor o disco.

Com o reconhecimento que continuam a ter entre a crítica e o público, mais de 30 anos depois de “Colossal Youth”, ainda vão a tempo de conseguir o sucesso comercial que vos faltou. E talvez agora seja mais fácil de o conseguir.
Não acho. Até porque agora é mais difícil de ser famoso, há muitos músicos a trabalhar. E podemos passar na rádio ou algo parecido várias vezes por dia numa semana e na semana seguinte já ninguém nos ouve. Ainda que sejam artistas fantásticos. Apesar de tudo temos muita sorte. Só editarmos um álbum e conseguirmos voltar a tocar já é muito bom. Aliás, se fizéssemos um álbum número dois seria incrível. Ou então seremos criticados, acontece a alguns regressados.

E o que vos fez voltar?
A Domino decidiu reeditar o álbum em 2007 e queriam que fizéssemos um pequeno concerto num festival de literatura [Haye-on-Wye, 2007] para o lançamento do disco. Aceitámos. E além de termos gostado muito do reencontro, foi uma boa terapia para uma separação que poderia ter sido mais amigável na altura. As propostas para outros concertos começaram a aparecer e vamos aceitando muitos deles. Sem grandes planos, não vamos fazer um alvoroço com isto.

(publicado no i)
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