Julia Holter, a nossa nova melhor amiga

Julia Holter fez “Ekstasis”, disco editado já este ano, isolada nas suas próprias manias e vontades. É uma pop ambiental, que arrisca e experimenta, tão electrónica como carnal, num eixo pouco habitual mas sedutor, que vai de Joni Mitchell a Brian Eno e mais além. Para isso precisa de tempo e espaço, mas também se quer dar a quem a quiser. A autora da genial obra explica-se antes dos concertos, hoje em Guimarães (CCVF, 22h), amanhã em Lisboa (igreja de St. George, 22h30):

Em Lisboa vai tocar numa igreja. Vai ser a primeira vez?
Lembro-me vagamente de já ter tocado numa igreja… ou talvez não. Sim, provavelmente vai ser a primeira vez.

É o local indicado para a sua música?
Claro. O dramatismo da acústica das igrejas é muito divertido, algo com o qual podemos conseguir coisas muito interessantes. Mas um visitante habitual da igreja em questão pode não gostar, a minha música não é religiosa.

Ainda assim, tem algo de misterioso e talvez espiritual, não?
Sempre tive uma afinidade especial com a música sacra, porque permite mergulhar num universo que não é de compreensão e descrição imediatas. No canto medieval, na obra de Hildegard de Bingen, por exemplo, sempre houve mistérios, enigmas. E como eu gosto de pensar que cada tema que escrevo é um universo distinto, acho que podemos estabelecer essa ligação, sim.

E como é que tudo isso acontece ao vivo? Esses universos são reproduzíveis, uma e outra vez?
Apenas faço o que tenho de fazer, como me apetecer no momento.

Mas com regras.
Claro, isto não aparece por acaso. Depois do disco, passei meses [com Chris Votek no violoncelo e Corey Fogel na percussão] a fazer arranjos para levar ao palco. Tivemos de arranjar maneira de tocar isto ao vivo.

Se faz esse trabalho colectivo para os espectáculos, porque opta por compor e gravar sozinha?
Tenho-me perguntado isso mesmo. Tem a ver também com o sítio onde vivo, com Los Angeles. A cidade é muito grande e as pessoas vivem nos seus carros. Só nos vemos uns aos outros de vez em quando e isso cultiva o isolamento. Nos últimos tempos cheguei à conclusão que vou começar a fazer as coisas de outra forma. Preciso de mais companhia, talvez. Fazer novos amigos, acho que esta música é boa para isso. Mas ao mesmo tempo isso leva-me a ser mais curiosa quanto ao que pensam do que faço.

Com música assim é mais fácil imaginá-la à parte de quase tudo o que não seja o seu trabalho.
Mas preciso de ouvir os outros. Porque tudo isto é novo para mim. Acredito que há sempre espaço para a crítica construtiva e acho que deve haver sempre espaço para o jornalismo musical, sobretudo por causa do público, mas um artista deve sempre tentar ouvir as opiniões de alguém que lhe é próximo. Porque o contexto que rodeia a expressão artística é importante na sua compreensão.

E como reagiu quando encarou tanta crítica positiva?
Fiquei surpreendida. Por outro lado, trabalho nisto há muito tempo, sei que o meu trabalho está bem feito, não estava à espera que não gostassem.

Confiança acima de tudo, portanto.
Sim, como qualquer pessoa que tenha a música como objectivo de vida. Não tenho um método específico, é tudo sempre diferente, dependendo da música. Mas tenho devoção perante tudo isto. De repente parece que voltámos à questão da igreja, não é?

publicado no i
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