Throes + The Shine: batido, não mexido

Rock’n’roll em formato banda-sonora-para-bombas-e-socos-nas-trombas no mesmo palco que a festa de kuduro mais suada dos últimos tempos não é acontecimento habitual. Como também não é fazer uma canção ao primeiro ensaio de um grupo recém-formado. Isto tudo pelos mesmos fora-da-lei que, semana e meia antes da primeira actuação ao vivo (no festival Milhões de Festa do ano passado), escreveram seis canções originais. E diz-nos Marco Castro, o homem das guitarras de mau feitio, que “isto aconteceu tudo por acaso”. Só podia, pensado com tempo não dava no imprevisível curto-circuito dançante que é “Rockuduro” – e, se o título do álbum de estreia dos Throes + The Shine não diz tudo, não somos nós que vamos fazer melhor.

Ainda assim, estão lá os nomes das canções para os esclarecimentos adicionais. “Makumba”, “Hoje é Festa”, “Quero Mexer”, “Tá Maluca”, “Dança Bué” e um disco que é requebranço constante ao som de um power duo guitarra+bateria indie quando em baixa rotação, punk sem vergonha alguma quando acelera. Tudo a partir de Vila Nova de Gaia, terra dos Throes (Marco mais Igor Domingues na bateria) e dos The Shine (os mestres de cerimónia mais esforçados do momento, André do Poster e Diron Romão). “Não é a região mais popular para o kuduro, claro que não.” Marco sabe da geografia que anda à volta de tudo isto, mas e então? “Pode parecer uma mistura arriscada mas também tem algo de óbvio.” A explicação, aqui: “São dois estilos de música que nascem da energia, do contágio rítmico, sempre tiveram tudo para funcionar.”

Eficácia urbana como é raro ver. A génese de “Rockuduro” está num concerto dos canadianos Fucked Up no Plano B, Porto, em Novembro de 2010. Marco diz-nos como e porquê: “Abrimos essa noite e na outra sala tocavam os The Shine. Eles viram o nosso concerto e no final vieram falar connosco.” Veio o costumeiro “e que tal fazermos algo juntos”, que desta vez não se ficou pela diplomacia. Um convite da Videoteca do site Bodyspace trouxe em anexo um “desafio de fazermos algo diferente”. Marco diz-nos que “juntar Throes com The Shine pareceu o mais óbvio, dentro do mais inesperado”.

Milhões de Festa depois, já com os singles “Se Tá Kuiar” e “Batida” no bolso e a passar por tudo o que é região online preocupada com “o que aí vem”, os Throes + The Shine eram, já no final do ano passado, um dos mais curiosos casos de “vamos ver no que isto vai dar”. “Sabemos desse burburinho”, claro que sabem, diz-nos Marco: “E também sabemos que parte dele pode estar associado à estranheza inicial de juntar rock com kuduro.” Mas também há trabalho de casa bem feito, com a apresentação da matéria certa na hora certa.

O mais provável para quem passe pelos concertos de hoje e amanhã, no Porto e em Lisboa, é ver Marco perdido de adrenalina no meio de uma actuação a caminho de evento incendiário – “dependemos muito do público, mas acho que temos tido sorte e cada concerto é uma farra” –, mas ele há momentos com menos distorção e mais pragmatismo. Graças também a esses, Marco sabe como o cruzamento de linguagens urbanas distintas é coisa de boas graças – com os Buraka Som Sistema como nome maior do universo em questão, claro está. E que também por isso poderão estar por surgir agradáveis surpresas: “Bem sabemos que rock e kuduro é coisa que pode chegar perto do mainstream.” Acrescentamos “ou até mesmo um hit de Verão”. “Porque não? Mas há por aqui uma cena descomplicada. Isto é rock’n’roll, há-de ser sempre. E os concertos de hoje são sempre mais importantes que tudo.”

Isso e o Porto e Luanda e quem mais houver ao barulho, que todos dançam bué, cantam eles: “Isto podia correr muito mal mas a verdade é corre muito bem.” Certíssimo.


Throes + The Shine hoje ao vivo no Plano B, no Porto, com os Glockenwise, às 23H (4€); amanhã tocam em Lisboa, no MusicBox, na primeira parte de Spoek Mathambo, às 00H (10€)

(publicado no i)
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