José Afonso: na volta do andarilho

Arnaldo Trindade, o homem dos electrodomésticos feito revolucionário da música popular portuguesa, percebeu que José Afonso era nome para receber mais do que pão e vinho ou curtas demasias de outros negócios como paga do seu serviço de cantador. Vai daí, disse- -lhe algo como “gravas um disco por ano e tens o teu certo”. Claro que sim, para bem dos dois e para nossa graça. Em 1968, um ano depois do contrato assinado, surgia “Cantares do Andarilho”, e em 69 “Contos Velhos Rumos Novos”. Tudo a tempo e no tempo certo. Regressam em 2012, com a mesma pontaria, não há como falhar.

Já nos dizia Pedro Passos, quando há um ano relançava o selo da Orfeu: “Não faz sentido recuperar esta editora e lançar apenas um disco”. Nem que não existisse criatividade com a marca do século XXI – que a há, de sobra, e esta gente tem–lhe dado espaço do bom – haveria sempre uma outra maravilha chamada “arquivo”. “Cantares do Andarilho” e “Contos Velhos Rumos Novos” são os primeiros, pois, que este regresso a José Afonso faz–se necessariamente cronológico, que também poderia chamar-se autobiográfico.

É desta que os discos de José Afonso (os que foram editados entre 68 e 81, pela Orfeu) não escapam, não podem escapar. Ele há as razões técnicas – entre aspas escreve-se “remasterização digital em 24 bits a partir dos masters originais”, que é como quem fala em qualidade sonora de referência. Mas também há as capas que não servem apenas para decorar discografias domésticas de bom gosto mas que pedem para ser mostradas às visitas – “a sério? Esse disco é notável. Onde é que compraste?” – e os textos de quem sabe, de convidados que desfiam história e elogios, sobre o homem e a obra e a epifania que é escutar as duas realidades juntas, na forma de canções. Com os detalhes que queríamos saber mais os outros que nunca nos lembrámos de perguntar.

E há o essencial, pois, nas canções que mais ninguém fez. Como o próprio já assinava, antes de 68 (que o artista gravou os primeiros singles ainda na década de 50), mas agora, como nunca antes, longe do antigo “Dr. José Afonso”, a virar herege face à Canção de Coimbra, a tirar–lhe a guitarra portuguesa para contar todas as suas histórias apenas à viola (com Rui Pato a ser companhia decisiva, a partir daqui e em diante). E que iam da “Balada do Sino” à marcha de “diabo na mão” em “Chamaram-me Cigano”.

O artista vinha de Moçambique, com as memórias do bom e do difícil que por lá viu; com a vida de professor sem grandes certezas; mais a música que lhe dava a volta às ideias e que o levou a juntar tudo o que pôde em “Contos Velhos Rumos Novos”. A capa negra já a tinha despido e a essa emancipação juntou a visão do que lhe era mais interior, em Portugal e em África – com as músicas das Beiras, a Baixa de cá e a que estava de frente para o Índico onde viveu do outro lado do mar. Marimbas e trompa e bombos e cavaquinho. E as gentes que fizeram a diferença, do trabalho de Michel Giacometti à companhia de Francisco Fanhais. Em jeito de festa, sim, mas com o presente (em ano de crise académica, a ameaçar outras revoltas) e o futuro incerto na ponta das rimas disfarçadas.

O melhor de tudo é que isto era apenas o início. E mais de 40 anos depois, começa outra vez.

(publicado no i)
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