Entrevista: Paul Weller

Marcamos o número, ouvimos o sinal de chamada internacional e atende uma voz feminina. “Estou? Ah, sim, o Paul vem já, ele está só ali a acabar de ouvir um disco.” Por quem sois, pois com certeza. O homem foi líder dos The Jam, aventureiros do revivalismo mod entre o punk e a new wave; formou depois os Style Council, para poder brincar com a soul e o R&B à vontade, como antes não conseguia; para chegar a 1990 e arrancar com uma carreira a solo que, entre altos e baixos, chegou até hoje com contas generosas, especialmente as britânicas. E apesar das reviravoltas, Weller continua a acreditar que isto pode não ficar por aqui: “Desculpa, mate, não gosto de deixar discos a meio.”

Ainda compra discos e vai a concertos?
Aos concertos nem por isso, que com filhos é mais complicado e já não saio tanto à noite. Não sei se sabes mas tenho sete filhos, ele há coisas que já não posso fazer como fazia, estou a habituar-me a isso. E quanto mais aprendo menos sei: fui pai de gémeos há pouco tempo. Bom, mas quanto aos discos, tento comprar uma série deles pelo menos uma vez por semana.

Ou seja, continua a encontrar estímulo na música pop. Da mesma forma que encontrava quando começou?
A música ainda significa o mesmo para mim e não acredito que algum dia isso possa mudar. Mas o negócio, pá, o negócio não o consigo entender. Perdeu a espontaneidade. A partir de determinado nível, com algumas das editoras envolvidas, a única coisa que interessa é o dinheiro. Para mim não, já sou velho, estou aqui há muito tempo, tenho o caminho facilitado. Mas para os músicos novos é quase impossível experimentar aquilo que fiz com os The Jam, por exemplo: pegar numa carrinha e correr o país, para tocar nos palcos menos prováveis. E isso é das melhores coisas que uma banda pode experimentar. Quem quer ter um contrato discográfico hoje precisa de meio milhão de “gosto disto” no Facebook.

Mas a música pop, desde que a tratamos dessa forma, sempre foi um negócio, não?
Sim, mas havia gente a trabalhar nas editoras e nas promotoras que estavam de facto relacionadas com a música, que percebiam de música. Ainda há algumas, mas poucas, muito menos nas grandes editoras. O que nos vale é que quando vemos uma banda ou um músico realmente bons, percebemos que o essencial ainda existe. Talvez seja mais difícil de encontrar, é isso.

Estúdio ou concerto?
São muito diferentes, gosto de fazer as duas coisas, espero que não tenha de escolher um dia. Mas se não fosse o estúdio não descobria o que tenho descoberto. Para este disco, por exemplo, senti-me como uma criança a brincar com sintetizadores.

Não é o fã mais óbvio de música electrónica.
Pois não mas comecei a investigar há uns três ou quatro anos e percebi que havia por ali alguma coisa que deveria explorar. Sempre fui um tipo de guitarras e vou continuar a ser. Mas agora tenho uma disponibilidade diferente para ouvir outras coisas. Quando estava com os The Jam, e mesmo com os Style Council, a prioridade era outra. Fazer canções era mais importante do que ir à descoberta.

E o que descobriu na música electrónica?
Coisas dos anos 30 e 40, primeiras experiências e primeiras gravações. Interessam-me as possibilidades que a música electrónica oferece e as texturas que permite trabalhar. É uma mentalidade sem preconceitos. Há sempre algo mais para fazer, há sempre gente a inventar, provavelmente não há tempo de vida suficiente para escutar tudo.

Além da electrónica, há alguma coisa que por estes dias o surpreenda?
Sim, mas talvez porque não entendo muito daquilo que ouço. Há música que hoje me surpreende por não conseguir assimilar de imediato, não me peçam para o descrever que não consigo.

É uma coisa de gerações?
Queres perguntar-me se não entendo porque estou a ficar velho?

