Nate Wooley: RED Trio + 1 é conta mais que certa

Nate Wooley colecciona elogios há uns anos. Saiu-se bem ao deixar o subúrbio do Noroeste madeireiro americano para rumar a Nova Iorque. Se era o jazz que lhe moía as vontades, pois que nada melhor havia a fazer. Desde então alcançou bonitos estatutos, como “um dos nomes maiores da nova música improvisada americana”. Daí que brincar às coisas sérias não lhe fique mal nem pareça pecado. É o que vai fazendo com o português RED Trio. O artista explica- -se: “O que faço com o RED não consigo fazer com mais ninguém. Com eles consigo lidar ao mesmo tempo com todas as músicas que fazem parte da minha inspiração, jazz, experimental e noise.” Mimo artístico para quem pode e privilégio, para os músicos e para os que vão estar hoje no Maria Matos.

Voltamos atrás, ao “com eles consigo…”. Eles são o RED Trio, referência do improviso em Portugal. Ou, diz-nos Wooley, “um daqueles grupos feitos de vozes musicais completamente distintas”. Melhor deixar que o inverosímil quarto membro deste grupo de três se encarregue dos elogios. “O Rodrigo [Pinheiro, piano] vem de um daqueles sítios em que tudo é densidade; já o Hernâni [Faustino, contrabaixo] é muito poderoso mas também atento, faz apenas aquilo que acha necessário; o Gabriel [Ferrandini, bateria e percussão] é uma explosão de som.” Tudo isto resulta – e não é pouco – porque “eles encontraram uma forma de serem eles próprios e um grupo poderoso ao mesmo tempo”. Apesar de previsível, a frase vem de quem sabe o que diz.

Antes da colaboração havia a admiração mútua. Uns a ouvir os outros, a gostar e a pensar “esta gente é qualquer coisa”. Do primeiro encontro ao romance em estúdio não foi quase nada. “O RED esteve em Nova Iorque durante o US Clean Feed Festival. Escreveram-me a perguntar se estaria interessado em juntar-me a eles em palco. Já tinha ouvido o primeiro disco deles e… claro que queria.” Depois, como em qualquer relação à distância, vieram as promessas. “Quando nos encontrarmos de novo vamos para estúdio”, pensaram os quatro. Consumaram o acto em Lisboa e geraram uma maravilha de disco, “Stem”.

A obra vai estar em palco hoje à noite mas nem por isso haverá serão de menu fixo. “Nunca temos um plano”, diz-nos Wooley. “Como poderíamos tê-lo? Com gente tão inesperada como esta o melhor é estar pronto para tudo. Isso implica um nervo suplementar, mas nem por isso mau.” Claro que não. É como o disco tenta explicar: este improviso quer chegar a todo o lado sem nunca querer chegar a lado algum. O gozo está no caminho, até para quem ouve.

Nos entretantos, Nate Wooley vai cumprindo tarefas paralelas. Uma delas é descobrir que na verdade não há limites para os seus desvarios instrumentais – “não quero mudar a percepção que as pessoas têm do trompete, mas sempre tive necessidade de exteriorizar exactamente aquilo que me passa pela cabeça”, afirma, para explicar que não há fim à vista para o seu arrojo sonoro. A outra é Nate enamorado pelos corajosos que experimentam sem regras em Portugal: “Sou um grande fã do Sei Miguel e de Fala Miriam. Foi o Joe Morris que mos apresentou. Já toquei com a Margarida Garcia, em Nova Iorque, e adoro a sua música. Ouço muito Rafael Toral, Manuel Mota, Rodrigo Amado… Também já toquei com o João Lobo, na Bélgica. Estou a esquecer-me de muita gente…” Sem problema. O essencial é isto: “Portugal tem um papel muito importante na minha vida musical.” Bem dito.

(publicado no i)
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