Bon Iver, o cosmopolita do campo

Bon Iver é Justin Vernon do Wisconsin, que é aquele tipo que ninguém conhecia mas que, afinal, é um herói indie, por estes dias quase pop. Chegou ao mundo como artista da montanha, em 2008, com um disco nascido do isolamento e da miséria própria (o brilhante “For Emma, Forever Ago”); ontem, vimo-lo num esgotado Coliseu dos Recreios, em Lisboa, recebido como estrela, admirado em diferentes modos: do “escuto mais as tuas canções que as de qualquer outro” à escola “Bravo”, de poster na parede. Culpa do próprio Justin, que escreve canções como quem não sabe guardar segredos – os próprios, ainda por cima. A fragilidade que canta é a de todos e isso dá em sedução. Melhor parte da história: em palco servem-lhe bem as medidas largas.

O homem do campo na verdade é cosmopolita e traz auto-tune, brinquedos digitais e outros oito tipos para a festa. Não se perde nem esquece detalhes enquanto preenche todos os espaços com recheio sonoro. Bon Iver, hoje, é nome de rocker a cavalo, com rotação controlada mas pronto a levantar alcatrão quando tem de ser. O fã tímido de R&B rural que arrisca romance careta porque sabe dar-lhe a volta e injectar classe nas suas confissões. E atira-nos tudo à cara, sem vergonhas.

Ainda assim, no meio de todo este folclore há um momento de serenidade, feito só do artista e da sua guitarra. É aí que arriscamos pensar “talvez não precisemos de mais nada”. Afinal, foi com esta simplicidade que Justin Vernon começou, a canção apenas com o suor de quem a sofreu. O momento há-de repetir-se um dia, com mais espaço para menos impulsos, mas não é este o tempo para tamanha dieta.

Sozinho poderá ser genial mas por agora precisa de mais. Sobretudo agradar a todos. Há “Flume”, “Skinny Love”, “Perth” e “Calgary”, as pérolas para a massa intervaladas pelos temas menos óbvios. Simples versos de guitarras nocturnas de um lado, muralhas sonoras com duas baterias e o que mais houver do outro. O Bon Iver é da cave e é do grande pavilhão e torna tudo oficial: quem o ouvia no quarto ou enquanto fugia do mundo, perdeu-o para todos os outros sem o deixar fugir. Se daí virá mal ao artista, à sua obra e ao que dela faremos? Nada disso, apenas trará mais hipóteses para um notável escritor de canções.

(concerto hoje no Porto, Coliseu, 21h, 25€)

d’aqui
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