Black Bombaim: três rufias contra o mundo

Poucas vezes os nomes dos álbuns vestem as medidas da música que lhes diz respeito como aqui. Tudo em “Titans” é grande: a distorção; a mania da bateria e do baixo em mandar no ritmo sem pieguices; e o tamanho dos temas – o petiz, no meio de tudo isto, é o lado D do duplo vinil (que isto a cada lado corresponde uma composição, coisa de gente crescida), com pouco mais de 10 minutos, o coitado. Não é novidade, os Black Bombaim vêm compondo e gravando rock de gigantes desde 2009, num covil qualquer com morada em Barcelos. Chegam à terceira edição e é isto: uma maratona do mesmo mas mais corpulento, com mais convidados e a fazer ainda mais quilómetros. O disco está hoje e amanhã em palco, no Porto (Passos Manuel) e em Lisboa (ZDB): “Se temos temas de 20 minutos, a nossa tendência é juntar tudo e fazer um concerto de 50 minutos, uma hora, sem pausas, tudo de seguida.” Palavra de Tojó, o baixista. Fica o aviso, mas dos bons, que isto é coisa rara.

Toda esta atitude é explicável numa frase: “Como nunca tivemos um vocalista para nos mandar parar e que nos pedisse um refrão, sempre fomos em frente.” Os Black Bombaim começaram como qualquer outra banda, o amigo do amigo e mais um terceiro amigo, com a tara do rock’n’roll e dos heróis de poucas palavras, a querer “aprender a tocar os instrumentos” e, ainda assim, “à procura de um vocalista, claro, ainda pensámos em fazer canções”. Mas não havia voz para o saudável caos que agora deu em “Titans”, um delírio que vai de Jimi Hendrix vitaminado a Black Sabbath psicadélico, com o stoner rock e a desordem punk pelo caminho. “Gostamos deste resultado, há muitos outros que gostam e se tivéssemos um vocalista, agora, nunca nos iríamos entender. Numa canção não cabe tudo o que queremos fazer”, diz-nos Tojó.

Porreiro. É continuar a levantar paralelo e com gente especial pelo caminho. “Titans” tem uma lista de participações extracurriculares que é um mimo (algumas delas vão estar em palco hoje e amanhã). Adolfo Luxúria Canibal, Noel V. Harmonson (Comets on Fire), Steve Mackay (Roxy Music), Shela (PAUS, Riding Pânico, If Lucy Fell), Jorge Coelho, Isaiah Mitchell (Earthless)… e continua, sem ninguém a mais. Foram “conhecendo toda esta gente” entre concertos e através de “amigos de uns e de outros”. Surgiram as propostas, quase sempre seguindo o mesmo modelo. “Queremos que participes. Vê se gostas. Se curtires, faz qualquer coisa para juntar a isto”, recorda Tojó: “Nunca demos instruções a ninguém e tudo encaixou à primeira”.

Um deixa andar de fazer inveja porque resulta. Ou, nas palavras do Black Bombaim que nos fala, “como os Led Zeppelin, que tocavam o ‘Dazed and Confused’ durante 25 minutos”. Gozo exclusivo dos artistas ou dá para partilhar isto com o público? “Claro que dá. Isto é uma coisa sem merdas, não há paragens, ninguém manda mensagens nem há palmas nem o ‘este toca aquilo’ e tal. O público gosta de levar esse estalo. Pelo menos dizem-nos isso. E gostam que os amarremos logo ao início, para só os largarmos no fim do concerto.”

Nestes dias em que a política “uma canção para mandar em todas as outras do mesmo álbum” é quem mais ordena, um mergulho de cabeça com quatro temas de longo curso é obra. A explicação de Tojó começa com um esclarecido “é complicado”. E continua: “Sabemos que não vamos ter airplay na rádio. E os que ouvirem isto num leitor de MP3 é porque gostam muito, caso contrário carregam no skip. Mas a verdade é que fazemos esta música para ser ouvida com tempo, em vinil, ou então para levarem com tudo ao vivo.” Sem nunca se perderem, essa é uma certeza: “Sabemos bem para onde vamos em cada tema, que isto não é só improviso. Não sabemos é quando vamos lá chegar.”

(publicado no i)
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