Laurel Halo: fora de órbita, para nosso bem

É um daqueles nomes usados e abusados pelos autores de listas ao estilo “isto vai dar que falar em 2012”. Faz parte do grupo de artistas que trabalham as electrónicas com as manias dos miúdos que vivem para a plasticina; o mesmo que tem dito que sim, que é sempre possível inventar mais qualquer coisa. E editou há poucos dias um álbum que vai coleccionando bênçãos que muitos outros gostariam de guardar. Com tamanho embalo, Laurel Halo está em Portugal para actuar na ZDB, em Lisboa (hoje) e no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, amanhã. E sobre o que lhe vai na ideia por estes dias: “Vocês portugueses são incríveis. E a vossa comida é a melhor.”

Sendo assim, Laurel é uma comum mortal, que faz música como um ser pouco terráqueo mas que por acaso também dá ouvidos ao que é pop. Ou, nas palavras da artista, “isto vai tudo da tua vontade, se o que queres é fazer canções podes fazê-las com qualquer recurso”.

Laurel Halo faz as tais das canções há pouco tempo: “Hmmm… há alguns anos. Devia saber uma data certa, não é… pois, não sei bem.” Mas aqui a experiência não manda muito. Antes de “Quarantine” ser revelado, coisa que ainda leva poucos dias de história, já o nome da artista mais a sua electrónica plástica era motivo de boa conversa. “Não prestei muita atenção a isso. A verdade é que é mais fácil falar do que fazer. E mesmo que não pareça este disco foi difícil de concluir.” Laurel explica tudo, claro: “Precisei de oito meses para gravar o álbum, passei por muitas fases distintas, entre conflitos de vontade e de sentimentos.”

Não diz muito mais, até porque acredita que na Europa é mais bem compreendida que nos EUA. Assim sendo, as explicações ficam-se pelo mínimo possível: “O público europeu tem uma relação com a electrónica que é muito mais interessante que aquela que os americanos alguma vez conseguiram estabelecer.” E a da artista em questão, apesar de americana – “sim, posso ser uma excepção”, admite – não vem de agora. Laurel vive em Brooklyn – só podia, pois –, mas nasceu no estado do Michigan, perto de Detroit. E só por isso fica explicada boa parte desta paixão binária: “O Midwest é o coração da música techno. Quando era adolescente descobri o techno nas discotecas de Detroit e em festivais como o DEMF [Detroit Electronic Music Festival]. E o house também foi uma grande inspiração para mim. Mas foi um ponto de partida.” Naturalmente, Laurel, até porque dançar ou eventos associados a tal actividade são a última coisa que a música de “Quarantine” sugere. “Esquecendo talvez todo o estímulo rítmico dessas música, foi com elas que percebi como é possível escolher sempre novas abordagens para trabalhar beats, samples, produzir sons que à primeira audição podem parecer indecifráveis”, esclarece. Como fez isso? Graças a uma lista de heróis que faz questão de enumerar: “Belleville Three, Carl Craig, Theo Parrish, Jeff Mills, Drexciya, J. Dilla, DJ Premier, Wolfgang Voigt, Tim Hecker, Autechre, Aphex Twin, Black Dice, Goldie, Surgeon, Basic Channel, Burial, Ricardo Villalobos, Black Dog, Fennesz.” Sim senhora.

“Quarantine” revê tudo isto – mais uma boa dose de minimalismo e ficção científica – para formar um conjunto de paisagens que não se ficam pelo universo dos sons que flutuam como por magia. As vozes desdobradas uma e outra vez mais os sintetizadores tratados com carinho e as gravações manipuladas com gosto resultam num embrulho de belíssimo efeito. Que ao vivo se transfigura, ganhando contornos de selvajaria digital: Em palco? “Instrumentais psicadélicos que podem castigar os menos preparados.” Perfeito.

Concerto de hoje na ZDB às 22h (10€), amanhã no CCVF às 00h (4€).

(publicado no i)
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