Algo assim.
É o mais provável. Mas isso não impede que goste de coisas novas, que as transforme em algo pessoal. Gosto de muito mais coisas agora do que quando era novo. Cada um ouve música à sua maneira. Ainda hoje me perguntam se os The Jam eram punk ou não.

E faziam?
Achas que vou responder? Cada um que decida, a mim não me faz grande diferença. Se fores mesmo fã de música não há fronteiras, é o que ouves e mais nada. Se ser punk na altura é a tal atitude do-it- – yourself, com o mínimo de recursos possível, claro que era punk. Mas se o punk terminou em 77, nós éramos new wave. Será que isso interessa mesmo?

É uma questão de rótulos.
Sim, claro que é. Mas não é que agora ouça tudo e goste de tudo, não tive uma epifania e esqueci as separações entre as músicas. Sou gajo para comprar cinco ou dez discos por semana mas há uns quantos que acabam no lixo.

Mal-empregados, não? Com sete filhos, podia ir fazendo um arquivo para eles.
Sabes, há coisas que nem eles quando se portam mal deveriam ser forçados a ouvir, sobretudo coisas inglesas.

A pop inglesa não está de boa saúde?
A Inglaterra está parada. Estou à espera que a próxima revolução musical aconteça. Não acontece nada de extraordinário há muito tempo e acho que estamos a precisar disso. Por exemplo, falta música de guitarras como deve ser. Há boas bandas, há música interessante mas não existe nenhum movimento e é preciso que aconteça alguma coisa.

Qual foi a última grande revolução?
Não sei se foi uma revolução, não diria tanto, mas a última grande banda inglesa que fez a diferença foram os Libertines. Só fizeram dois discos mas havia ali alguma coisa de especial. A atitude, a relação com o público, as letras… Mas os Arctic Monkeys, por exemplo, gosto muito deles, sobretudo dos primeiros discos. Mas nos tempos mais recentes não houve assim nada que me tirasse do sério. Na América as coisas têm estado mais interessantes. Não sei o que se passa em Inglaterra, está tudo muito seguro. Mas talvez esteja algo para acontecer. Consegui que o Graham Coxon [Blur] e o Noel Gallagher [ex-Oasis] trabalhassem no mesmo disco [em canções diferentes, ainda assim]. Se isso não é incrível, diz-me lá o que é. E pode ser um sinal de que algo está para acontecer. Mas por favor, não me perguntes se os mods ou a britpop vão voltar, as conversas acabam sempre aí e eu não sei responder.

Ainda vive em Londres?
Sim, na parte ocidental. Vivi no campo durante uns anos, nos 90s, e gosto muito de sair da cidade de vez em quando. Mas viver no campo? Nunca mais, fiquei quase maluco. Faz-me falta o nervoso da cidade para me fazer trabalhar.

Mas podia dar uma de preguiçoso. Provavelmente não precisa do dinheiro, já é famoso que chegue.
Pensei nisso há poucos meses, na verdade. Mas a ideia passou-me. Fiquei naquela “se calhar é melhor abrandar, fazer as coisas com mais calma, dar mais atenção à família”, esse tipo de clichés saudáveis. Uma semana depois estava em estúdio com o Miles Kane [The Rascals] a gravar umas demos e esqueci-me completamente dessa história de deixar a música ou abrandar. Onde é que eu estava com a cabeça? Não sei fazer mais nada portanto seria tramado tentar outra coisa. É que isto não é apenas uma profissão. Sou um tipo com sorte mas não posso deixar que isto acabe, caso contrário…

Mas, e sobretudo em Inglaterra, as pessoas gostam muito de si. Se fizesse um mau disco, os ingleses provavelmente iriam adorá-lo na mesma.
Não digo que não haja alguma verdade nisso mas os fãs também podem ser tramados. Ando nisto vai para 40 anos. Já fiz discos incríveis, discos de merda e alguns assim-assim. A verdade é que a minha história não importa. As pessoas vão sempre à procura da coisa mais recente, do último disco. E, não querendo ser mórbido, não vou para mais novo.

(publicado no i)
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