‘NME’: a gerar ídolos e a tramar outros desde 1952

Lá por trabalhar na redacção do “New Musical Express”, Pat Long não era jornalista da casa. Era, sim, um tipo com problemas em fazer fosse o que fosse que não estivesse relacionado com a música pop. Em não tendo trabalho urgente, era provável que estivesse no arquivo do dito NME, a consultar edições antigas só porque sim. “Na verdade, acho que era mais fã de quem escrevia os textos do que das banda em questão”, diz-nos. E se o homem sabe tanto da história de uma das mais influentes publicações pop, porque não escrever um livro a propósito dos 60 anos da mesma, que se assinalam este ano? Está feito e a capa é esta aqui ao lado.

Para fazer a coisa bem feita, Pat foi até 1952 e, orgulhoso, assume que leu “quase todos os números publicados até hoje” do NME. Pelo caminho, percebeu também que a relação entre o antes jornal e agora revista e os leitores não é bem a mesma de outros tempos: “Em meados dos anos 70, a altura de maior sucesso do jornal, o NME tinha um milhão de leitores por semana. Agora os seus responsáveis falam no mesmo número, dividido entre o papel e o online. Não sei se a ligação é a mesma”, confessa.

Mas esta dúvida nada tem a ver com o papel que o “New Musical Express” teve – “e tem”, diz Pat Long – na música pop, sobretudo na de fabrico britânico. “O jornal foi o meio, não a fonte, do rock’n’roll. Muitos músicos teriam vivido mais dificuldades se não fosse a ‘publicidade’ do NME. Bandas como os Blur afirmam, ainda hoje, que só não foram dispensadas pela editora porque o jornal continuou a escrever sobre eles, mesmo com as fracas vendas de discos do início da carreira do grupo.” E Pat Long arrisca mais: “Sem os jornalistas do NME tinha sido difícil que gente como Bob Marley ou os Clash se tivessem transformado nos mitos que são hoje.”

Ainda assim, também há quem tenha dado a volta à severa crítica dos que assinavam prosas nem sempre simpáticas. Pat recorda o episódio Nick Kent-Queen: Kent apelidou a banda de Freddie Mercury de “balde de mijo”. Não estamos errados ao afirmar que os Queen souberam dar a volta à questão.

A maior curiosidade de toda esta história está no seu início. No princípio a prioridade não estava nas canções nem na relação entre quem as escrevia ou interpretava e os que as ouviam. Na verdade, era tudo bem mais técnico: “O jornal começou como suporte para anúncios de venda e troca de instrumentos. Até que o dono, Maurice Kinn, percebeu que havia um público para algo mais, gente que comprava discos. Frank Sinatra e Count Basie eram os nomes mais famosos na altura, mas quando surgiu o rock’n’roll o NME era o único meio preparado para falar do assunto e chegar a muita gente. Aí sim, começou a vender bem.”

Sessenta anos de publicação deram números suficientes a Pat para escolher um herói no meio de tanta escrita pop. “Ian McDonald é o jornalista que mais admiro”, revela. “Conseguiu combinar na perfeição um conhecimento quase académico do assunto – ‘Revolution in the Head’, escrito por McDonald, é o livro seminal sobre os Beatles – com um sentido de humor imprevisível.”

Para outros, as mesmas décadas ofereceram um experiência entre a glória boémia e o calvário difícil de ultrapassar: “Muitos dos que trabalharam no NME, com quem falei para fazer este livro, tiveram esgotamentos, problemas com drogas e até mortes prematuras. Eram jovens, a escrever milhares de palavras por semana, enquanto gozavam da companhia de David Bowie, dos Rolling Stones ou dos Led Zeppelin. Fazer um jornal todas as semanas no meio de tanta loucura e na era pré-computadores não era fácil.” Imaginamos.

(publicado no i)
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