Jack White: maus amores e rock’n’roll de fivela larga

Dizia Jack White numa recente entrevista ao programa “Newsnight”, da BBC, que ele e Meg White, o duo que formava os White Stripes, não faziam “ideia nenhuma daquilo que o público queria ouvir e ver de uma banda no modo ele-e-ela”. Alguém lhe diga que ninguém reparou. Estrearam-se nos discos em 1999, disseram-se capazes de mudar o mundo com “White Blood Cells”, de 2001 (o mesmo ano mágico dos Strokes e do regresso à garagem como epifania rock’n’roll) e transformaram-se em estrelas pop em 2003, com “Elephant” e “Seven Nation Army”. Para quem não sabia o que andava a fazer, Jack White mostrou ser um génio. Ainda assim, o homem não se deslumbrou. Formou mais duas bandas, uma editora, decidiu que os White Stripes tinham passado o prazo de validade e lançou um álbum a solo. Na cabeça deste criativo crónico, a tradição musical americana chega-lhe para fazer sempre mais – por vezes melhor, outras tão bom como o currículo que construiu até ao momento. Poder vê-lo hoje, ao vivo, no Coliseu dos Recreios, é um luxo.

Por estes dias, o músico desfila pelo mundo com as canções de “Blunderbuss”, primeira aventura em nome próprio e a prova que, depois de tanto quilómetro corrido como super herói rock, White afinal é mortal. O que aleija os pequenos ninguéns – os que se acostumaram à música deste rufia da velha escola perdido nos tempos modernos – também o mói a ele. Claro que a vantagem está do lado de Jack White, que o que para os outros são maleitas para ele são bons motivos para escrever canções e gravar discos.

“Blunderbuss”, o álbum sobre quem tem (quase) tudo e continua perdido; de quem acabou com uma das melhores bandas das últimas décadas e que sabe disso; escrito por um coração desfeito (há nestas canções muito do divórcio de Karen Elson), um cowboy electrificado que, vai-se a ver, e também sofre de amores com mágoa. Mantém-se como herói de guitarras indisciplinadas, mas agora também é senhor dos teclados elegantes, das sensibilidades acústicas para fazer esquecer más memórias. O fora-da-lei está feito um desapaixonado mole, é oficial, mas isso não é mau em nenhum momento. Até porque dilemas íntimos que resultam em criatividade é com ele.

Este é o tipo que em jovem foi aceite num seminário mas que, à última da hora, mudou de ideias e recusou ir; que estudou entre fãs de house music e hip hop quando só queria tocar guitarra e bateria; que fez da relação com a irmã-mulher-ex-mulher Meg White uma mais valia no percurso mediático dos White Stripes; ou cujo vício de trabalho levou até a mãe a deslocar-se a Nashville para lhe dizer algo como “filho, vai com calma” – a senhora White acabou a ajudar o seu mais novo com as capas do álbum. Mascara tudo o que lhe passa pelos dias (e isto são apenas amostras) com a sua primeira pele, a de cantador de histórias. Como Bob Dylan, claro, o tal que sempre o inspirou e que o levou a dizer ao “Guardian” que “foi doloroso ler as suas crónicas, como olhar-me ao espelho, como o filho que nunca tinha conhecido o pai até aí”.

Vai daí, pensar que hoje há Jack White, sozinho e a confessar-se perante nós, não é engano. Mas será errado esperar um tipo diferente daquele que fez os White Stripes, os Raconteurs e os Dead Weather. A verdade é que todos eles fazem parte dos alinhamentos que o artista tem apresentado, para que fiquemos esclarecidos: apesar das maleitas, White ainda é o rock’n’roll de fivela larga e chapéu de cowboy.

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