Chrysta Bell: ‘Acreditei no David Lynch quando o vi à minha frente’

Diz David Lynch que Chrysta Bell é um anjo e tem uma voz que corresponde ao título celeste. O músico e realizador pôs os olhos na americana e ficou nervoso. Sabia que tinha de fazer algo com a imagem da sua nova musa. Escutou-a enquanto ela cantava e juntou as duas coisas: som e imagem à medida e para as medidas de Chrysta Bell. Escreveu-lhe um álbum, “This Train”, produziu-o e criou um universo particular para este conjunto de canções. Desejo, luxúria e romance, com desencontros e desilusões pelo meio. Perdição nocturna, que em palco ganha contornos de show íntimo. Amanhã, Chrysta Bell explica porquê no Lux, com imagens ao cuidado do próprio David Lynch e do realizador Dutch Rall.

Como é que conheceu David Lynch?
Foi-me apresentado através de um agente, alguém que sabe muito bem que para ele é muito importante ser inspirado por uma voz. Como aconteceu, por exemplo, com Rebekah Del Rio. Este agente disse-me: “Acho que o David Lynch vai adorar-te”. Não é coisa que aconteça muitas vezes, pois não?

Mas em Hollywood, este tipo de coisas deve acontecer muitas vezes, não?
Muitas e, por isso mesmo, o melhor é duvidar. E para mim o David sempre foi pouco real. Para todos os efeitos, ele pertencia a outra dimensão, a um mundo distante. Mas era mesmo verdade, estava mesmo a acontecer.

Acreditou quando o viu.
Sim, à minha frente. Quando o conheci, descobri que ele é simples, directo, acertou no meu nome à primeira, com o cigarro pendurado no canto da boca e a camisa meio aberta. A compreender os meus nervos desde o início. Percebi rapidamente que ia correr tudo bem e que o David queria estabelecer uma ligação com a minha voz, queria-a para as suas canções. Mas também tinha a certeza de que ninguém iria acreditar em mim, no que tinha acabado de acontecer.

Cantar letras escritas por David Lynch, o que tem isso de diferente?
São textos poderosos mas de poucas palavras, como nos filmes. Ainda assim, não fica nada por dizer. Ao mesmo tempo, ele é sempre um realizador, tem essa função inscrita nele próprio, como se fosse algo crónico. Por isso mesmo, nunca estive nem estou apenas a cantar, tive de interpretar as canções de forma intensa. O David não consegue separar as duas coisas, isso para ele é impossível. E depois há o perfeccionismo.

É também uma questão obsessiva?
Digamos que nada ficou finalizado enquanto não alcançou o ponto certo. E eu passei quase toda a minha vida adulta de volta disto. É claro que algumas coisas não me eram possíveis de compreender.

De quanto tempo estamos a falar?
Quem fez as contas certas fala em dez anos. O corpo destas canções sempre esteve comigo, mas comecei como rapariga e terminei como mulher. Durante este período casei-me, divorciei-me, tomei conta de crianças, perdi o meu pai. A dada altura parecia-me demais: não, isto não chega a lado nenhum, tenho de parar, não estou a lidar bem com isto…

Porque é um disco de relações, de desejo.
Sim, e não é fácil cantar sobre isso quando se é muito novo. É possível, claro, mas não é a mesma coisa. Sobretudo quando é preciso transformar essa vivência em canções. O desejo é carnal, supostamente não cabe num disco. Neste caso, acho que conseguimos.

E como se leva isso para o palco?
Em palco é como se nos tocássemos todos, como se andasse uma espécie de corrente de ADN pelo ar, entre quem actua e quem vê.

Sensualidade e algum bom senso pelo meio?
Sim, mais ou menos isso, o que resulta numa actuação muito exigente.

No fim dos concertos, o que acontece?
Há um misto de exaustão com temperatura exageradamente alta que é difícil de controlar. Porque me esforço sempre por personificar tudo isto, tenho expectativas em relação a mim própria. O disco é feito de intimidade e isso é difícil de repetir.

Tudo isto vai dar em filme?
Seria incrível, não? E é impossível ouvir estas canções sem imaginar imagens e personagens. Espero não estar aqui a falar demais.

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