Bruce, o todo-poderoso

Springsteen é o patrão como é o pastor da sua doutrina, apenas com fiéis na área e, ainda assim, a querer converter toda a gente mais uma vez. O gospel de New Jersey, “Born in the USA”, pois claro, com a América inspiradora e destemida no lugar de protagonista. Era o Rock in Rio, no último dia, mas foi o festival de um homem só mais os do seu bairro – que só um gangue de rua consegue fazer o que se viu: limpar tudo à frente e sair em ombros.

Duas horas e meia com uma fórmula perfeita. Sucessos, naturalmente, com “Because The Night”, “Born to Run”, “The River” ou a danceteria maravilha de “Dancing in the Dark”. Mas todo e cada um dos momentos ganhos à partida são construídos com a mesma entrega e esforço que o  primeiro dia de emprego pede. A E Street Band precisa de o fazer assim, obrigação mas das boas, sem preguiças – o que é isso? E, pelo caminho, conseguiu transformar o novo álbum, “Wrecking Ball”, num documento já familiar mesmo aos que pouca atenção lhe deram (alguém vai vender um par de discos a mais esta semana).

E depois, não no fim mas sempre no meio de tudo isto, o espectáculo. Entretenimento total, showbiz mas sem gorduras. Há discos pedidos na primeiras fila e Bruce, o amigo Bruce, oferece “She’s The One” ou “Hungry Heart”. Rock’n’roll de tipos duros e pele queimada mas com gosto em fazer vontades. À criança que sobe ao palco, para cantar uns versos e motivar invejas na Bela Vista; mais os contemplados em fazer o homem mexer as ancas sob os holofotes: dança, dança, Bruce – e ele dança. E os abraços, apertos de mão e cábulas em português, bem estudado, no tempo e no modo. Ali somos todos conhecidos, na verdade já somos amigos e nem demos pelo tempo passar.

Festa brava mas com texto e contexto, vindos os dois deste e de outros tempos e sempre com uma pertinência inescapável. Tramados pela vida sou eu e és tu, dizia o artista em cada rima, para logo depois pisar o outro prato da balança, o do contentamento. Porque Springsteen está permanentemente ébrio em atitude. Canta o sacrifício e a glória, os dois ao mesmo tempo. Não há um sem o outro e é dessa doutrina que saem momentos como o que vimos, ó privilegiados de nós. Este operariado rock trabalha por necessidade e essa dependência faz maravilhas: em havendo listas de concertos do ano, é guardar vaga.

(publicado em ionline.pt)
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2 respostas a Bruce, o todo-poderoso

  1. Liliana diz:

    É normal que o texto no iOnline seja igual a este?

  2. fake diz:

    óptima descrição.

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