Entrevista: Van Dyke Parks

Músico, compositor e autor, um dos nomes fundamentais dos últimos 50 anos da música americana, terá, a partir de segunda-feira, os seus três primeiros álbuns em nome próprio de regresso às lojas. Sensibilidade, elegância e bom gosto, numa pop barroca de raro apuro. Tudo isto surgiu do mesmo homem que mudou a obra dos The Byrds, Judy Collins, Tim Buckley, Ry Cooder, Joanna Newsom e, na mais popular das suas colaborações, Brian Wilson, dos Beach Boys, com quem escreveu “Smile”, entre 1966 e 1967. Ao telefone, começa por falar sobre o lado de cá da linha, só porque sim.

Estive em Portugal em 1957. Subi uma colina e dei de caras com uma estátua do Vasco da Gama. Desci uma outra colina e entrei num barco que me trouxe de volta a América. Era muito novo. Foi pouco tempo mas consegui apaixonar-me pela comida, pena que ainda não tinha descoberto o vinho. Há muito de Portugal que gostava de descobrir.

Que idade tinha na altura?
Aí uns 14. E, desde então, Portugal sempre me pareceu um país distante da comunidade europeia. Tem sido tratado assim, mas isso é uma bênção. A distância às vezes é uma coisa boa.

No seu caso, e no caso dos primeiros discos que gravou, também foi?
Ainda não sei muito bem. Tive de voltar a ouvir os discos, vou tocar alguns temas ao vivo e as orquestrações que existiam no papel arderam no incêndio da biblioteca do meu arquivista.

E o que lhe pareceu?
Perguntei-me: “No que é que estava a pensar, o que andava a tomar?” Consigo ver muito bem que todas estas gravações foram motivadas por questões pessoais, muito para lá da música e mais próximo das pessoas que me rodeavam. Está tudo muito preso ao seu tempo. Dou-lhe um exemplo: se vir as notícias logo pela manhã, consegue perceber porque é que o John Lennon escreveu sobre as notícias que leu num determinado dia [“A Day in the Life”, 1967]. Há razões para que as canções nasçam.

E que razões foram as suas?
Tantas. Em “Song Cycle” [1968] há referências há guerra e à mala que o meu pai trouxe da Normandia e da Holanda, mais a Luger de um general alemão. O disco foi editado durante a Guerra do Vietname e há motivos relacionados com os direitos civis e um mundo que não estava bem, a contra cultura, a Guerra Fria, a União Soviética… Sem os julgar pelas regras do rock, esse disco e os outros dois, “Discover America” [1972] e “Clang of the Yankee Reaper” [1975], são discos compreensíveis e de boa companhia. Ainda que agora possam parecer fora de tempo.

Os factos podem estar distantes no tempo mas as canções nem por isso.
Bom, trabalhei muito para fazer a coisa bonita, espero que isso seja mesmo verdade. Naquele tempo, havia muito dinheiro para gravar mas muita gente pagava apenas o básico, o menos possível, para depois alugar casas incríveis com vista sobre Hollywood, a mesma que os criou. Eu escolhi outro caminho. Peguei no dinheiro que me deram e gastei tudo em músicos. E isso é muita despesa.

Hoje provavelmente não conseguiria ter esse dinheiro.
E esse é o problema. Por todo o mundo, até na Alemanha, onde está todo o dinheiro, estão a cortar nas artes. Há multinacionais, uns gigantes intocáveis, que funcionam como um Big Brother, que não querem saber das artes. E as artes estão cá para iluminar. Quando eu era moreno, tive dinheiro de um patrono. Isso já não existe e a minha compaixão vai para os jovens músicos de hoje, que gostavam de ter uma sala com uma orquestra para ver acontecer magia. Desde sempre, quase desde a Idade Média, os nobres davam dinheiro aos músicos. Agora, ou lutam uns contra os outros ou trabalham sozinhos com um sintetizador. É como o jornalismo, também é controlado por grupos, é mesma coisa. E acabamos todos mudos, empobrecidos. Estamos numa era negra.

