The Magnetic Fields: Obrigatórios. Mesmo que eles digam que não

Stephin Merritt não quer falar connosco. Se nem sequer está numa de dar concertos, porque é que havia de querer dar entrevistas? “Não sou gajo de palcos. Para já, tenho alguns problemas com som muito alto, os meus ouvidos não são bons. E depois é desconfortável, é isso.” Merritt é mais estúdio, a tocar todos os instrumentos, quase sempre a cantar e a produzir. Na verdade, é mais casa, quieto, quase sempre calado, com palavras bem medidas e só quando são necessárias. “Música, sim, a qualquer hora. Mas viajar de um lado para o outro para a tocar? É complicado.”

Então porquê estes concertos, Stephin? Em Portugal são dois, no Porto (hoje) e em Lisboa (amanhã, há muito esgotado). “Tem de ser, sabes, tem de ser, é impossível sobreviver apenas com os discos.” Dizemos-lhe que ainda bem, que mesmo que ele não goste, ter a música dos Magnetic Fields num palco é um privilégio. “Eu sei, disso não tenho dúvidas”, diz-nos.

A banda de Merritt anda pela Europa a apresentar “Love at the Bottom of the Sea”, o álbum editado a 5 de Março. “É um disco tranquilo, não é?” É pois, mas daí não vem grande novidade, certo? “Não vem, mas acho que este disco é mais sereno, sem sobressaltos.” Diz-nos o músico que tempos houve em que a sua história – e a das canções que escreveu – se fazia “mais de nervos e ansiedades”. Para este regresso houve, em vez de problemas que habitualmente dão em inspiração, curiosidades. Entre as maiores esteve o regresso aos sintetizadores, ou, como diz Stephin, “já viste bem o que podemos fazer e ao mesmo tempo deixar de fazer graças a uns botões e a uns circuitos metidos numa caixa de plástico?” E um outro desafio que acompanha o compositor há uns anos: “Bem sei que toda a gente espera que faça um novo ‘69 Love Songs’ (álbum triplo editado em 1999), mas continuo a mostrar que isso nunca vai acontecer. Sei que há gente que não desiste, mas não posso fazer nada quanto a isso.”

O que o homem pode fazer é escrever canções como se isso não fosse a coisa mais importante do mundo, porque, vá-se lá saber como e porquê, “não é”: “Só o é se isso for a solução para um problema.” Antes que lhe perguntemos se é esse o seu caso, avança mais pormenores da tal receita para curar maleitas várias: “O importante é escrever canções que não nos ocupem demasiado tempo. Têm de ser curtas e dizer o que é preciso.”

Basta verificar o cronómetro que regulou as composições de “Love at the Bottom of the Sea” (recuando ainda mais no tempo dos Magnetic Fields haverá ainda mais exemplos). Não há um tema que chegue aos três minutos. “Gosto de canções pop. Não me fica bem, não é? Se calhar não fica, devia gostar de outras coisas… e gosto. Mas na verdade isso interessa para alguma coisa?”

Nada, nem um bocadinho. Importante mesmo é ver como tudo isto chega ao palco e de lá se atira aos que estão na sala. “Não esperes nada de excitante”, é a frase que o artista usa para apresentar a sua própria performance. “Não há fogo-de-artifício nem bailarinos. Não acontece muita coisa. Vá, a música é boa.” Stephin Merritt sabe que não precisa de fazer grande alarido para dizer ao mundo que a pop indie que vão compondo há décadas é das coisas mais elegantes que a música alternativa poderia alguma vez vestir. Mas também não faz esforço nenhum para convencer eventuais desalinhados que encontre pelo caminho e que nem sequer alguma vez lhe ouviram o nome. Deprimido? Sim, mas sempre cínico, para ele e para os outros. E isso vale para tudo o que faça, das canções de desamor à sua habilidade/vontade para as publicitar aos outros. “Sabes, tenho outra entrevista agora a seguir. Podemos ficar por aqui?” Podemos pois.

(publicado no i)
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