Entrevista: Black Keys

Black Keys, a melhor contratação para os festivais de Verão que ainda não foi feita (pedimos desculpa se, quando ler este texto, a banda já estiver confirmada para um palco português, ontem ainda não estava); o duo americano que brinca com os blues como se o material fosse plástico e adaptável a qualquer experiência de garagem – e safam-se porque mais a sério que isto é difícil; a banda resistente à epidemia que dizimou alguns dos ditos “revivalistas rock’n’roll” do início do século (estrearam-se em 2002 com “The Big Come Up”); ou apenas os tipos que escreveram “Lonely Boy”, a canção cujo vídeo mostra um dançarino doméstico com mais pinta que muito viciado nas coisas nocturnas. Editaram no final de 2011 o sétimo álbum, “El Camino”. O vocalista e guitarrista, Dan Auerbach, aceitou responder a algumas questões durante um telefonema de curta-duração. A primeira era mais que óbvia.

Porque é que ainda não actuaram em Portugal?

Bom, talvez porque nunca ninguém nos quis pagar para irmos aí, talvez isso.

Mas são assim tão caros?

Acho que não, acredito que muitas bandas sejam bem mais caras que nós. Somos só dois. Na verdade, acredito que já nos tenham feito propostas mas, por uma razão ou por outra, nunca aconteceu. Isto de contratar uma banda e de organizar digressões tem muito que se lhe diga, não é tão fácil como parece.

De qualquer forma, ainda não é desta que vai anunciar “não se preocupem, é este ano que vamos aí”.

Experimenta escrever algo como “os Black Keys vão fazer uma digressão de um mês por Portugal”.

Talvez seja melhor não escrever isso, provavelmente ninguém vai acreditar e em Portugal há muitos fãs dos Black Keys. Mas deve ser algo recorrente por estes dias, não? Vocês estão na moda.

Sim, um pouco, mas não há uma excitação generalizada como acontece com as estrelas rock’n’roll. Até porque não sou nada disso. Sou apenas um músico. Ou melhor, somos uns “budding rockstars”, havemos de o conseguir quando formos grandes. Fazemos música, é só isso. Mas reconhecemos que algumas coisas estão diferentes.

Como por exemplo.

Coisas pequenas, às vezes nem te apercebes. Sabemos que há mais atenção sobre o que fazemos e até sobre aquilo que dizemos, mesmo que não tenha qualquer tipo de interesse. Mas isso faz parte, não me queixo. Até porque há mudanças que são simplesmente internas.

Fazem parte da evolução da banda.

Exacto. Isto de ter um grupo de rock não é como ter uma moldura num móvel ou uma estante com livros. As coisas alteram-se mesmo contra a tua vontade, fogem do teu controlo. Isto é um bicho que respira, que tem uma vida própria. Com cada ano que passa aparecem novas formas de pensar a música que fazemos. E também por isso que continuamos a fazer o que fazemos. Porque mantemos tudo isto interessante.

Mas alguma vez pensaram que os Black Keys poderiam não ter futuro?

Não, curiosamente não. Sempre me diverti a fazer música com o Pat [Carney, baterista]. Claro que já tivemos períodos menos bons, numa de casal desavindo, mas nunca pensei que parássemos de tocar. Somos só dois. Qualquer um acaba por se chatear com o outro se passar 24 horas com ele durante muito tempo. Até com a mãe.

Estão então comprometidos a fazer isto durante muito tempo. “Para sempre” é de mais, não?

Para sempre, sim. O que fazemos é intemporal, esta música não tem data, isto não tem prazo de validade. Este estilo musical não tem raízes na cultura popular. Não é uma moda, não é um vício daqueles que se consome rápido e do qual, daqui a um par de anos, ninguém mais vai ouvir falar. Não vive de truques, não se faz de teatro nem de múltiplas personalidades. Vestimo-nos como gente normal e comportamo-nos como gente normal, nem mais nem menos. Tocamos e cantamos, só, nada mais que isso, e esse tipo de tarefa está feita para durar para sempre.

Mas a História explica que muitos que fizeram coisas menos normais em palco tornaram-se famosos e influentes.

Não digo que não. Mas se confiarmos de mais em teatralidade, fogo-de-artifício e guarda-roupa fora do habitual, aí a vida vai ser sempre curta. O tipo de trabalho que fazemos e a forma como nos apresentamos… Porra, eu já me visto como um velho, portanto, acho que estou pronto para envelhecer a fazer isto.

Velho se calhar é exagero…

Não é não. Já vi fotos do meu avô e acho que tenho andado muito parecido com ele. Mas gosto da forma como os velhos se vestem. Para nós é bom, talvez algumas pessoas nos vejam como gente responsável, figuras paternais?

Quando era mais novo, muito antes dos Black Keys, não seguia a cultura pop?

Claro que sim, com as rádios mais comerciais e a MTV e tudo isso. Quando tinha 14 anos, lembro-me que o hip hop era aquilo que me cativava mais a atenção. Lembro-me de ouvir muito os BBD [Bell Biv DeVoe, grupo de Boston que alcançou relativo sucesso em 1990 com o single “Poison”], esse tipo de coisas que misturava muito o hip hop com o R&B. Mas também me lembro de gostar de INXS, quando era puto. Havia qualquer coisa nas canções deles que as tornavam viciantes. E tudo isso, deixa-me que te diga, era muito pop.

O que aconteceu entretanto?

Sempre ouvi blues e bluegrass. Talvez no início não o tenha feito totalmente por vontade própria, claro, porque era a música que a minha família ouvia e tocava. E quando comecei a tocar guitarra queria era tocar com eles, quando eles o faziam. Comecei a aprender blues, queria saber tudo sobre aquilo, como fazer o som certo. A partir daí aconteceu comigo o que aconteceu com muitos outros miúdos que só queriam ter uma banda: nada mais importava.

Ainda põe um disco de blues a tocar e procura acompanhar, descobrir os truques e os segredos?

Não. Talvez não o faça aí há uns seis ou sete anos.

Depois de terem editado “Rubber Factory” [2004], por aí.

Sim, talvez a partir daí. Ao mesmo tempo que o nosso som começou a ficar menos áspero. Porque sempre gostei de muita música diferente, apesar de ter nos blues a minha grande paixão. Um pouco como o Pat. E começámos a tentar outras coisas, a compor mais. Quando ouço uma canção de outro artista, não perco tempo a tentar perceber “como é que ele faz aquilo”, não agora. Estou satisfeito com aquilo que sei e consigo fazer.

Declaração modesta, para quem gravou um disco a solo [“Keep it Hid”, 2009] em que tocou, gravou e produziu tudo sozinho.

Acredita nisto: para quem é músico há algum tempo, há coisas que, mesmo não sendo as que nos deixam mais à vontade, vamos conseguindo fazer e descobrir, ainda que a um nível muito simplista. Se o fizermos com cuidado, conseguimos convencer muita gente que somos peritos.

(publicado no i)
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