The Walkmen: os melancólicos mais felizes do momento

Quase todas as fotos de promoção para “Heaven”, o novo álbum dos The Walkmen, são como a que vemos nesta página: os músicos, com ar engomado (penteados à parte) e uma criança. Vai rodando o infante em questão, sempre um dos filhos dos músicos. Gente crescida que grava discos, a fazer inveja aos que arrumaram as botas por causa da muda das fraldas e a surpreender os que não acreditam no envelhecimento do rock. É verdade que a banda domesticou alguns nervos, mas ao mesmo tempo fez a melhor selecção sobre o que tinham a dizer. Na essência, são os recém-adultos mais felizes do mundo e fizeram o melhor disco feliz-melancólico dos últimos tempos.

“Está tudo muito bem”, diz-nos Walter Martin, quase sempre entre as teclas e o baixo. “Como explicar isto? A dada altura percebemos que esta coisa de ter uma banda, fazer música, não é só isto que importa.” Nada curioso que esta “dada altura” apareça quando a banda comemora dez anos. Não é que seja muito, mas, diz-nos Walter, “também não é pouco”. Feitas as contas, chega para perceber umas quantas coisas: “Este aniversário deu para ganharmos consciência de que temos uma carreira, com discos gravados e todas essas maravilhas. E isso já é notável. Ao mesmo tempo, andar há dez anos nisto às vezes parece tempo a mais.”

Celebrar, com uns quantos concertos especiais, só aconteceu porque o manager da banda terá dito algo como “vá, façam lá isso, vai ser bom, vocês vão gostar”. Fazer fizeram, mas estavam mais preocupados com “Heaven”. Mudaram–se para Seattle, quase a 5 mil quilómetros de casa, que a distância aqui é boa companhia: “Foi bom porque não havia distracções nem tentações. Queres ir jantar a casa? Não vais. Queres ir beber um copo com os amigos? Azar. Foi mais ou menos isso.”

E sempre numa casa arrumada. “Heaven” não nasceu de revoltas urbanas em tempos de ansiedade sem fim à vista. Não é mais um rebento da linhagem “Everyone Who Pretended to Like Me Is Gone” – “You & Me”. É mais uma acção de graças que um grito contra tudo e todos. Daí que seja o mais polido de todos os álbuns da banda, sem que isso lhe roube em nada a mania de se atirar às feras em cada canção. É tudo uma questão de método. Walter explica-nos porquê: “Queríamos muito livrar-nos da grande confusão que é habitualmente a gravação de um disco novo. Apontámos para a clareza das coisas. Não queríamos interferências entre a melodias e as letras, queríamos tudo à mão, para toda a gente.”

E tudo isto porque havia umas explicações a dar: “No passado fomos distantes naquilo que comunicávamos nas canções. E ser vazio de sentido é coisa de adolescentes, que já não somos. Escrever sobre nada é um perigo, é uma facilidade no rock’n’roll. Não é que não goste de canções que dizem pouco, mas isso tem sempre um prazo de validade. Pôr esforço em algo para de facto não produzir nada não tem muito sentido.”

Por isso, em “Heaven” há menos acontecimentos simultâneos. São valsas de garagem, os Velvet Underground apaixonados e a ensaiar de dia, com alguma electricidade solta mas de curta voltagem. Não há o queixume ébrio de “Wake Up” (2002), a estalada de “The Rat” (2004) ou a voz no limite de “In the New Year” (2008). Mas há um conforto danado em ouvir este disco. “Mudar é bom, não?”, pergunta-nos Walter Martin como quem diz “ainda sou cool”. “Fizemos um desmame de nós próprios, acho que correu bem.”

“Heaven” é dos melhores “vai ficar tudo bem” que se pode escutar, ainda que também tenha rufias, como “arrependimento” ou “nostalgia”. Felizes sim, patetas alegres nunca.

(Os The Walkmen actuam no Optimus Primavera Sound no dia 8)

publicado no ‘i’
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