Não está nada optimista, portanto.
Não quero deprimir ninguém mas estou nos meus 70 anos e devo dizer a verdade. Nunca vi tempos tão complicados. Na América, menos de 50% das pessoas acredita no Darwinismo. Acham que o mundo foi feito em seis dias. O fundamentalismo religioso destruiu o raciocínio. E eu adoro Jesus, que virou as mesas no templo, tinha uma coragem de toureiro. Mas é preciso questionar a autoridade, fazer isso é fazer música.

Quando era novo ainda arriscou algumas experiências como actor. Se tivesse continuado talvez hoje tivesse outras preocupações.
É, mas isso da representação não ia a lado algum. E a verdade é que hoje preocupo-me com as mesmas coisas que me preocupavam quando era miúdo. É como os blues, os blues são os mesmos desde sempre. Ainda é preciso agitar e eu ainda quero fazer isso, entretendo ao mesmo tempo. Nunca iria dar para estrela. Agradeço ao meu criador por me proteger dos perigos da fama. E estou fora do macworld que os americanos criaram. Saiam lá para fora, conheçam. Estou mais interessado em Portugal do que alguma vez Portugal vai estar interessado em mim, mas isso não me aborrece.

Continua a viver na Califórnia?
Sim, perto de Los Angeles, numa zona de montanhas e floresta, um sítio lindo, não vejo casas, não vejo nada, só natureza. Não sou scenester nem hipster, não vou às festas nem aos eventos sociais.

Mas deixá-lo-iam entrar, se quisesse, não?
Sim, claro. Mas não quero saber, nem prémios aceito. Faço o que acho correcto mas nem sempre isso tem sido bom para minha família, em termos financeiros.

Mas não é um artista de sucesso?
Um artista não pode ter sucesso, não pode ter abrigo nem um universo seguro, tem de haver modéstia, humildade, questionamento, devemos ser veículo e não ser a luz de outros. O que não quer dizer que não queira vender discos. Sejam meus ou de artistas com quem colaboro.

Qual das modalidades prefere, a solo ou como colaborador, arranjador?
As duas coisas. Nunca vivi nada melhor do que nos tempos em que toquei com o Ry Cooder. Porque esse tipo de trabalhos deixa-te ser espontâneo, fazer coisas com as quais nunca sonhaste. Mas gosto também do exercício solitário. A única vantagem de fazer arranjos para outros é o anonimato. E isso é bom, é seguro. Quando temos algo com o nosso nome, a nossa vida e a da nossa família pode ruir em instantes por causa de um qualquer crítico cruel.

E entre os artistas com quem já trabalhou, tem melhores memórias de algum?
É impossível. Harry Nilsson não tem nada a ver com Skrillex. Ry Cooder é diferente de Randy Newman. Joanna Newsom não é comparável com Judy Collins. O meu objectivo sempre foi ser um macho beta. E consigo sê-lo sempre quando trabalho com outros. Gosto de trabalhar com novas gerações que são mais destemidas e imaginativas que eu alguma vez fui.

Brian Wilson, os Beach Boys e “Smile” acompanham-no como boa memória ou como fantasma?
Muitas pessoas pensam que isso foi mais importante para mim do que eu realmente considero. Trabalhei com o Brian durante 8 meses há mais de 40 anos. E conheci o resto da banda de raspão. O trabalho é intemporal mas a forma como penso nele não é. Falam no projecto falhado do “Smile”, num disco condenado, coisa dramática. Mas na verdade não tem nada de falhado. Foi um sucesso. Tratou-se de transformar crenças e questionamentos numa obra artística e está lá tudo. Fala-se muito das discussões, das drogas. Mas isso é trivial, muito para lá do que importa. Não ouço o “Smile” como não ouço nada do que fiz, tento antes procurar um novo fadista. E não estou a ser simpático, a diplomacia não é o meu forte. Não estou interessado no tal macworld, no primeiro mundo, que ocupa demasiado espaço e come demasiado.

(publicado no i)
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