Joe McPhee: nem ele sabe quando ou onde vai parar

Um dos nomes maiores do free jazz está em Portugal para actuar na Culturgest, em Lisboa, hoje, e no festival Jazz ao Centro, em Coimbra, a partir de amanhã, com o Trespass Trio. Herói do improviso, militante das lutas sociais e políticas da América dos anos 60, Joe McPhee, de 72 anos, diz que, apesar das transformações desde então, o entusiasmo continua.

A motivação ainda é a mesma?
Muita coisa mudou desde os anos 60, nas relações humanas, na política e na economia, mas também há muita coisa que se mantém. A minha vontade talvez seja ainda maior, mais direccionada e intensa

Mas começou em tempos de revolução que agora não acontecem exactamente da mesma forma.
A revolução continua e vão acontecendo transformações a todo o momento. Com as mudanças tecnológicas, como a internet, as pessoas estão mais ligadas e são mais rápidas. Ao mesmo tempo, é mais difícil de esconder seja o que for. Nos EUA, quando comecei na música, a luta era pelos direitos civis iguais para brancos e pretos. Uma luta pela liberdade. A luta continua mas desta vez é global, pela dignidade de toda a gente, numa escala muito maior, sem querer saber de cor, género, religião, orientação sexual ou ideologia. É preciso não esquecer que a liberdade é um trabalho sempre em curso, é uma viagem e não um destino.

Talvez também por essa atitude, continua a congregar novos fãs?
Talvez, não digo que não, mas é tudo uma questão de honestidade e paixão, na música e no resto.

O rótulo de “músico free jazz” continua a fazer sentido?
Não sei bem o que “free jazz” significa, acho que nunca soube. Quer dizer que o músico em questão não é pago? Tenho sorte de ser músico, de fazer o que gosto. Se há uma forma de descrever a minha música, espero que seja algo como “música que me fez sentir algo”. O Max Roach é que costumava dizer “gosta ou odeia, mas não sejas indiferente”.

Vai tocar com o Trespass Trio. O que vos liga?
Bom, a ideia original foi do Pedro Costa [programador, Trem Azul, Clean Feed], que quis juntar-nos. E na verdade esta vai ser a primeira vez que vamos actuar como um grupo. Mas sei que temos muita música em comum.

Por estes dias, tem mais relação com o jazz americano ou com o europeu? Ou, na verdade, não há grande distinção?
Nasci americano, escolhi ser fã de jazz no geral, com muitos amigos e experiências vividas na Europa. É apenas isso.

Durante muitos anos, nos EUA, não teve o reconhecimento que merecia. Agora as coisas estão diferentes mas, ainda assim, tem noção da ligação que o público estabelece com a sua música?
Para surpresa de muitos, preocupo-me com isso e tenho consciência disso, sim. E mais do que isso, fico pasmado como muitos se preocupam não só em ouvir aquilo que faço mas também com os que se dão ao trabalho de viajar no tempo para descobrirem aquilo que fiz há 50 anos. E como tudo isso ainda faz sentido para tanta gente. Mas é apenas o jazz a desempenhar o seu papel de intemporalidade com a sociedade.

E ainda é uma música que quer fazer a diferença para lá dos palcos?
Claro que sim e é o que estamos a fazer. A Europa, tal como os EUA, está a passar por momento difíceis mas já vivemos muito pior e sobrevivemos. Isso inspira-me.

O concerto de hoje começa às 21h30, no pequeno auditório. Bilhetes a 5€.

(publicado no i)
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