“Antes do músico estava o cidadão, palavra de Woody Guthrie”

Tem dias em que é menos conhecido que o autocolante que levava na guitarra, o tal que dizia “this machine kills fascists” (ou “esta máquina mata fascistas”). Mas Woody Guthrie (1912-1967) não foi só um cantor de protesto, uma voz política que se opunha ao que entendia serem “erros americanos” com canções. Foi, antes, um dos mais importantes nomes da música folk americana, a cantar as histórias de quem encontrava pelo caminho com a sensibilidade de que poucos (quase nenhuns) foram capazes antes dele. Viajou com trabalhadores nómadas, entre o “seu” estado do Oklahoma e a Califórnia, e pelo caminho aprendeu uma generosa colecção de canções tradicionais. Mais tarde dividiu-se entre Nova Iorque e o Noroeste dos EUA, entre o fenómeno urbano e o esforço de um país a lutar a favor da conquista de terra. Escreveu o célebre tema “This Land Is Your Land” e proclamou o seu ódio face às ditaduras que motivaram a II Guerra Mundial. Trabalhou com o folclorista Alan Lomax e com a editora Folkway Records. Teria feito no sábado cem anos mas foi ainda vivo que influenciou gente como Bob Dylan, Pete Seeger, Phil Ochs, Bruce Springsteen ou Joe Strummer – não é crime dizermos aqui que não teriam sido os mesmos sem este herói americano. Casou três vezes e teve oito filhos, entre eles Nora Guthrie, que dirige a Fundação Woody Guthrie. Nora fala-nos em dias de festa que, nos EUA, já se comemora há semanas:

Como vão as celebrações do centenário?
A excitação pode ser muito cansativa. Mas está a ser incrível. Adoro a ideia de que por, um breve momento, há uma oportunidade para fazer passar a voz do Woody.

É preciso fazê-lo? Parece-lhe que falta reconhecimento?
É uma coisa que vai e vem, com altos e baixos, que vai mudando com o tempo. A cada 20 anos, talvez, as pessoas querem ouvir o que ele tinha a dizer, parece mesmo que às vezes precisam dele. Pessoas até como o John Lennon.

É claro que queremos saber tudo sobre essas história…
Já calculava. Em 1976 o John escreveu-nos uma carta. Não é que ele andasse por aí a cantar as canções do Woody mas houve uma altura em que ele precisou do seu apoio. Ele escreveu-nos “o Woody está vivo e isso faz-me feliz”. É esse tipo de coisas que vou encontrando.

É abordada no dia-a-dia por causa do Woody?
Tantas e tantas vezes. Mas já não é tão complicado como foi em tempos, quando a família era sempre a mais incomodada. Agora temos os Arquivos e aí está a informação sobre todas as dimensões do Woody, da música aos escritos às imagens.

Qual costuma ser a grande curiosidade?
As questões mais populares estão relacionadas com o tempo que Woody passou em Nova Iorque. Onde viveu, com quem se dava, por onde andava… Percebemos isso e fizemos mesmo uma espécie de guia turístico sobre o assunto. [“My Name Is New York”, disponível online].

E é possível separar o lado profissional do pessoal? Porque o seu objecto de trabalho é o seu pai.
Todos os anos tiro uns dias durante os quais é proibido mencionar a palavra “W”. Quase que a letra é banida. Isto pode ser esgotante.

Quantos dias?
Uns dois ou três.

Não é muito.
É impossível fazê-lo durante mais tempo.

E consegue sempre regressar a Woody como pai?
Claro. Até porque há pequenas lembranças que não perco.

Por exemplo.
A forma como ele era descontraído e bem-humorado. Brincalhão, leve, muito leve, quase como um elfo ou algo assim. Não foi uma grande figura paternal, é verdade, mas estava sempre lá connosco. Tinha o sorriso mais bonito… havia uma luz diferente à volta dele.

Mas nessa altura ele já estava muito doente, não? [Woody Guthrie morreu vítima da doença de Huntington]
Sim, mas ele sempre procurou explicar-nos que a doença era coisa dele e que nós tínhamos mais era que ficar longe disso. Na verdade, isso até funcionou como um alívio, nunca me deixei ficar presa por isso.

Sobre a música, o que o fez especial, o que tinha Woody de irrepetível?
Bom, não sou académica sobre o assunto. Mas para mim, o mais importante é que não era ele o centro de nada que fazia. Escrevia e cantava sobre tudo à sua volta. Não há muitos autores que vão das canções para crianças aos versos sobre política, canções de amor ou sobre sexo, com os vizinhos ou com Joe Di Maggio, sobre as estrelas e até uma tema para Albert Einstein. Liberdade assim não é normal. E na altura, o artista sério tinha uma missão bem definida, muitas vezes estabelecidas por terceiros. O Woody não queria saber disso. E foi assim que conseguiu escrever mais de três mil canções. Ele dizia que a música era a melhor forma de explicar aos outros aquilo que nos vai na ideia.

E ele tinha muitas ideias.
Nem as pessoas imaginam o quanto.

É fã da música dele?
Quando era mais nova não. Queria ouvir rock’n’roll, a música do meu pai não era uma festa. À medida que fui crescendo fui também fazendo algo diferente: fui prestando atenção às palavras.

O Woody continua a ser associado a atitudes de intervenção, a um pensamento de esquerda. Ele era, como hoje o recordamos muitas vezes, uma pessoa política?
Completamente. Ele acreditava que todas as pessoas eram parte da nação. E que era essencial ser democrático. Para isso era preciso pensar na política. Todos temos que votar, participar. A ideia de que um artista não o fizesse era impossível para ele. As pessoas podem não gostar disso e não comprar os discos de um músico que canta sobre política. Mas o Woody decidiu que iria viver com isso. Ele nunca vendeu discos, de qualquer maneira. Antes do músico estava o cidadão, palavra de Woody Guthrie.

E a relação dele com a América?
Era uma coisa de amor-ódio. Ele era muito próximo da América, conhecia todas as faces do país, dos partidos aos viajantes dos caminhos de ferro. Mas como em qualquer relação profunda, há características da outra pessoa com as quais não concordamos. Era assim que ele funcionava, ao mesmo tempo que pensava: “Se há coisas más na pessoa ou no país que amo, quero transformá-las, em favor das coisas boas.” E isso está muito para lá de ser de esquerda ou de direita.

E o contrário, a forma como a América olha para Woody Guthrie?
Chegou a ser chamado pelo governo, várias vezes, para ajudar, para fazer passar mensagens. Quando ele achava que estavam em causa boas acções, colaborava. Quando acontecia o contrário, recusava-se e criticava. Ao mesmo tempo, chegou a escrever no seu diário que não queria nunca ocupar qualquer cargo político. Sobre isso dizia: “Não sou bom a fazer ditados.”

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