Entrevista: Josh T. Pearson

Um cowboy com a mania das grandezas – o homem é texano – e que de repente se viu moído até ao tutano após o fim de uma relação amorosa. Josh T. Pearson já tinha feito parte dos Lift to Experience, mas música assim, exorcizadora e autoterapêutica, nunca tinha assinado. Em Berlim, durante duas noites, gravou “Last of the Country Gentleman”. Folk cruzada com country, mas em baixíssima rotação, com as entranhas em cada verso, que deu em disco no ano passado. O homem vai estar sozinho em palco (em Lisboa e Famalicão, hoje e amanhã) para explicar tudo.

O que costuma acontecer nos seus concertos?
Homens crescidos choram.

Sempre?
Bom, depende. Mas a verdade é que costumo tocar as minhas canções, que são trovas sobre corações despedaçados. E pelo meio conto anedotas de mau gosto. Para quebrar a monotonia dos meus versos.

Mas são versos pessoais, nem por isso são monótonos.
Sim, mas como eu próprio tenho algum problema em cantá-los, preciso de me distrair de quando em vez.

Então porque é que os canta?
Porque me faz bem. E às pessoas que os ouvem também. Funcionam como terapia. Os românticos desgraçados não estão sozinhos.

Nunca esteve para cancelar um concerto porque numa determinada noite não estava para cantar sobre si para os outros?
Todas as noites penso nisso. Especialmente quando há muito público à minha frente. Por isso não costumo fazer festivais. Esta música não serve para te divertires ao sol. Por falar nisso, como é que está o tempo em Portugal?

Está bom. Diz que vai ficar mais calor no fim da semana.
Ainda bem. Chegamos aí na quinta à noite [ontem]. Ainda a tempo de ver o jogo de Portugal.

Gosta de futebol?
Não. Mas gosto de ver outras pessoas a divertirem-se.

Pode ir sempre bebendo qualquer coisa. Gosta de cerveja?
Já gostei. Já gostei muito. E já bebi tanta que agora não estou autorizado a beber mais. De qualquer forma, qual a temperatura que vai estar por aí?

Julgo que perto de 30 graus, centígrados, claro.
Estão 35 ou mais no Texas. Quando passamos muito tempo no Texas habituamo-nos a isso.

Nunca pensou em sair do Texas?
Já vivi uns anos em Londres, Paris e Berlim, mas acabei por regressar.

Texano e europeu, portanto.
Cinco anos em quase 40 não é muito.

É melhor que apenas umas semanas nos Estados Unidos…
Tens de sair mais, meu. Assim que cá estás é barato, o problema é só chegar. E conduzir é o melhor que podes fazer por aqui. Dois meses é uma boa experiência. E somos pessoas simpáticas. Temos apenas má reputação. Não somos todos cowboys.

E não estão sempre aos tiros.
Bom, no Texas gostamos muito de disparar. E em Los Angeles também. Cada um tem a sua maneira de resolver os problemas.

A sua é através de canções, certo? Já resolveu os problemas que o fizeram escrever este álbum?
Estou mais distante, sem dúvida. Acabei um período de quatro meses sem tocar nenhuma das canções e dei-me bem, acho que é uma conquista.

Férias? Estava cansado de tocar e compor?
De tocar em casa não, do resto sim. Tudo isto é muito mais romântico para quem nunca o fez. Tenho pensado até em arranjar uma banda, às vezes sinto-me sozinho. Por isso é que acabo por escrever sobre mulheres. Bom, na verdade é só sobre uma mulher em particular, mas bastou para todo um disco.

E chegou para que o público gostasse de todo esse mau amor.
Sim, e sei que ajudei algumas pessoas a ultrapassar maus bocados. Quando o editei pensei que só fosse agradar à crítica e que não vendesse nada. Mas resultou.

E não apenas na América.
Aliás, sobretudo na Europa.

Porque será?
Não faço digressões na América há dez anos, só toquei no Texas e uma ou outra vez em Nova Iorque.

É melhor resolver isso, há muita concorrência.
Sim, mas sou muito preguiçoso e custa–me sair de casa. Vivo numa aldeia com 250 pessoas, a poucas horas de Austin. E como só peguei na country e na folk quando era mais velho as pessoas não me associam a esse tipo de música há muito tempo.

Ou seja, nem sempre foi cowboy.
Não. Em miúdo era rebelde, queria era punk rock e Joy Division. Nenhum puto gosta de country sozinho, só se for ensinado desde pequenino.

E Joy Division é um pouco mais melancólico.
Sim. Isso ajuda-me a cumprir a minha missão: levar qualquer pessoa que veja o meu concerto a sair da sala enquanto pensa “ainda bem que a minha vida é melhor que a dele”.

Mas disse que agora está melhor dos seus desgostos. Se nunca mais lhe acontecer nada triste na vida, vai continuar a escrever canções?
Claro. Tenho quase 40 anos, toco guitarra há 25. Coleccionei muitas misérias pelo caminho.

publicado no i
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