Norberto & João Lobo, improviso e surpresa ilimitada

O Teatro Maria Matos chegou-se à frente e fez um pedido pouco ortodoxo a Norberto Lobo, algo como “que tal um concerto especial, à parte da apresentação habitual em palco?”. Mas o que o músico tem feito já está nesse patamar. Foi ele o responsável por “Fala Mansa”, um dos álbuns essenciais da música de 2011, uma viagem instrumental à guitarra que, tanto em disco como em palco, nunca é apenas um espectáculo de virtuosismo. Mas tudo bem, que seja especial. Norberto Lobo resolveu a questão: “Se era especial que queriam, nada seria mais especial que tocar com o João”, diz-nos. É o que é, dois Lobos em palco, prontos para nos trocarem as voltas, primeiro hoje à noite, no Maria Matos, depois no sábado em Guimarães, no Centro Cultural Vila Flor.

João e Norberto vêm criativamente lado a lado desde a adolescência bem musicada e com os Norman ou os Munchen pelo meio. E mesmo depois do inevitável “um para cada lado” – o primeiro para Bruxelas, o segundo por Lisboa, entre os Tigrala e uma empolgante carreira a solo – a mania de criar a dois deixou-se ficar. Daí que tudo o que está a acontecer seja normal. João explica-se: “Começámos a tocar em duo há cerca de dois anos. Esta oportunidade consolidou tudo, fomos para estúdio e agora vamos para o palco.”

Primeiro como dupla – “logo aos primeiros ensaios percebemos que o podíamos fazer com essa simplicidade”, recorda João –, para mais tarde ponderar colaborações com outros músicos. Nos dois casos, a mesma ideia, avança Norberto: “Procurávamos uma sonoridade não tanto de temas mas de atmosfera. Queríamos juntar um pouco o universo da canção com uma coisa mais livre, no meio termo, com improviso pelo meio. Já tinha alguns temas, ele tinha outros, mas a maior parte nasceu de improvisos ao longo do último ano.” Os recursos são guitarras de todos os feitios, eléctricas, acústicas, de seis e 12 cordas, mais a bateria de João Lobo e, sempre que a dupla entender, teclas. Mas também haverá vozes, “as nossas, aqui e ali”, esclarece Norberto, além de “duas convidadas muito especiais”.

“Mogul de Jade” é o disco que vai permitir guardar todo este nervoso miudinho em casa. Lá para Março, entenda- -se, que estes concertos servem de road test do que está para vir: “Eu e o João [e assim já sabemos quem aqui fala] não queríamos lançar o álbum antes destes concertos porque o disco não está completo. E o que acontece entre o palco e o público pode influenciar muito o que ainda está por fazer.”

Eles que andam juntos nisto há muito tempo que se entendam. Só assim esta “música aberta”, como nos diz João, poderia funcionar. “Estamos os dois de acordo em não concordar com estilos e gavetas. Há temas predefinidos, mas também há vontade de alargar e esticar onde calhar.” Ou, como diz o outro (Lobo), “fazemos um alinhamento mas temos o cuidado de deixar espaços para nos surpreendermos a nós próprios”.

Venha de lá esse “entendimento especial”, “instintivo”, como os próprios o descrevem, para estas duas noites a caminho de um disco. E para Norberto não são as glórias de um perfeito “Fala Mansa” que lhe esgotam a “febre danada” de compor e tocar.

(publicado no i)
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