O romance perfeito é o dos Minta & The Brook Trout

(a banda apresenta hoje ‘Olympia’, o novo álbum, ao vivo no Salão Nobre do Conservatório, em Lisboa, 22h00, bilhetes a 7€)

No Jardim Constantino, em Lisboa, há uma esplanada com pontos a favor de Francisca Cortesão. Artista, com dom especial para as canções, tudo verdades. Mas para estes ouvidos a música não existe porque sim. Escuta-a como dependente incurável da coisa. Agradece o vício e exige compreensão: “Se alguém estiver comigo num café e houver música ambiente, podemos estar a falar de algo importante que eu vou interromper para dizer ‘isto é Bangles, não é’, ou algo do género.” Vai mais longe. Diz-nos “sou insuportável” e nós respondemos-lhe que não é bem assim. Até porque, se outros motivos não existissem, há “Olympia”, o novo disco de Minta & The Brook Trout, para termos a certeza que não é mania, é saúde criativa.

Dez canções em meia hora, aritmética mais que perfeita, para dar à ideia original de 2008 (que nos apareceu à frente pela primeira vez no EP “You”) o melhor dos acabamentos. Intimismo de guitarras e seus amigos, romances, despedidas e misérias do coração cantadas com veludo. Francisca, chefe de operações de todas as coisas Minta & The Brook Trout, bem que sabe que há por aqui crescimento e afins: “Está tudo a correr muito melhor do que alguma coisa que poderia ter planeado” mas que não planeou, sabemo-lo. É a chefe, repetimos, não há volta a dar. Mas de uma democracia participativa: “Preocupo-me um pouco mais, talvez, mas eles [Mariana Ricardo, Manuel Dordio e Nuno Pessoa] são muito mais generosos que eu. As canções não são deles e eles arranjam tempo, dedicam-se.” Até porque Francisca nunca seria artista de carreira a solo. Porquê? “Porque não tem graça.” Claro que não. “Estar sozinha em palco? Não ter ninguém a dizer-me ‘então mas e se gravássemos o refrão duas vezes’?” Bem visto.

Fazer canções em casa, como miss Cortesão as faz, tem tudo de gracioso mas é um ponto de partida. “Acontece à noite, quase sempre”, não porque o horário faça parte do romantismo da tarefa mas porque “é o momento em que habitualmente tudo se proporciona”. E desta vez, para “Olympia”, com inédita disciplina. Francisca sabe que não escreve “assim tanto” ou “tanto quanto devia”. Ou assim era, até que decidiu fazer o contrário. “Achei que tinha de começar a fazer as coisas como deve ser”, diz-nos, confiante. “Falei com algumas pessoas sobre isso, estava aflita, não tinha canções”. Aqui pelo meio surgiu gente como B Fachada ou Pedro Silva Martins (Deolinda), “metódicos, que escrevem muito”. Francisca, a descrente, experimentou regras e métodos e acabou com um “sim senhor” como conclusão: “Quanto mais escreves melhor o fazes. Cliché, sim, mas muito verdade.”

Foi esta entrega que deu em “Olympia”, conjunto de canções decididas mas com uma máscara de fragilidade perfeita – porque fica-lhes bem a sensação de perigo em todas as curvas. Culpa de Francisca, claro. Voz em tom de cobertor, como poucas – sem “cuidados especiais”, muito menos “chá de perpétuas”, mas com agradecimentos especiais às aulas de canto que evitam “erros desnecessários”.

Uma voz, dizíamos, que se debruça sobre os males do coração e desventuras associadas. Quem escreve e canta o tema sabe que “vai ser sempre a melhor razão para fazer canções e é normalmente aquela que me leva a compor”. Pensou, a determinada altura, que “talvez fosse tempo de mudar, de não ser apenas a cantora de amores e desamores”. E conseguiu… numa canção: “The Right Boulevards”. Mas, aviso da autora: “É bem provável que seja entendida como uma canção romântica, ainda assim.” Sem problemas, Francisca. Talvez existam motivos fortes e até recentes que expliquem tudo isto, dizemos nós. Recebemos um “não” que é mais um “não vamos falar sobre isso agora”.

E não o fazemos. Importante mesmo é o resultado final. E esse está cheio de detalhes e surpresas para acompanhar os encontros e desencontros cantados. Não porque Francisca Cortesão seja perfeccionista mas porque Mariana Ricardo, que também produziu o disco, é: “Sou impaciente e inconsciente que baste para atirar uma canção para cima da mesa que ainda precise de ser examinada ao pormenor.” Esta cantautora faz na escrita aquilo que é em tudo o resto, “desarrumada, talvez, mas nunca ao ponto de não se poder estar em minha casa, acho. Estou no meio ponto, talvez”.

Confusão confortável, “entre uns Fleet Foxes e um Bill Callahan”, afirma a própria – acrescentamos que a elegância feminina aqui pelo meio é mais-valia. Como o antecessor álbum homónimo (2009) mas de renovada elegância. Mas, ao mesmo tempo, canções que querem deixar efeitos secundários em quem as escuta. “Havia quem me dissesse ‘gosto muito da tua música, é boa para estar em casa, à noite’. Diziam-no com a melhor das intenções mas chateava-me um pouco. Pensava ‘mas incomoda assim tão pouco?’ Espero que não.” De “Olympia” dizemos que até pode chegar ao Jardim Constantino mas vai tramar muitas conversas.

(publicado no i)
Advertisements
Esta entrada foi publicada em Música, Minta & The Brook Trout. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s