O R&B de Erykah Badu é só dela

Cumpre as regras todas, a fim de ganhar a etiqueta certa nas lojas de discos, mas, depois de garantido o carimbo, foge por onde pode, sem pedir licença a ninguém. Resulta desse esforço extra que Erykah Badu não canta como se escrevesse um diário de noites entre ritmo, desejos e booty calls. Prefere transformar vontades à sua maneira em vez de seguir tendências mais óbvias. Por que raio nunca pudemos ver isso ao vivo? Logo à noite,  às 22h, no hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, isso não vai interessar nada, vai estar tudo a acontecer.

Voltando às escolhas de Erykah Badu, pode ser que o seu percurso não lhe tenha atribuído a popularidade mediática e de apelo teen que outras vozes contemporâneas granjearam. Mas, ao contrário de muitas delas, Badu não apareceu para só ter relevância num pequeno grande zeitgeist de talento, pontaria e sorte. Apareceu como boa surpresa em meados da década de 90 e, até hoje, 15 anos depois do notável álbum de estreia que foi “Baduizm”, mantém a mesma sensação ao estilo “de onde vem tudo isto” que passa pela ideia de todos os que a escutam pela primeira vez. E uma consistência criativa clara e inegável, que a mantém continuamente nervosa, no que isso tem de bom – conferir a discografia lançada até ao momento, selectiva e cuidada mas certeira. Na mais recente saga discográfica da cantora, os dois episódios da série de discos “New Amerykah”, continua essa elegância persistente.

E de vem então esta soul urbana que admite todas as contaminações possíveis (dêem-lhe hip hop, dêem-lhe negrume de sábado à noite em isolamento total, tudo vai ficar-lhe bem): de um gosto pelo coleccionismo de tudo o que lhe possa causar movimento e instabilidade, que  a retire de um conforto banal. Nina Simone e Billie Holiday, Public Enemy e The Roots, Islamismo e África, a sua Dallas natal (nasceu em 1971, baptizada Erica Wright) e a obrigatória Nova Iorque. Misturar tudo, mudar notas sem plano nem antecipação e cantar o que se vê, sem filtros. Como na vida pessoal de Badu, saltimbanca de amores e, ao mesmo tempo, com vocação materna a toda a prova. Procura, descobrir, criar. Um voodoo cosmopolita que não envolve dor, antes foge dela a sete pés.

(d’aqui)

Anúncios
Esta entrada foi publicada em concertos, Erykah Badu, Música. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s