Manual de boas maneiras académicas pelo improviso de Filipe Raposo

Tem sido colaborador assíduo de tudo o que é músico, de tudo o que é estilo e moda – do trio de Yuri Daniel a Sérgio Godinho ou Amélia Muge à escrita para o Teatro Nacional D. Maria II. Mas Filipe Raposo, de 32 anos, é pianista e é compositor. A escrita e a interpretação deram em disco no final de 2011, “First Falls”, palpável e imediato como nem sempre se escuta na música improvisada. Porque esta é tão jazzística como contemporânea, é tão apaixonada pelos mestres clássicos como pela herança da música tradicional. Hoje ocupa o palco da Culturgest.

A edição deste disco é como passar do “por conta de outrem” para “empresário em nome próprio”, não?

É um pouco verdade. Quando sou sideman estou mais protegido, é certo, ainda que a entrega seja sempre a mesma. Mas claro que a atenção agora recai mais sobre mim. É um continuar. É como passar na auto-estrada, há pedaços sem luz, outros perto das estações de serviço… Mas como sempre trabalhei com pessoas e estéticas diversas, isso torna-se secundário.

Mas agora, com um disco em nome próprio entre lojas de discos e entrevistas, não há um classificação definitiva para esta música?

É difícil catalogar. Acho que a polivalência que cedo procurei me ajuda também a estar em várias frentes. Mas entre o jazz, as composições para teatro ou até o que já fiz na pop, o que atravessa tudo isso é a música improvisada. Das colaborações com o José Mário Branco até este disco. Mesmo que por vezes deixe esse carimbo apenas como marca de água, muito discreta. Quando trabalhamos com pessoas como o Fausto, com uma obra gigante, aprendemos mais do que damos.

Nas primeiras influências musicais que reconhece, existe um género específico?

Começou tudo a brincar ao piano, a fazer de maestro a ouvir a Antena 2. Os meus pais incentivaram isso e daí vieram as aulas, o Conservatório, a Escola Superior de Música.

Não houve, portanto, nenhum período de rebeldia rock’n’roll contra o mundo?

Não. A minha rebeldia era a de, enquanto os outros ouviam Nirvana e Pearl Jam, no sétimo ou no oitavo ano, ouvir música clássica. E a verdade é que, no meio dos meus colegas, era um verdadeiro freak.

E o jazz?

Aparece com o “Round Midnight” [filme de 1986, com o saxofonista Dexter Gordon no papel do músico problemático Dale Turner]. Lembro-me que foi anunciado no telejornal. Gravei e vi aquilo dezenas e dezenas de vezes. Puxava o piano para a sala para tentar tocar por cima do filme. Aí comecei a descobrir a música improvisada.

Seguiu-se muito estudo, que continua. Esta aprendizagem intensiva não cansa?

Às vezes não me apetece ouvir nada, de facto, quero ficar em stand by. Mas aquilo que a música me dá é muito superior ao que dou à música, é uma frase meio previsível mas é verdade. E sim, o upgrade diário é importante. E agora dou aulas no Conservatório em Coimbra e na Academia de Santa Cecília, que é outra aprendizagem. Dou uma cadeira que é Análise e Técnicas de Composição…

Um nome pomposo.

Sim, é pegar nos baluartes do passado e dissecar tudo, uma aula de anatomia com música.

Como é que alunos ansiosos por tocar e fazer a sua obra reagem nessas aulas?

Bom, isso depende. Tive vários professores nesta área e o segredo é cativar. O Eurico Carrapatoso, por exemplo, continua a ser o mestre. Como ele ensinou, o segredo está em relacionar a música com todas as artes, as humanidades, as experiências.

Os seus colegas de tempos de estudo são todos músicos?

Talvez não, mas também não éramos muitos. A música, em termos estatísticos, é uma das áreas de estudo que mais prejuízo dão ao Estado. Em média, no estudo de um instrumento, por exemplo, há um professor por hora dedicado a um aluno.

Mas além da música, instintiva e académica, “First Falls” também vem do cinema.

O disco é uma mala de viagem. Por isso há imagens de Kubrick ou Tarkovski. E há a memória de tocar na Cinemateca durante a projecção de filmes mudos, há cinco ou seis anos. Lembro-me de fazer dois filmes por noite.

Adivinhamos, então, uma generosa colecção doméstica de DVD?

Gostava de ter mais. Hei-de lá chegar.

(publicado no i)
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